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A Doutrina dos Idiotas

Atualizado: Jan 13


"Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus", essa é uma das expressões mais ricas do cristianismo para dizer que as palavras são insuficientes para encantar o Deus cristão. Os humanos, naturalmente imperfeitos, nem sempre são capazes de tal distinção, e, na maioria das vezes, o discurso é arte que encanta os seus sentidos.


Se pudéssemos listar — ou melhor, isso podemos fazer, mas seria cansativo demais ao leitor — encontraríamos diversos exemplos na história da humanidade, que teceriam, com linhas punitivas, as graves consequências legadas ao povo e àqueles que louvaram meros adjetivos.


A lei universal que mobiliza essa consequência — a semeadura — estabelece que colheremos os frutos de acordo com as sementes plantadas. Portanto, não é surpresa para ninguém o fato de que os discursos, especialmente aqueles que implicam em grandes decisões, carregam o mistério de sua execução. Para fugir deste chamado imprevisível, os filósofos empiristas passaram a acreditar apenas no que os sentidos observavam, estabelecendo conceitos objetivos para guiar suas decisões.


Há, contudo, um grande problema nessa decisão. As pessoas não se interessam por saber que a chuva cai, quando se pode dizer que "a chuva é o choro inconsolável dos deuses". Noutras palavras, nos discursos, as pessoas passaram a enxergar suas necessidades e razões para a explicação de toda existência.


Não que se esteja a desprezar as mais belas obras humanas, colhidas da gramática de seus espíritos — motivo pelo qual somos apaixonados por filosofia, por poesia, por poemas, coisas que não tem uma utilidade específica, mas que são necessárias à vida, como expressado pelo ator Robin Williams no célebre filme "a sociedade dos poetas mortos".


Não há problema nenhum em apaixonar-se pela maneira com que os homens expressam os desejos da alma, o problema é quando se está a buscar isso em política. Mas, ainda assim, esse não vem a ser o caso do presidente Bolsonaro, cuja retórica não encanta em nenhum aspecto.


A contingência feriu o coração daqueles que não desejavam, após diversas evidências, mais um governo assumidamente corrupto — e esse não foi o único fator. Jurava-se, além da pauta mencionada, pelo menos três grandes objetivos: o resgate da família tradicional, dos valores religiosos e, por fim, um ainda desconhecido "liberalismo".


Com promessas de um futuro glorioso e do resgate dos valores já mencionados, que teriam sido subvertidos por um socialismo devorador, o "mito" foi encarado como verdade. O brasileiro, seja para impedir o retorno de um governo manchado, seja para tornar a fantasia uma realidade, aprovou esse discurso e decidiu dar uma chance ao justiceiro aparente: o político que odiava políticos.


Chamado de mal necessário por alguns, de bom presságio por outros, o governo passou a desenvolver uma verdadeira militância incauta. Com o passar do tempo, o discurso passou a ser insignificante, pois não tinha qualquer compromisso com a verdade ou os valores que prometeu defender, mas passou a enxergar em seu líder o reflexo de um Brasil ideal.


O que Oakeshott chamou de política da fé, em nosso país, ganhou um exemplo tão vívido como o original do termo. A ideia de um governo conservador-liberal ruiu diante de tanta mentira e engano, revelando aos eleitores o que eles realmente escolheram: o príncipe do desespero.


Alimentando-se de sonhos, de medos, da angústia e de todas as sensações de um espírito desesperado, este senhor conseguiu subverter até mesmo a moral religiosa, valendo-se da verdade como libertadora, mas da mentira como alicerce. A verdade vos libertará, expressão que foi utilizada inúmeras vezes em seu discurso, mas a verdade já havia cegado os seus olhos há muito tempo, por isso a luz já não incomodava sua vista. Mas não bastava ao presidente apenas lamentar por sua própria miséria, seu objetivo era trazer a cegueira às demais pessoas.


Sua militância passou a aceitar com vigor as escolhas do seu mito, mesmo que isso simbolizasse, descaradamente, algo antagônico as bandeiras supostamente defendidas. A aliança com os adversários mais ferrenhos, seu papel de mercador diante do centrão, suas desculpas e armadilhas retóricas para camuflar os pecados dos filhos; Bolsonaro cultivou os próprios interesses e fez da política brasileira o quintal de sua casa.


O "salvador" deveria lutar contra o mundo todo para cumprir sua missão terrena, salvar essa nação era a tarefa que, com a ajuda de Deus, ele deveria executar. "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos"; e o povo refém de suas mentiras.


Se um sujeito foi capaz de subverter os próprios textos religiosos, porque não faria o mesmo com sua nação?


Reunindo as necessidades de uma nação faminta por justiça às suas ambições arbitrárias, formou-se um verdadeiro perfil vazio na política. Nada poder-lhe-ia ser aplicado como título digno senão o de louco, pois somente um louco poderia felicitar os seus erros como virtudes, e isso o presidente faz muito bem.


A consequência de um discurso desesperado? O resultado da aceitação de qualquer condição para livrar-se do que lhe aflige: um novo desespero. Os pesadelos não acabam, mas não culpa-se a fonte das aflições, culpa-se o hábito de dormir. Quando todos os espíritos desejam entregar-se incondicionalmente à política da fé, o ceticismo é sepultado no cemitério da imprudência, que coleciona os epitáfios dos verdadeiros benefícios da razão. Não lhe pode ser imputado o valor e a honra, pois todos os saberes humanos são destruídos em prol da subserviência vil; a escravidão voluntária da imoralidade atrativa, o discurso como bálsamo do miserável, o Bolsonarismo é a doutrina dos idiotas.


Por Renan Jorge


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