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A Perda da Identidade

Atualizado: 24 de Ago de 2020



Como a política ideológica pode por fim à identidade? O conservadorismo não é o tipo de filosofia que está a buscar a emancipação do indivíduo em relação à moral, nem tampouco o fim do Estado por representar um instrumento de opressão. De alguma forma, o homem está a envolver-se em grupos: famílias, clubes, igrejas, comunidades. O próprio Scruton reconheceu isso ao lembrar, com uma observação genuinamente erudita, que o homem está a buscar associações por conta própria:


"A livre associação nós é necessária não só porque "nenhum homem é uma ilha", mas porque os valores intrínsecos surgem a partir da cooperação social"


Scruton está a dizer que essas associações surgem de baixo para cima, ou seja, não são meramente imbuídas por um poder ou autoridade suprema, salvo em ocasiões excepcionais. Por fim, como reconheceu o próprio Scruton, o conservadorismo é a filosofia do vínculo afetivo, portanto, é razoável pensar que na política isso não seria tão diferente: continuamos a formar grupos. Nos organizamos e formamos grupos porque, de certo modo, agimos melhor, tais grupos dão uma ideia de proteção e de conexão. Contudo, se tais grupos passam essa impressão, de que modo a política pode fazer com que alguns indivíduos percam sua identidade? A resposta está, outra vez, no fanatismo carregado pela ideologia.


Apesar de, livremente, formamos essas associações, cada indivíduo responde apenas por si, e, portanto, espera-se que esse mesmo indivíduo assuma o risco e consequência de sua própria individualidade — um resultado impossível para alguns, como Hayek observou. Entretanto, nem todos são capazes disso, e quando se está a promover algo em nome de sua ideologia, isso não pode acabar bem. Surgem os conhecidos inimigos ou empecilhos no caminho da tão sonhada realização utópica, e ódio e aversão são eliciados tão intensamente que, mesmo sem perceber, tais indivíduos passam a repugnar tudo que representa o seu "inimigo". Burrhus Frederic Skinner chamou isso de operant generalization (generalização operante). Para resumir, trata-se de tomar como original qualquer figura similar à verdadeira: se você teme algum inseto, provavelmente temerá todo tipo de inseto semelhante ao seu medo primordial. Em política, isso é muito comum. Os ideólogos costumam odiar qualquer personagem por ser semelhante ao que eles não estimam: o conservadorismo, provavelmente, será odiado por ter sido associado ao Bolsonaro. E não estou a falar apenas em características físicas, estou a falar em escolhas: odiar um grupo que este político acolhe, odiar uma associação, uma entidade e, em alguns casos, até outras pessoas. O radicalismo, portanto, faz com que esse indivíduo perca o seu senso crítico e liberdade de escolha, e por odiar algo meramente por ser objeto de uso deste estímulo aversivo, o oposto pode ocorrer: apoiar o apaixonar-se por algo oposto, pelo simples fato de ser oposto.


Para por fim ao mandato daquele que está no poder, certas uniões e alianças vão sendo formadas — inclusive com "adversários". Uma nova causa surge: destruir este indivíduo em nome do "bem maior, ou pior, em nome do bem comum". O que estou a dizer é que, no fim, nenhuma ideologia, seja de um amigo, seja de um inimigo, é benéfica, nenhuma ideologia tende a acabar bem, porque ela não nasce da "associação livre", não nasce da vivência de um grupo para preservação da própria sociedade; ela nasce do ódio e do ressentimento, nasce de uma aliança forçada para por fim ao estímulo aversivo, nasce de um projeto temporário para tirar uma ideologia e consagrar outra — e, em alguns casos, talvez uma pior. A perda da identidade, portanto, surge quando o indivíduo, inconscientemente, já não reflete ou julga o fenômeno, mas o condena por seu nome, por seu símbolo, por sua possível associação com o que ele odeia. O fim da identidade é, ao mesmo tempo, o fim da razão, negar nossa natureza política e entregar-se ao animal, o ser mais primitivo e bárbaro, que por ser incapaz de raciocinar, toma todas as decisões por instinto.


O Brasil está repleto deste sentimento, foi entregue à ideologia, que o destronou de sua liberdade, entregando-o à prisão e à caverna. Não se pode enxergar a luz, apenas as sombras refletidas na imagem da vergonha, do medo e da ignorância, que diz aos seus prisioneiros: não há nada além dessas paredes, o escuro é confortável.


Por Renan Jorge.

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