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A Política da Esperança ou a Política do Vazio: Qual Delas Escolher?



Reflexões sobre a política Brasileira.


Ter esperança de que a política pode salvar o nosso país, ou embriagar-se com o puro ceticismo, correndo até mesmo o risco de alcançar uma espécie de crença no vazio? Descobriremos, ao longo deste comedido texto, se é possível responder este questionamento.


A política da esperança


Não há grandes descobertas que eu possa fazer sobre o que entendemos por esperança. No geral, creio que há avanços muito específicos com relação ao tema, e mesmo estudos muito bem elaborados — sobretudo em psicologia. O meu objetivo, no entanto, é a esperança no âmbito político, a ideia de que as coisas podem mudar — especialmente para melhor. Em primeiro lugar, cumpre destacar que a mudança é, de fato, inevitável. Aliás, estou inclinado a acreditar no devir, conceito elaborado por Heráclito de Éfeso, para explicar a mutabilidade constante de tudo que existe (tornar-se, do vir-a-ser). De uma forma ou de outra, seja breve, seja distante, tudo irá mudar. Talvez seja esse o motivo da inexistência da "fobia da mudança" do qual nós, conservadores, somos tão acusados. Que as coisas mudam, portanto, todos sabem; se mudam para melhor, isso é um mistério. Mas a ideia da esperança em política é, quase sempre, baseada na esperança da "mudança para melhor", talvez uma das grandes implicações da República. Na política Brasileira há uma espécie de promessa de reparação. Todo o candidato que apresenta-se no cenário político, se quiser obter qualquer êxito em sua campanha, precisa, necessariamente, apontar os erros da gestão atual e, além disso, prometer uma reparação. Não preciso pontuar exemplos muito específicos para esse argumento — bastar ter acesso aos debates de 2000 pra cá. A ideia da esperança está intimamente ligada à reparação, pois ambas estão alicerçadas na "utopia em vigília". A utopia em vigília é, a meu ver, o sonho mais perigoso entre todos, pois parte da elaboração de um sistema para lidar com o fim dos problemas da humanidade: os sonhos mais perigosos partem da vida em vigília. A esperança e a reparação são frutos dessa utopia em vigília, da elaboração equacional e calculista que é típica da humanidade. O candidato não precisa de grandes esforços para lograr êxito; ele precisa explorar esses sentimentos, confundir os sentidos, furtar a mente, cativar o espírito apaixonado pela esperança, pela mudança, pela fé. Essa é uma atitude intrínseca à natureza humana: todos têm uma esperança, uma crença. A política da esperança é como um espírito que furta a própria alma de seu dono, podendo ser aplicada às pessoas que prometam mudanças, o que explica o fenômeno, de novo, da mutabilidade de candidatos. A realidade é que não há muita importância na figura em si: os papéis nunca são trocados, apenas os nomes. Basta que este espírito saiba como corromper os outros: isso é a maior garantia de sua sobrevivência política.


A política do vazio


A política do vazio, apelido tecido com grande carinho, seria um estágio extremo da política do ceticismo, chegando à ideia do vazio: uma atitude niilista. As tradições, a moral e os costumes são excluídos de qualquer aplicabilidade lógica. A política do vazio parte do pressuposto de que essas ramificações não têm um objetivo específico, sentido ou qualquer explicação significativa, senão a sua própria necessidade de conservação: nada além do que o apreço por sua conservação, atendendo ao critério de beneficência. Na arte de governar, entende-se que não há nenhuma mudança significativa ou positiva que possa ocorrer por meio de qualquer indivíduo — a priori. A ideia é lidar com o acaso e o improvável: tudo pode acontecer. Não há crença em indivíduos, em sistemas elaborados, em ideologias: a única crença é o acaso. Crer no nada, crer no vazio, é apenas uma ironia às utopias existentes. Na política da esperança, os indivíduos depositam sua expectação no plano que, apesar de existir a priori, não existe empiricamente, portanto, reside na abstração de suas mentes. Na política do vazio, entende-se que não há nenhuma explicação lógica, nenhuma relação de causa e efeito. A ideia é que a vida, se levada em seu exame máximo, não tem nenhuma explicação factual — apenas nossa existência. Na política do vazio, portanto, não há uma razão ou explicação para conservação: ela pode ou não ser necessária, pode ou não existir, e, nos casos em que é aplicada, isso ocorre apenas pela conservação da identidade do homem social. A política do vazio é a rejeição da liberdade absoluta, mas também do controle absoluto, é a aplicação da descrença na mudança em detrimento da esperança. A política do vazio diz que todos os homens, sem exceção, não são dignos de confiança: especialmente os políticos. Todos os espíritos estão corrompidos, todos os espíritos estão quebrados.


Há um equilíbrio?


Apresentei-lhes minhas considerações sobre a política da esperança e a política do vazio, a crença e a descrença. Em suma, dois termos antagônicos. Procurei ser fiel na identificação dos perfis mencionados. Existem pessoas que acreditam na política, existem pessoas que não acreditam, mas ainda existem aqueles que estão entre esses conceitos. O conservadorismo, é claro, está atrelado à política do ceticismo — há um ensaio neste mesmo blog conceituando essa atitude. Há casos em que vivenciamos os dois: outrora queríamos mudar o mundo, hoje não mais, alguns ainda desejam, outros não, etc. Mas, afinal, qual é a resposta? Qual atitude devemos tomar? Não creio que haja uma resposta, uma regra, um manual, uma cartilha que diga: faça isso. O equilíbrio, talvez, seja conviver com os dois tipos. Como costumo dizer: necessitamos de sonhadores e pessimistas. Talvez o equilíbrio seja, de fato, uma atitude conservadora: recusar ambos os tipos — apesar de aplicar alguns, em alguns casos. O extremo sempre suscita uma reação, uma resposta à existência corrosiva. A política do vazio já acometeu alguns Brasileiros, assim como a política da esperança. Que fim isso levará, eu não posso prever: tudo dependerá da contingência.


Se eu acreditasse em uma mudança no mundo, certamente não seria pela política. Talvez, pela arte. Quem sabe isso não cure a humanidade de seu pior mal: ser humano.


Por Renan Jorge

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