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A Revolta dos Renegados e o Fim da Era Trump

Atualizado: Jan 13


Escrito por: @_Conservador



Ao passo que os yankees mais fanáticos presenciam o mais breve e tentador vislumbre do último e ínfimo lapso de sobrevivência política que lhes restam, a figura de Trump, tal como a imprensa americana alardeou durante anos, finalmente veio à tona. O político caricatural, carismático em sua oratória, dotado de uma retórica sedutora, de trejeitos inconfundíveis e de conquistas invejáveis enquanto self made man, perde a sua popularidade enquanto outsider zarpando à beira do esquecimento. Outrora atribuído como uma das personalidades mais emblemáticas da década a nível internacional, Donald Trump agora pertence à ruína dos renegados da história americana.


Como é de conhecimento geral, Donald J. Trump, com a pouca dignidade que ainda lhe restava, fez jus à sua reputação de personagem extravagante e de celebridade inconsequente ao incitar, primariamente, a invasão ao Capitólio americano nesta semana.


Se por um lado Trump insistiu que não aceitaria a vitória de Joe Biden nas Eleições Americanas de 2020 incitando a marcha até o Capitólio (o que já é um grande impropério tratando-se da contestação alucinada do procedimento que envolve todo o sistema eleitoral), por outro lado, o então Presidente Americano, acima das expectativas, dos delírios e dos limites possíveis da loucura, pressionou o vice-presidente, Mike Pence, que presidiria a sessão no Congresso, para que não certificasse a vitória de Biden, ação esta sem qualquer precedente jurídico ou fundamento constitucional.



"Espero que Mike faça a coisa certa. Se ele fizer, venceremos a eleição" - Donald J. Trump


Malgrado seja o destemperamento e os infortúnios proclamados pelo Presidente da República, Trump, como sujeito torpe e desleal que é, acabou por dirigir-se à figura do ex-presidente em sua conta oficial do Twitter, logo em seguida, revelando a sua suposta insensatez e covardia ao rejeitar a soberba, o cinismo e a falta de confiança institucional do companheiro republicano.



Mas por que a imagem acima é tão relevante para o debate político mundial? Por que o Twitter precisou se posicionar acerca de uma postagem aparentemente indiferente? E por que os comentarista de ocasião, de uma hora para outra, se tornarão tão polvorosos com a suposta censura da postagem de Trump? A resposta é muito simples. É evidente que o cerceamento da circulação das postagens do presidente mais poderoso do planeta, consequentemente, convoca várias das serpentes jornalísticas cujos interesses envolvem não somente nutrir-se do escândalo anunciados pelo primeiro grande evento político do ano, como também vangloriar-se de tamanha visibilidade ao passo que inúmeros passarinhos bisbilhoteiros alimentam, em parte, a sua relevância, em parte o seu intrépido e inquestionável ego enquanto jornalista.


Mas já voltando à restrição da mensagem de Trump, decisão tomada pelo alto escalão do Twitter, penso que, uma boa análise, deveria fazer jus à duas frentes: a frente do indivíduo, sendo categorizada pela figura do mensageiro (ou de emissor) e a frente do operador de serviços (ou prestador de serviços) no ramo de redes sociáveis, no caso o Twitter, sendo ele um monopólio, uma holding, um truste, uma empresa pública, privada, o que seja.


Como já analisei em outros artigos, tais como "Quando o Mercado Estimula o Próprio Boicote" ou até "Carrefour: Quando a Sentença Midiática Prescreve a Justiça", é inconcebível uma empresa, devido a sua localidade e ao seu ambiente pretensamente privado, ditar regras que vão de encontro a certos valores objetivos inoculados, inclusive, pela própria Democracia Liberal. Por isso, inclusive, que me permito tecer esses comentários, não enquanto entusiasta, mas enquanto crítico da metodologia e do pensamento Liberal, sendo ele de origem Clássica ou Progressista.


Dentro do Liberalismo, acima de tudo aquele que se intitula "Igualitário", é perceptível uma certa seletividade se tratando das diferentes liberdades: de empreender e de se expressar. Antes de analisar os dois fenômenos, é importante que se faça a primeira provocação para atiçar aqueles mais desavisados que não se conformam com possibilidade (ainda que ínfima) de que certas liberdades, pelo fato de serem, resumidamente, exercidas de maneira quase que irrestrita pelos seus praticantes, não significa, necessariamente, que a proposta (culturalmente incompatível para países como o Brasil, por exemplo), terá fins benevolentes ignorando-se a obediência a um senso propositivo e ordeiro ou a um algum princípio, paradigma ou entidade superior ao próprio conceito de liberdade, sendo que, no último caso, o indivíduo tem muitas vezes que abdicar-se dos seus desejos mais pessoais e mais subjetivos a fim de atingir o mais próximo de uma vida isenta de pecados e de inconsequências do ponto de vista ético e moral. Em tese, o "verniz" que a conduta libidinosa inerentemente recebe, não pode estar isenta de críticas sob pretexto de se atingir a "tendência natural do ser humano" que, nesse caso, seria a de atingir a liberdade e a felicidade acima, inclusive, da hereditariedade, das tradições locais e da inviolabilidade humana perante a lei e, em casos mais extremos, perante àqueles que, sob pretexto de liberdade, impedem a vivência, a essência e a consistência, elementos tão fundamentais para a formação e consolidação do ser humano.


É aí que mora a contradição dos Liberais: a seletividade no âmbito das liberdades. Se um liberal, por lei, defende os fatores individuais acima dos interesses coorporativos, religiosos e até familiares, será que os métodos abortivos, por exemplo, dados como inconcebíveis frente ao pelo Juramento de Hipócrates, frente à Igreja Católica e demais organizações de saúde, podem ser limitados à irreverência de uma mãe e à revelia do indivíduo lesado se, por definição, o estirpe do filho e quase que certo tendo em vista os limites morais estabelecidos pela própria mãe e, em algumas ocasiões, fomentados e incentivados pelo próprio Estado, atribuindo-se, portanto, um valor diferente à vida de dois seres humanos supostamente iguais se tratando de valor e essência ao invés de temporariedade, externalidade, saúde, formação fisiológica e, é claro, ausência ou presença de faculdades mentais ou desejos intrapessoais?


O que será que vale mais? A vontade do ser ou as suas atribuições morais e responsabilidades enquanto um possível cerceador dessas liberdades? Ao ter a liberdade para ceifar a vida de um nascituro inocente, consequentemente você retira a essência, a vivência, o desenvolvimento natural, os pensamentos e desejos mais íntimos, o apreço pelo que é belo, justo e correto (ainda que ele não as tenha por completo) e é claro, a possibilidade de se defender, já que essa responsabilidade foi dada a mãe, decisão esta que relativiza o conceito de justiça e instrumentaliza a sumarização do ímpeto abortista.


O que vale mais? A liberdade de expressão ou a liberdade de empresa? Será que o desejo pessoal de me exprimir é o maior que o desejo de proteger a reputação de uma companhia que provém algum tipo de vínculo empregatício? Será que uma empresa, restrita à localidade privada, pode ditar regras que, mesmo indo em direção ao interesse majoritário, permanecem contra a lei?


Claro que este não é o caso, mas é importante refletir a este respeito para não cair na tendência de acreditar que todo mundo pode fazer o que bem entender sem ter que responder a algo maior do que vontade de fazer aquilo que é errado sabendo que é errado (como o caso do aborto).


No caso do Twitter, a situação envolve circunstâncias um pouco diferentes daquelas que foram abordadas por mim: em geral, como já escrevi algumas vezes, não sou um grande entusiasta da liberdade (absoluta e irrestrita) de expressão, principalmente se a ela for atribuída a idoneidade do emissor. O emissor, tratando-se de um Presidente da República, é, diferentemente de uma celebridade ou de um influenciador digital, alguém realmente poderoso e influente do ponto de vista de identidade e cinesia política. Esse emissor, enquanto orador e portanto, enquanto possível difamador, tem o dever de se responsabilizar não pela sua fala, mas pela instabilidade que afeta não somente o seu decoro enquanto membro da vida pública, assim como afeta, também, a estabilidade de social, política e financeira de milhões de americanos que nada tem a ver com as atitudes imprudentes que levaram o país àquilo que eu chamo de "A Revolta dos Renegados".


É verdade, o Twitter enquanto concorrente de um ramo que notoriamente não dá margem para grandes concorrentes que não sejam os veículos remanescentes do Facebook (enquanto holding), contudo, apesar dos criadores do Twitter pertencerem à iniciativa privada, é dever do aplicativo atender à consciência pública e à Lei Federal (ou vocês acreditam que os grandes veículos de comunicação não têm que obedecer ao "Marco Civil da Internet"?) de cada respectivo país. Existem responsabilidades que transcendem a propriedade privada e banir a conta de um cidadão comum ou de um Presidente da República, dependendo das circunstâncias, não condizem com a obrigatoriedade legal ou com o dever cívico que a rede social exerce no ambiente público, ainda que pertença, majoritariamente, ao ambiente privado de cada um.


Se tratando de uma instabilidade incalculável a instituições importantes como o Congresso Americano, é provável que Trump, apesar de ter ordenado que os invasores saíssem do local, acabe como o principal incentivador (e por que não incendiário?) dessa história toda.



Devo lembrar aos leitores que ainda têm algum apreço pela figura de Donald J. Trump, que o Presidente, quando se dirigiu aos invasores do Capitólio, disse "We love you. You're very special" inclusive para manifestantes que hastearem bandeiras, aparentemente neonazistas, atitude que provavelmente inviabilizará qualquer chance de vitória de uma provável chapa com o Trump em 2024. Se por um lado o eleitorado de Trump preza pela proteção, pela defesa e segurança nacional, por outro lado Biden, o próximo Presidente Democrata a assumir a Casa Branca, pode conceder essa sensação de estabilidade, ainda que seja através da retórica de amparo e seguridade social.



Escaleres foram avistados, a evidência de que uma guerra se iniciou Muitos guerreiros nórdicos, suas espadas e escudos brilham ao sol Corram às armas defendam-se, preparem-se para resistir e lutar por suas vidas O dia do julgamento chegou então prepare-se, não corra, defenda sua terra... [...] Eles estão vindo do mar Eles estão vindo, o inimigo Sobre o sol brilhante A batalha tem de ser vencida Invasores pilhando Invasores lutando. - Invaders (1982) Iron Maiden


Por fim, confesso que nunca pensei que iria citar uma canção da banda britânica (Iron Maiden), mas abro uma exceção para casos extremos. O cidadão exibido na imagem é tão caricatural e, acima de tudo, tão surreal quanto Invaders.

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