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A Tirania do Voto

Atualizado: Nov 16


Se você está a navegar, neste domingo (15), pelas redes sociais, já observou, especialmente no Twitter, que há um conjunto de frases como “vote consciente”. Não estou a dizer que isso não é necessário e, portanto, recomendo aos que pretendem votar neste domingo, que, por favor, não bebam. Deixando o tom satírico de lado, o que significa votar consciente para algumas pessoas? A resposta: votar no candidato que elas defendem. O voto é um modo tirânico de imposição? Provavelmente, um libertário lhe dirá que sim. Um conservador pode dizer a mesma coisa? Historicamente, a tradição conservadora não está lá muito acostumada com o “direito de escolher um governo para nós mesmos”. Claro, estou a usar uma expressão de Burke para classificar o principal ideal da revolução francesa. Já descrevi o ocorrido em outro ensaio, e o ponto é que Burke não considerava um Rei que não foi eleito por seu povo menos legítimo do que um rei dentro dessas condições. Isso é verdade, por uma série de motivos, mas o principal deles é: a virtude de governar não está no direito de escolha de um povo, mas na excelência de exercer o poder. Michael Oakeshott diria algo parecido em relação à virtude da “regra”, que não está no fato dela ser justa, mas de ser cumprida. O que estou a dizer? Que o povo — principalmente o povo — é capaz de escolher maus governantes. Mas a tirania do voto não está somente no fato de não se escolher ou escolher um governante, ela começa por não permitir que eu não vote. Alguém poderia dizer, é claro, mas você pode justificar, você pagará uma multa ao Estado, o valor é pequeno. Ora, nada disso faz qualquer diferença. Eu não tenho que dar qualquer justificativa ao Estado por não querer eleger quem ele está a determinar em seu cardápio de escolhas. O Estado que deve-me explicações: é ele que precisa convencer-me de que preciso votar em alguém, convencer-me da importância do voto. Depois disso, a tirania do voto, fugindo das esferas do poder público, está a ser manifesta nos próprios eleitores. Não todos — estaria a mentir se assim afirmasse — mas boa parte das pessoas não têm qualquer compromisso com o “direito de seu voto”, o compromisso delas é com a escolha de seus candidatos. Ou seja, vota consciente quem vota como eu, pois sou o único capaz de raciocinar. Será? Sim, a grande presunção intelectual, que foge aos desígnios da humildade.

Isso também não significa que não existem candidatos ruins — ah, como existem. Pessoas que estão a utilizar os cofres públicos para zombar de você, para se vestirem de modo extravagante, como personagens que só deveriam ser vistos no carnaval. Você tem o direito de insultar pessoas assim, de satirizá-las, de demonstrar como a insignificância de sua existência na política está a incomodar-lhe. Tudo bem! O que você não pode fazer é provocar qualquer dano objetivo aos eleitores que pretendem votar em pessoas assim — isso você não tem o direito de fazer. Depois de atingir a fase adulta, as pessoas devem ser conscientes de suas escolhas — por isso não recomendo ir votar alcoolizado. Pessoas nessas condições — adultas— não precisam de qualquer atitude paternalista de outros adultos. Podemos alertar, zombar, isso podemos; só não podemos exigir e obrigar que votem em nossos “santinhos”.

Se você deseja votar num bolsonarista, num petista, vote; mas esteja pronto para as consequências de sua escolha. Prepare-se para ser refutado, questionado e até insultado caso o seu candidato venha causar danos às pessoas. Se você pretender votar, mas não pretende assumir essa responsabilidade, então você não passa de um espírito covarde. Seria o mesmo que dizer: quero sair às ruas com uma cueca na cabeça, mas não quero ser provocado por isso. Nesse caso, talvez seja melhor ficar em casa. A tirania do voto é o rito de uma religião iludida, que está a pensar ser livre por poder escolher quem lhe enganará por mais um tempo. Todos são assim? Evidentemente, não. Mas não se pode tirar o direito das pessoas de protestar contra a história dos últimos anos no Brasil. Por Renan Jorge

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