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A Tradição Conservadora


Escrito por: A Vida Conservadora - Ciência e Política



É claro que para construir algum tipo de tradição são necessários princípios pelos quais esta tradição se tornará viável. Mas não somente isso, essa viabilidade, através de uma esfera de valores, deve ser capaz de conceber um certo conhecimento e uma certa vocação de busca pela verdade para que, aliado ao sentimento, possa-se estabelecer as condições necessárias para o aprimoramento das noções e das relações humanas. Este sentimento, aliado a verdade, a moral objetiva, a genealogia de deveres e a hereditariedade das conquistas humanas tanto no âmbito das ciências como também no campo das leis, da ética e dos avanços e retrocessos concebidos pela ação do homem consistem a origem da tradição, espinha dorsal do pensamento conservador. A pergunta que não quer calar é: como construir uma tradição conservadora no Brasil? Talvez todos adeptos do Conservadorismo já receberam a seguinte indagação: mas o que tem para ser conservado? Esta é uma das perguntas que mais caem ao colo dos conservadores quando digo que respeito a tradição e que sou adepto do Conservadorismo. Muitos contrapõem os direitos adquiridos pelos homossexuais, o sufrágio universal como algo que todo conservador almeja e não mede esforços para destruir. Entretanto, devemos nos lembrar que todas essas conquistas foram usufrutos do indivíduo, ou seja, uma conquista da liberdade individual em contraponto ao Estado e que todos aqueles que respeitam o indivíduo desejam conservar. Assim fica claro, ao menos para mim, que todos deveriam ser conservadores nesse sentido de respeitar não somente as liberdades individuais (visando um bem geral), como também as grandes conquistas da humanidade.


Em uma entrevista ao Bruno Garschagen, tradutor do livro "How To Be a Conservative?" em português: "Como Ser um Conservador?" Scruton sugere que o Conservadorismo evolui com a história humana sendo guiada pela busca dos princípios básicos que regem essa sociedade e que, na minha leitura, estão relacionados a algo como a fundamentação teórica das liberdades individuais, do respeito à tradição e àquilo que é clássico, algo como as "predisposições" (tendências adquiridas pela experiência humana que Burke apelidou como as práticas sociais que foram herdadas e transmitidas ao longo de gerações) e a moral atrelada aos princípios da fé cristã. Claro que é necessário o entendimento do momento histórico em que vivemos já que não basta pensarmos apenas no Estado ou na economia como se estivéssemos no século 18 ou 19, como é o caso dos progressistas que possuem uma necessidade de replicar o discurso da Mais-Valia ou até mesmo falácias do Jogo de Soma Zero, ideias já refutadas em grande parte pelos liberais do século XX. Assim, devemos ter o entendimento daquilo que origina uma tradição. Se o leitor analisar os pensadores modernos progressistas da New Left, perceberá que esses intelectuais não somente interpelam as noções de propriedade privada visando contrapor o Capitalismo para substitui-lo enquanto modelo econômico vigente, mas o visam também para substitui-lo enquanto modelo histórico (concebido através experiência humana) ignorando todas as conquistas que o consagraram como o sistema econômico mais eficiente já antes visto, seja seguindo os princípios do Liberalismo, ou do Desenvolvimentismo e assim por diante. Mesmo com todos os defeitos inerentes ao Capitalismo, como a desigualdade social, a exclusão, a escassez de oportunidades, o consumismo, a valorização do mercado acima das noções e da proteção do indivíduo, ainda sim existem certos elementos dentro da concepção e da geração desse regime capitalista que devem ser preservados inclusive desses intelectuais de esquerda que, em muitos aspectos, acreditam na substituição letal e nada gradual de um sistema que levou séculos para ser laborado, décadas para ser aprimorado, anos para ser reformulado, como se estas conquistas pudessem ser alteradas seguindo os caprichos da Intelligentsia internacional ou então seguindo a sua própria intuição egoísta a respeito de como o mundo deve se portar de acordo com a sua lógica mesquinha sem prejuízo do fato de que a tradição, como fator fundamental, é essencial para a formação de um povo e de uma nação.


Como descrito em “Tolos, Fraudes e Militantes”, Scruton, analisando os pensadores da nova esquerda nos USA, percebeu que, na verdade, o “consumismo” é real problema do Capitalismo já que a propriedade é um direito inalienável de um cidadão e o consumismo uma consequência, um vício de um sistema que concebe a liberdade (seja ela econômica ou individual) sob pretexto de se comercializar aquilo que há de mais irresponsável e antiético dentro de uma sociedade e que propicia, entre outros aspectos, quase todos os bens e serviços através de uma lógica de mercado sem visar o aspecto moral da defesa da vida e da integridade humana. Desse modo, já percebemos que existe uma falha no conceito de liberdade individual e, assim como essa concepção de indivíduo, o pensamento de ressentimento da propriedade privada alheia também reside no Brasil. Basta analisar os sintomas de uma sociedade pautada pelos ideais de combate às injustiças e desigualdades (sem levar em consideração o meio pelo qual esta liberdade será inserida) que eleva ao posto de justiceiro social o candidato a Prefeitura de SP Guilherme Boulos que não somente vilipendia e desrespeita as noções básicas de propriedade privada como também vai de encontro a certos fundamentos e a certas unanimidades que compõe a nossa sociedade e que historicamente foram primordiais para o avanço e para o desenvolvimento tanto das nossas relações comerciais (com mais liberdade econômica, noções de propriedade privada, livre mercado etc) quanto das nossas relações sociais (repartição de terras, divisão do indivíduo, Estado e Igreja, proteção dos direitos inalienáveis perante o Estado e assim sucessivamente).


Toda essa elite intelectual com seus modelos inovadores de governo está contra não somente aos avanços e às noções mais essenciais e primordiais da vida humana (como a propriedade, ao próprio conceito de justiça), bem como a certos valores e certos vínculos (de cidadania, afetivos e até familiares) que não necessariamente partem de uma lógica cientificista e reducionista, mas sim de uma série de concepções práticas que independem inclusive da própria racionalidade humana. Sem isso seria impossível criar tal tradição.


A tradição está tão ameaçada que basta qualquer um dizer que são devotos de Jesus Cristo que automaticamente é taxado de fundamentalista religioso. Assim, aqueles que dizem “liberdade é essencial”, não entende o quão contraditório soam quando dizem que os devotos da religião católica, por exemplo, são incultos ou então são extremistas religiosos e anticientíficos. Novamente, existe um exemplo de que para conservar a tradição é necessário pautar exaustivamente as liberdades individuais (não com fim em si mesmas, mas como adeptas a um sentimento de busca pela verdade, por um bem maior). Pode parecer repetitivo, mas existem vários exemplos, além desses aqui já citados que corroboram para minha análise.


Devemos nos lembrar de alguns fatores que permitem que a tradição conservadora seja aceita pela maioria daqueles que constituem a sociedade, basta o leitor analisar o momento difícil em que vivemos. Dito isso, é preciso frisar pela manutenção da primeira pessoa do plural no imaginário popular brasileiro. Pode até parecer uma ideia ingênua da minha parte, mas para que um país herde e repasse esta tradição, é preciso que haja um certo respeito para coma coisa pública bem como aos outros indivíduos que compõe a sociedade que por sua vez nunca esteve tão danificada. Basta ver as imperícias da pandemia: não existe respeito ao próximo, muito menos compaixão, aquilo que todo cristão acredita e aplica, não esquecendo que, tratando-se de um pecador, é alguém que também erra.


Como uma síntese desse vínculo (ou da ausência dele) Ted Cruz, senador americano, em uma discussão com a ativista e atriz Ellen Page, mostra a ela que quando existe uma crise eminente é necessário aplicar o sentimento mais fundamental da humanidade, em que a moral supera todas as coisas, ou seja, uma tradição clássica dos seres humanos. Isso nunca poderá mudar se não nos solidarizarmos em respeito àqueles que morreram, àqueles que estão vivos e passam necessidades ou àqueles que ainda irão nascer e pelos quais não se tem nenhum apreço do ponto de vista de valor à vida humana. É por isso que digo: há uma campanha massiva para destruir o que concebemos como "tradição" e a resposta mais prudente a este "espírito revolucionário" é o Conservadorismo. É através deste pensamento e dessa filosofia de vida, baseada no entendimento das conquistas do individuo, que poderemos desencadear um sentimento ou ainda, um vínculo ou quem sabe até uma política conservadora para nosso país. Portanto, o problema do Brasil não é econômico ou político, mas sim a falta do apego à tradição e o respeito àquilo que é belo, àquilo que é eterno, àquilo que é clássico.


Doravante dizia que a criação da tradição conservadora deveria ser baseada em três pilares: A liberdade do indivíduo, o entendimento da primeira pessoa do plural e que a livre associação é regida por Leis fundamentais. Assim, poderemos construir uma tradição, em que o ser social é respeitado como um Individuo, ou seja, ele pode discordar de tudo que eu acredito, mas como ele é um “irmão” discutiremos e respeitaremos cada ideia sabendo que, no final das contos, fazemos parte de um mesmo todo.

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