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A Verdade sobre o Conservadorismo

Atualizado: Mar 10


Escrito por: Alexsander Alves da Silva

O objetivo deste artigo é expor de forma resumida a filosofia conservadora, diante de diversos equívocos principalmente no Brasil atualmente, é necessário salientar o que significa conservadorismo, que além de ser colocado em muitos casos de forma pejorativa, os próprios que se intitulam "conservadores" usam o termo sem o mínimo de conhecimento sobre o assunto.


É comum as pessoas pensarem que o conservador geralmente é alguém que se opõe às mudanças e de certa forma tende a perpetuar paradigmas, mas na verdade se trata de uma visão pessimista e analítica sobre a realidade, isso significa que não existe uma proposta política propriamente dita do conservadorismo, em outras palavras não se trata de uma ideologia política, pois não há modelo de mundo conservador. O que é proposto em relação às ações em sociedade por parte do conservadorismo é fazer reflexões baseadas em dados empíricos, de forma a agir com cautela.


Tudo o que será proposto adiante dentro de uma reflexão abstrata, é apenas um exercício, não existe um modelo ideal dentro de um arcabouço filosófico conservador.


Geralmente os conservadores adotam o modelo liberal, pois o pai do conservadorismo Edmund Burke era um whig (equivalente aos liberais ingleses), além de ter herdado características de seu fundador sendo ele um liberal a ideia de liberdade foi conveniente para o quesito de suspeita ao ser humano, a principal virtude de conservadorismo que dá base para suas demais reflexões. De modo geral, os conservadores no sentido político também são liberais, ou seja, o conservadorismo enquanto uma ideologia política também é progressista (progressista em um sentido genérico, não se referindo ao progressismo partidário de esquerda. Esse termo é usado também em filosofia política para se referir as ideologias humanistas de modo geral), pois não nega a modernidade nem o progresso humano, mas tem como base o sentimento de suspeita herdado da filosofia cética muito presente na Inglaterra durante os séculos XVII e XVIII.


É importante também destacar que existem mais de uma definição do pensamento conservador como: liberal-conservador, paleoconservador e neoconservador. Das vertentes mencionadas o liberal conservador será o nosso alvo.

Uma outra impressão comum é pensar que os conservadores são reacionários ou tradicionalistas. O reacionarismo surge no iluminismo, essa ideologia acredita que apenas no passado há aquilo que humanidade tem de melhor, e por esse motivo a mentalidade reacionária tende a buscar por meio da ruptura resgatar o passado ideal. Essa ideologia tinha como principal intuito negar a modernidade e resgatar as "virtudes morais" que só existiram no passado. Por outro lado os tradicionalistas sendo menos radicais, apenas acreditam na necessidade de manter as tradições que ainda estão presentes, com o intuito de preservar o bem estar social e a ordem. Porém, esses por sua vez também não são abertos às mudanças.


Antes do desenrolar de uma breve história sobre conservadorismo, irei apresentar duas definições genéricas sobre. O primeiro é o conservadorismo no sentido amplo, nesse caso qualquer um pode ser um conservador, pois isso dependerá do quanto se deseja conservar e proteger as coisas importantes, seja no âmbito individual ou social. Para dar um exemplo claro, um revolucionário ao substituir o regime vigente fará o esforço necessário para conservar as mudanças obtidas, nesse sentido não se trata necessariamente de valores tradicionais, mas daquilo que é importante para o indivíduo ou o coletivo, e ao ter realizado tais conquistas, seja um revolucionário ou um progressistas (ambos os termos também no sentido amplo, independente do espectro político) procuraram ambos conservar as conquistas de seu tempo, caso surja algo que venha contrariar tais valores e bens obtidos.


O segundo é o conservadorismo no sentido restrito, nesse caso se trata da filosofia política. Como já foi dito, o conservadorismo enquanto filosofia tem um objetivo muito mais analítico do que de soluções, o empirismo e o ceticismo são as correntes filosóficas essenciais para sua origem. O ceticismo vem de uma herança filosófica helênica. O cético tende a ser duvidoso sobre as capacidades humanas, seja de moldar a sociedade por meio de engenharia social, seja na capacidade de resolução de todos os problemas. O cético tende ao pessimismo, ainda que reconheça o homo sapiens como um animal de intelecto superior, sua atitude tende a ser de dúvida e de cautela, mas obviamente levando em consideração os dados concretos, que se referem também a capacidade humana; isso significa que o cético é na verdade alguém moderado e que costuma suspender as certezas absolutas.


O conservadorismo no sentido restrito tende ao sentimento de suspeita, mas se utiliza do método empírico ao analisar a realidade e propor soluções de forma pragmática.

Porém essa filosofia passa a adotar o modelo liberal a partir do momento que seu pai fundador era um liberal moderado.


Revolucionários franceses em 1789


Em 1789 ocorreu na França uma revolução que impactaria o ocidente até os dias de hoje, naquele período a França passava por instabilidade na monarquia, estava em desgaste socioeconômico e a população a mercê de um Estado em ruínas foi alvo fácil para narrativas e supostas soluções que restauraria a situação socioeconômica. Nesse mesmo contexto, o movimento iluminista com diferentes vertentes ganhava força na Europa, e os ideólogos iluministas franceses logo começaram a fomentar uma revolução contra a monarquia.

Edmund Burke (1729-1797) um filósofo e analista político irlandês, presenciou este acontecimento histórico, porém sua visão sobre o andamento da revolução não foi positiva, a ideia de uma ruptura total e um desligamento brusco com as instituições tradicionais teria o pior resultado. Ele reconhecia a importância das mudanças naquele contexto francês, mas criticou de forma incisiva o modo jacobino de propor mudanças. Em um período de 1 ano, cerca de 16 mil pessoas morreram decapitadas em nome da revolução.

O contexto onde surgiu o conservadorismo foi o de caos, e sua primeira característica seria o ceticismo, uma desconfiança e dúvida em relação à capacidade humana de resolver todos os problemas, e muito menos na possibilidade do ser humano construir uma sociedade perfeita.

Para Burke, a nossa capacidade humana é limitada e a cega confiança na razão poderia nos levar a um descolamento da realidade, e posteriormente a nossa ruína. Nossa melhor opção então, seria se apoiar nas experiências das antigas civilizações, observar atentamente as escolhas que levaram antigos povos ao caos, agir com prudência, fazer escolhas sensatas, e reformas graduais, reconhecendo sim as mudanças e se adaptando, mas sem mudanças radicais baseadas em ideias puramente abstratas e supostos modelos de um mundo perfeito.


Burke seria considerado então “o pai do conservadorismo”, seu livro reflexões sobre a revolução na França ficou conhecido e inspirou pensadores de grande porte na Inglaterra e no ocidente.



David Hume

Uma das filosofias que foi base do conservadorismo foi o empirismo cético. Em destaque um dos grandes pensadores empiristas foi o filósofo David Hume (1711-1776); o empirismo explicando em rápidas palavras, seria um pensamento que acredita que nossa compreensão da realidade é baseada em experiências, percebidas pelos nossos sentidos naturais, e as ideias formuladas em nossa consciência seriam impressões dos fatos concretos da realidade, ou seja, toda a noção que temos do mundo, as coisas que consideramos verdade, o senso comum, e a nossa percepção do que é a realidade não são frutos de ideias abstratas compreendidas através de uma pura racionalidade, mas as ideias são baseadas em impressões filtradas da realidade objetiva. Sendo assim, dados concretos que se mostraram efetivos são levados em consideração, como certos hábitos que guiam as sociedades


Hume compreendia também a razão como uma ferramenta para compreender a realidade, dentro de um arcabouço lógico, mas entendia que a pura racionalidade não era o suficiente para compreender a realidade em sua plenitude. Immanuel Kant (1724-1804) filósofo que reuniu o empirismo e o racionalismo, com sua aplicação dialética sobre o acesso ao conhecimento, argumentou que a pura razão poderia criar uma ilusão da realidade. Aplicando a teoria dialética aos seus moldes, descreveu que a conclusão sobre os objetos da realidade são a síntese da teoria formulada sobre o objeto e a experiência concreta.


Agora que foi contextualizado o surgimento da visão conservadora, e do empirismo que é na verdade uma das vertentes aristotélicas, e os acontecimentos que proporcionaram sua gênese, explicarei a fundo alguns dos aspectos principais da tradição liberal-conservadora. Baseado em análises de pensadores conservadores como: Russell Kirk, Michael Oakeshott, Roger Scruton e o próprio Edmund Burke.



Ceticismo: O conservador antes de tudo é um cético, pois surgiu justamente em um contexto de dúvida em relação a pura racionalidade, nem sempre as ideias condizem com a realidade; o ceticismo reconhece que o ser humano é falho, afinal os problemas sociais são fruto de ações humanas, embora a própria natureza venha sobressair as ações humanas e causar catástrofes, todas as demais falhas sociais são causadas por humanos, ou seja, é melhor agir com cuidado e não acreditar em uma ideia de progresso linear por meio da pura razão abstrata, pois essa racionalidade teórica é limitada, achar que somos capazes de controlar todos os aspectos da realidade através da pura idealização é no mínimo ingenuidade. Os próprios responsáveis pelos desequilíbrios sociais seriam aqueles que salvariam o mundo?


Ora, mal somos capazes de compreender muitas das vezes nossos próprios dilemas internos, ou responder diversas demandas complexas, como seria possível um grupo de pessoas resolver todos os problemas sociais e econômicos da humanidade? A cega crença na racionalidade e na capacidade humana de arquitetar seu próprio destino sem margens de erros, acreditando que seria possível construir uma sociedade utópica culminou nos grandes massacres do século XX.


De certa forma o ceticismo no conservadorismo é uma posição de humildade, um reconhecimento que o ser humano é limitado. A maior certeza que podemos ter é que na verdade há poucas coisas que sabemos. O que não significa que o ser humano não tenha mudado a sua própria realidade por meio de seu intelecto, porém, há diversos fatores complexos que nos limitam a agir na realidade.

Prudência: A prudência é uma consequência do ceticismo, pois se a capacidade de raciocínio humana é limitada, se a realidade é muito complexa para entendê-la em sua totalidade, como agir?

A prudência é uma virtude conservadora essencial, nos propõe à agir com cautela, sensatez, analisar as experiências com cuidado e tudo aquilo que já foi testado. Nas palavras de Russell Kirk “a política é uma ciência empírica”, as ações políticas não devem se embasar em teorias puramente abstratas e por pura idealização, mas de forma pragmática, através da observação real e concreta da sociedade, de acordo com as demandas mais imediatas. Como a dúvida em relação ao ser humano é inevitável, logo é preciso agir de forma mais sensata possível, sem se prender às paixões políticas, mas pensando e repensando quantas vezes forem necessárias para chegar à conclusão das questões apresentadas.


Reformador: Na visão conservadora as mudanças são necessárias, às sociedades estão em constante mudança, porém, essas mudanças devem ser feitas de forma gradual, respeitando as instituições, certos aspectos milenares que se manteve, não como obra do acaso, mas como experiências acumuladas durante séculos. Isso não significa ser um imobilista ou um reacionário, mas é um ato de prudência, pois as experiências históricas carregam consigo a sabedoria de várias civilizações. Os reacionários buscam um mundo perfeito no passado acreditando que em algum momento da história houve “um mundo perfeito”, mas essa percepção está totalmente contraria a visão conservadora, pois nunca houve e nem haverá um mundo perfeito, e nenhum grande humano, instituição, nação ou um Estado, trará do passado um mundo perfeito.

Por outro lado, as revoluções também não são aceitáveis, são mudanças radicais que trazem instabilidade política e econômica, e na pior das hipóteses causam genocídios e males irreversíveis, como na revolução francesa em 1789 ou nas revoluções Comunista em sua busca por um futuro perfeito causaram milhões de mortes. O Comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas após suas revoluções em busca da sociedade utópica.

O conservador não é um reacionário e muito menos um revolucionário, para ele o foco é o presente, o momento que está bem diante de nós, o concreto e o real. Mas o conservador é aquele que observa a história e o passado com respeito, e ao mesmo tempo tem consciência das responsabilidades com as futuras gerações. Nesse sentido, a busca pela mudança sempre será bem vinda, sendo feita sem destruição.


Tradição: Manter tradições não significa negar o novo ou manter as relações sociais na inércia, mas elas carregam valores e experiências que atravessaram os séculos onde há sabedoria. Mesmo que muitos neguem às tradições e as coloquem de forma pejorativa, querendo ou não, estão presentes em todas as sociedades, cada uma de acordo com sua cultura e de sua história nacional, mantê-las não significa fomentar o etnocentrismo, mas além de trazer um sentimento de pertencimento de sua região, mostra porque as coisas são como são, dando uma compreensão de quem somos de acordo com nossas histórias coletivas, que influenciam as histórias individuais.


O motivo pelo qual os conservadores prezam pelas tradições, é pelo fato de que, nossa capacidade de entender toda a realidade é limitada, e certas tradições e hábitos são alicerces que guiam a humanidade nas complexas circunstâncias, e através desses alicerces agirmos na política e nas demais questões sociais de forma mais empírica possível; por outro lado há certos hábitos e tradições que carregam valores morais, talvez alguns deles tenha evitado a própria queda da civilização tal como a conhecemos. Se há poucas coisas que sabemos, é sensato observar certos hábitos.


Os céticos helenos entendiam que se a possibilidade de se chegar à verdade era muito baixa, o caminho sensato seria se apoiar nas "aparências da realidade". Nesse sentido os hábitos seriam as verdades aparentes que alicerçaram a humanidade.

Muitas instituições tradicionais se mostraram necessárias ao longo do tempo. O argumento de simplesmente dizer que todas tradições são construções sociais não está errado, porém essas tradições são reflexos da vida dos povos, do viver de povos que habitaram determinadas regiões por longos períodos, da forma que eles lidaram com as adversidades no passado, seja na forma de comer, de se banhar, as crenças místicas, os métodos medicinais, todo esse aglomerado de ações cotidianos e constantes fazem parte daquilo que chamamos de tradição, e que eventualmente constitui a cultura de um povo.

A democracia é um exemplo de tradição aplicada na prática, no caso uma tradição político-social, que foi sintetizada na Grécia por volta do século V a. C. Nossa democracia atual é diferente daquela utilizada na era clássica, porém ao longo do tempo foi sofrendo suas modificações, durante o império Romano por exemplo.

Se há certos paradigmas que se foram com o tempo, as tradições têm seu papel fundamental na humanidade. Aquelas consideradas perversas, como a escravidão humana, a violência contra a mulher e abusos infantis, essas são certamente uma estigma das quais feriram as liberdades humanas. Defender tradições não significa impor sobre a sociedade certas moralidades, mas lembrar que nossas histórias, sociedades e sistemas são frutos de acontecimentos passados, de certa forma são uma continuidade daquilo que um dia já foi, um contrato entre os mortos, os vivos e com os que ainda não nasceram.


Na verdade o que mentalidade conservadora propõe é uma análise e um aproveitamento daquilo que funciona e o descarte daquilo que é nocivo, afinal não existe sociedade sem certas continuidades. No final das contas, isso se trata de uma consciência das origens, de uma tentativa de relembrar a história, diferente dos tradicionalistas os conservadores reconhecem que é impossível não ocorrer mudanças, e que uma vez feitas o passado tal como foi não retornará, somente aquilo que se manteve proveitoso para a sociedade de modo geral e sobreviveu ao teste do tempo será levado em consideração.

Livre mercado: O livre mercado e a livre iniciativa por ter se desenvolvido de forma "natural" através de ações humanas ao longo tempo, é reconhecido por conservadores e liberais como uma atividade essencial para sociedade humana, as relações de mercado existem desde o início das civilizações. Os primeiros povos considerados civilização, como os Sumérios, Egípcios, Babilônios, Fenícios, entre outros, dependiam do comércio. Essas grandes nações cresceram devido a sua forte produção de mercadorias. As relações de mercado são milenares na história da humanidade, surgiu de inúmeras necessidades devido a radical mudança de vida dos caçadores e coletores para o estilo de vida sedentário, onde o ser humano passou a praticar a agricultura e isso demandou produção em massa de alimentos como consequência do aumento das populações; alguns historiadores argumentam ainda que as primeiras relações de troca começaram entre os caçadores e coletores.


Com isso se estabeleceu de forma empírica atravessando os milênios até se tornar o que nós conhecemos hoje como “Capitalismo”, ainda que possa existir controvérsias e várias críticas sobre esse sistema socioeconômico, principalmente críticas provenientes dos marxistas, o sistema de mercado se mostrou eficiente em termos de produção em massa.

Uma das críticas ao sistema de livre mercado seria no quesito da desigualdade, porém não levam em consideração que as desigualdades econômicas não são consequência apenas do sistema em si, mas são resultado de ações humanas individuais, a maior preocupação dos defensores do livre mercado é com a pobreza e a miséria, sendo mais específico, onde que se encontra o piso da pobreza. Colocando um exemplo mais claro, a desigualdade entre milionários e bilionários não será desvantagem para ambos os lados.

Fato é que a extinção das diferenças econômicas e a ideia de uma sociedade sem classes é uma grande utopia.


Embora exista um certo discurso moralista contra o livre mercado, é necessário levar em consideração que cada indivíduo age de forma diferente, cada um aplicará sua receita mensal ao seu bel-prazer, e eventualmente cada um terá um resultado diferente, mesmo que todos tenham a mesma quantidade monetária.

O capitalismo é um sistema de auto satisfação na verdade, uma troca por algo que lhe interessa mais, ou seja, as cédulas monetárias não tem um valor em si mesma, apenas seu valor como símbolo de troca. Países com maior liberdade econômica se mostraram ser mais desenvolvidos e ter maior qualidade de vida, enquanto países de economia fechada e com os capitais coletivizados via Estado, mostram pobreza generalizada.


Porém, o conservador entende que o mercado não é a resposta para tudo, ainda que empiricamente seja eficaz em termos de produção em massa, há falhas e características das quais devem ser questionadas, não tendo uma visão romântica sobre tal, confiando no mercado na mesma proporção em que os socialistas ortodoxos acreditam no Estado. Afinal, nenhum sistema socioeconômico tornará o mundo um lugar perfeito, seja uma utopia de mercado ou uma utopia igualitária.


De certa forma o capitalismo apresentou suas contradições e ainda há de apresentar outras no futuro, às rápidas mudanças são às vezes nocivas, e seu estigma de reduzir as pessoas em meras mão de obra para a produção de mercadoria, exigindo adaptação rápido e eficiência, é uma das causas de ansiedade. Hoje é praticamente impossível a civilização sobreviver sem os altos níveis de produção em massa proporcionados pelo sistema de livre mercado, foi graças aos seus altos níveis de produção de alimentos que as sociedades escaparam daquilo que ficou conhecido como "armadilha Malthusiana".


Liberdades individuais: Uma das grandes virtudes do conservadorismo seria a defesa da liberdade individual, uma característica convergente com o liberalismo, levando também em consideração que Burke veio de uma tradição liberal. O direito à vida, à liberdade, e à propriedade, são os três direitos que de fato existem, e são naturais de acordo com a tradição liberal clássica, os demais direitos garantidos pelas leis e de uma certa jurisprudência, são na verdade variações desses três direitos.


Embora exista uma discussão se esses direitos são naturais, jusnaturais ou juspositivistas, todos concordam que esses direitos são essenciais para os indivíduos e que são de certa forma princípios morais e éticos essenciais para o bem social. O princípio de ordem na sociedade civil que será apresentado mais adiante, apenas será possível com a garantia das liberdades individuais.

Empirismo: Como expliquei anteriormente, o empirismo consiste em uma teoria epistemológica que indica que todo o conhecimento é fruto da experiência, e por isso, uma consequência dos sentidos. A experiência estabelece o valor, a origem e os limites do conhecimento.


Para John Locke (1632–1704) um empirista antecessor à Hume, a mente humana é como uma “folha em branco” ou como “tábua rasa”, onde são gravadas as impressões externas.

Diferente do racionalismo, que acredita que as ideias são inatas, as percepções que há em nós do mundo já nascem conosco e tudo que entendemos da realidade são frutos da abstração da mente, ou seja, do nosso raciocinar. Exemplo de filósofo racionalista foi René Descartes (1596-1650).


O conservador é um empirista, no sentido de acreditar que a realidade só pode ser compreendida por meio da observação dos fatos concretos e da experiência. O conservador é pé no chão, não se leva para as abstrações da imaginação e da pura racionalidade, e entende que o saber é a impressão do mundo externo filtrado pela nossa consciência. Seu objetivo é entender a realidade como de fato é, agir de acordo com o possível, e não em nome de um mundo hipotético totalmente idealizado, o conservadorismo é uma linha de pensamento que busca se guiar pelo real e pelo possível.

A crítica que se faz à racionalidade é no sentido de buscar a verdade apenas tendo a teoria como meio para esse objetivo, na visão empírica-conservadora é necessário racionalizar os objetos da realidade com dados concretos, e levando em consideração as complexidades da realidade, procurando abranger o estudo dos fatos em questão.

Ordem: Quando se fala de ordem no conservadorismo, não se fala de uma ordem imposta à força por meio do Estado ou de uma instituição burocrática. Na verdade, essa ordem só é possível por meio de um certo equilíbrio, que se dá por meio da descentralização de poder, e pela autonomia dos indivíduos. A política é um bom exemplo de ordem empírica, pois foi criada com intuito de evitar conflitos que existiam na antiguidade, procurando dialogar e equilibrar os interesses. As instituições tradicionais, e tudo aquilo quanto se estabeleceu, perdurou pelo tempo, e ainda sobreviveu e faz parte dos pilares sociais, são quesitos necessários para a manutenção da ordem, sem a centralização total do Estado ou de qualquer planejamento central burocrático.


O Estado é apenas aquele que protege os direitos, mas não um criador de direitos, do qual busca uma sociedade perfeita, sob a responsabilidade de um grupo central. A ideia na verdade é apenas um Estado que se manifeste quando necessário, para que mantenha ordem e evite o caos em sociedade. Só há liberdade e ordem graças a existência de um Estado de direito, pois sem um mediador que possua o monopólio da segurança e do bem comum, não é possível o equilíbrio de interesses e demandas.


O que mantém a ordem na verdade não é um planejamento totalmente central (apesar de necessário em muitos caso), mas a descentralização de poder, uma democracia saudável com os três poderes divididos igualmente, permitindo que os indivíduos sejam mais livres, e que não se tornem espécimes de um projeto social do Estado, a livre iniciativa do mercado, e algumas instituições independentes, mantendo a independência dos Estados locais, além de dar mais poder aos governadores, para contrabalancear mais ainda o poder. É também necessário a separação do chefe de Estado e do chefe de governo, tirando grande parte do poder de um presidente, e o dividindo com o primeiro-ministro ou com o monarca, no caso das monarquias parlamentaristas.


Apesar de toda essa descrição, o conservadorismo não propõe uma sociedade perfeita, pois acredita que devido às falhas humanas e suas limitações, sempre surgirão novos problemas e dilemas sociais, culturais e políticos a serem enfrentados.

Jamais encontraremos a sociedade perfeita, devido à vastidão de complexidades na realidade. Lembrando que esse modelo apresentado é a junção de uma disposição conservadora ao modelo político-social liberal.


Esses foram alguns tópicos do conservadorismo, existe muito ainda para se explorar e mostrado sobre essa filosofia política, mas na minha percepção esses seriam os principais destaques, e em especial os dois mais importantes destaques são o ceticismo e a prudência, pois dão progressão aos demais tópicos. Parafraseando Michael Oakeshott


“Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o testado ao não testado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica. As relações e lealdades familiares serão preferíveis ao fascínio de vínculos mais proveitosos; comprar e expandir será menos importante que conservar, cultivar e desfrutar; a dor da perda será maior que a excitação da novidade ou da promessa."

O objetivo aqui não é formular o conservadorismo como uma cartilha ideológica, mas destacar algumas de suas virtudes (aquilo que Michael Oakeshott chamou de contingências do ceticismo), pois essa visão filosófica de início não se propõe a ser uma ideologia.


A palavra ideologia foi cunhada por Destutt de Tracy (filósofo do século XVII), esse conceito é composto por duas palavras do grego: IDEA “protótipo ideal” e LOGOS: “de ciência”, ou seja, ideologia é uma forma de compreender e agir na realidade através de um conjunto de ideias planificadas; a ciência das ideias, do qual a realidade é compreendida por uma visão muito limitada e abstrata. As ideologias políticas tem como objetivo propor soluções e modelos ideais, para serem aplicados na realidade por meio de teorias.

Uma curiosidade, é que o próprio Napoleão Bonaparte, que era fruto da revolução francesa, está do qual foi fomentada por ideólogos, classificou os ideólogos como "deformadores da realidade".


Russell Kirk, questionou com ênfase aqueles cujo os quais estavam tentando transformar o conservadorismo em uma ideologia, o que ele chamou de “neoconservadorismo”, um erro do qual fomentou narrativas e que posteriormente gerou equívocos em relação ao assunto.

Os neoconservadores entre as décadas de 60 e 80 tinham como objetivo impor sua democracia liberal ideal aos demais países, argumentando que seu modelo representava a verdadeira liberdade, acrescentando à essa mistura o nacionalismo norte americano.

Em suma, a definição de conservadorismo é controvérsia, nem mesmo entre os próprios conservadores existe um consenso absoluto.


O conservadorismo é muito mais complexo em relação às coisas das quais já destaquei, é necessário se aprofundar no assunto. O que conhecemos como tradição política conservadora hoje, é fruto de um contraponto ao liberalismo clássico e ao mesmo tempo uma mistura em alguns aspectos, após a revolução gloriosa inglesa no século XVII. Em muitos aspectos podemos observar uma certa simbiose entre conservadorismo e liberalismo, principalmente pelo fato de seu pai fundador ser um liberal, e com isso há muitas controvérsias de sua origem e até da definição de conservadorismo.

A ideia de valorização do indivíduo e a preocupação com a liberdade é essencial para que se entenda também o pensamento conservador, pois é um aspecto que se baseia pela própria natureza humana, e embora a ideia de liberdade pareça contemporânea, o ser humano de alguma forma sempre tentou se distanciar daquilo que suprimisse seus desejos, e principalmente aquilo que é essencial para sua própria existência, mesmo quando essas opressões contra a sua liberdade individual fossem naturalizadas com a realidade de seu tempo.


Mais precisamente podemos encontrar como pré-história do pensamento liberal e conservador, a disputa entre dois partidos na Inglaterra durante o século XVII, os Tory e os Whigs. Embora houvesse uma certa discordância entre esses dois partidos, é possível encontrar mais similaridades do que divergências, porém isso resultaria na sintetização de duas visões diferentes, mas não antagônicas uma à outra.

Posteriormente, anos após a morte de Burke no século XIX, os partidos Whig e Tory se tornaram um só.


Na França e na Alemanha também ocorreu entre os séculos XVII, XVIII, XIX e na primeira metade do século XX, movimentos conservadores, com algumas diferenças do movimento inglês, principalmente na França, como uma certa reação a total quebra de paradigmas com os princípios cristãos na revolução Francesa em 1789, houve um apelo ao resgate de princípios do cristianismo devido sua tentativa de destruição pelos jacobinos.

Apesar de ser considerado o conservadorismo britânico a principal vertente ( que posteriormente ficou conhecido como pensamento liberal-conservador) as definições hoje variam, o conservadorismo pode ser entendido como uma "não ideologia" como também pode ser interpretado como uma ideologia. Na verdade o conservadorismo em si mesmo não possui modelo ideal de mundo, geralmente as suas ramificações se dão quando um conservador adota uma ideologia; de acordo com Michael Oakeshott o conservadorismo é uma disposição natural de todo o ser humano, que tende a escolher as coisas mais familiares e mais próxima de seu senso comum, isso é independente da ideologia.

O liberalismo se tornou compatível com a disposição conservadora pois a ideia de liberdade do indivíduo e a suspeita ao excesso de poder se conectou bem com o sentimento de ceticismo humeano, a maior familiaridade que podemos ter é com nós mesmo enquanto indivíduos.

O conservador é alguém na verdade que está disposto a proteger as coisas que ama, é aquele que se acomoda com os benefícios do presente, mas se manifesta quando as liberdades individuais são desrespeitadas e quando as mudanças são necessárias para o bem estar social, carrega um certo senso de humildade reconhecendo que o ser humano é imperfeito, por isso não é possível resolver todos os problemas, ou salvar o mundo com pura criatividade e persuasão, é aquele que não tem "fé" no ser humano como provedor absoluto; prefere valorizar as coisas já conquistadas ao invés de ficar obcecado por desejos futuros, prefere o testado ao não testado; está disposto a preservar as coisas essenciais para vida humana e para existência da própria ideia de civilização, como a cultura, a arte, a religião, a natureza, as relações de afeto, a comunidade, o conhecimento e todas as experiências, pois é algo importante que não pode ser ignorado; o conservador apenas quer viver seu presente sem transformar suas crenças, suas causas pessoais em panfletagem política e ideológica, somente quer viver sua vida em harmonia com seus próximos e com sua comunidade; acredita que é necessário o senso de comunidade e de solidariedade, preservar a natureza é uma de suas primícias para o bem da comunidade onde vive; para o conservador a realidade é muito complexa, de certa forma é um pessimista, pois não acredita em um paraíso na Terra, nem na resolução final de todos os problemas, mas acredita que devemos lutar constantemente contra os que querem o caos, contra os que atentam contra a paz individual e coletiva.


Para a visão conservadora, a sociedade humana só existe por causa de uma conexão, um contrato que existe entre os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram. Esse contrato se mantém através dos hábitos, das experiências, do conhecimento e sabedoria que se acumulou desde o início dos primeiros aglomerados de povos. Preservar as boas coisas é dever de cada geração, em respeito aos mortos e para que as futuras gerações não sofram com as consequências de nossas ações.


O objetivo deste artigo era desmistificar a ideia que se criou de conservadorismo no Brasil, a ideia que o conservadorismo político está relacionado ao controle comportamental é muito limitado e até equivocado. Do ponto de vista da própria definição da palavra "conservador" pode se entender como alguém que se opõe às mudanças, mas do ponto de vista histórico e filosófico esse pensamento tem origem no ceticismo Humeano e no liberalismo britânico.


É um pensamento em muitos casos contraditório, pois alguns autores apresentam essa filosofia sendo uma crítica às ideologias, por outro lado o próprio conservadorismo se torna uma ideologia em alguns contextos históricos e sociais. O Paleoconservadorismo pode ser entendido como ideologia que idealiza o passado, próximo ao reacionarismo e as ideologias fundamentalistas, paradoxalmente o conservadorismo britânico adota o modelo liberal, essa do qual é uma ideologia secularista assim como as demais ideologias humanistas modernas, nesse sentido ser "conservador nos costumes" e "liberal na economia" é uma contradição para origem desse pensamento. Os próprios conservadores modernos adotam pautas até então liberais como a defesa da propriedade privada e as liberdades individuais.


Os conservadores britânicos eram na verdade liberais moderados mais céticos em relação a efetividade das teorias políticas, aquilo Edmund Burke chamou de "teorias de gabinete", o próprio liberalismo britânico foi influenciado pela filosofia empirista, sendo John Locke, o pai do liberalismo, um adepto dessa filosofia.


Em suma, o Conservadorismo apesar de em muitos casos e contextos históricos se manifestar como ideologia, em sua essência é uma filosofia política, sendo assim, é uma forma de se pensar a política filosoficamente de maneira racional, não há um modelo político e social na mentalidade conservadora como disse de início.


Com isso podemos concluir que é uma forma empírica de pensar a política, não se prendendo às grandes narrativas metafísicas como a marxista ou a hegeliana. Mudanças sempre pontuais, é o pensamento da política imediata, do agora, e não do utopismo vindouro. Não há pretensão de salvar o mundo, ou criar alguma forma de paraíso terreno, mas buscar a conciliação e equilíbrio de maneira institucional.




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