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As Redes Sociais e a Política: pode dar certo?

Atualizado: 8 de Set de 2020




No ano de 2018, provavelmente o ano mais influente em relação às mídias sociais, as propagandas eleitorais, que eram transmitidas por meio da TV, um espaço hegemônico e nada democrático, foram cruciais para vitória do presidente Jair Bolsonaro. Estou inclinado a assumir essa posição, porque foi um instrumento completamente novo, e naturalmente as pessoas passaram a desejar uma espécie de “autonomia” em relação às próprias mentes. Isto significa que a televisão não perdeu espaço somente pela falta de entretenimento, ou pelo espaço injusto concedido aos demais candidatos, mas porque, de fato, as pessoas desejavam selecionar os conteúdos que lhes interessavam, desejavam escolher qual programa assistir, qual candidato ouvir, qual partido votar, noutras palavras, as pessoas buscavam uma espécie de emancipação. A televisão tornou-se um meio de visualização obsoleto, com poucos recursos comparados à internet. Evidentemente, todo conteúdo fortemente ideológico foi discriminado por influencers e oradores digitais, que mobilizavam seus seguidores às suas ambições e opiniões. Basicamente, o debate nas redes tornou-se um verdadeiro “jogo de mercado”, com oferta de preços, descrição específica de produtos e até o velho hábito de tentar destruir a concorrência. Pois bem, tal cenário foi incorporado aos moldes dessa liberdade e de um ressentimento político relacionado ao PT e aos seus políticos, já que Lula, principal nome do partido, acabou preso. Buscou-se, portanto, uma figura exatamente oposta, que fosse capaz de não só representar um perfil avesso ao anterior, mas que incorporasse um modelo baseado no combate à corrupção, vinculado à direita, com uma premissa liberal na economia e com viés conservador nos costumes: um abstrato conceito político.


As redes sociais tiveram um papel crucial na eleição, pois à medida que a TV perdia o seu público, a internet folgava em suas delícias, contemplando um público muito maior e mais ativo politicamente. Ora, a TV nunca proporcionou um espaço em que os indivíduos pudessem debater entre si, e sempre vangloriou-se por chamar “especialistas” e intelectuais para ditar como as pessoas deveriam ou não votar – mas nunca se deveriam votar, interessante. A internet destroçou esse modelo arcaico, causou um verdadeiro alvoroço no debate público e permitiu, pela primeira vez na história, diversos debates entre usuários, pessoas de diferentes localidades discutindo suas ideologias e opiniões, escolhendo seus candidatos e travando um verdadeiro coliseu de batalha nas redes – uma arena para o divertimento dos nobres, que vislumbraram esse cenário como uma espécie de jogo.

São inúmeros os elementos que podemos identificar para elucidar os reais motivos da vitória de Bolsonaro, mas tal fato deu-se pela aversão ao PT, pelo insucesso dos meios televisivos e o advento da internet. As redes prometeram independência, e Bolsonaro soube explorar muito bem isso. Por fim, ele realmente venceu a eleição e prometeu fazer diferente, mas, como vimos, o discurso não alinhou-se à prática, e Bolsonaro acabou sendo nada mais do que outro peão da velha política. Contudo, o ano da eleição acabou, mas o espírito eleitoral permanece no seio das redes. As pessoas estão a debater política quase que diariamente, o que lhes custa tempo e saúde – especialmente mental. Cada qual com seus projetos, seja para fazer oposição ao presidente e promover outro nome, seja para contribuir apenas para o lado intelectual do debate, as pessoas estão cada vez mais motivadas a falar, e, portanto, tal fato só é possível porque existem pessoas dispostas a ouvir, este é o sucesso presente na internet: uma rede infindável de contribuições mútuas. As redes sociais são a incorporação do que Hayek e Smith chamaram de ordem espontânea, ou o que o próprio Scruton chamaria de associação livre: grupos formados para discutir e elaborar questões específicas, vínculos criados e regados com esperança e motivação. Contudo, voltando à minha provocação inicial, vai dar certo? Eu creio que não

Sou suspeito para falar de qualquer conteúdo esperançoso, pois sou um clássico pessimista, mas não se assuste, caro leitor(a), faço parte do grupo com quem é possível conversar. Feito este alerta, como adepto de uma concepção mais cética das relações humanas, eu não tenho grande esperança em relação à interação política & redes sociais. Em primeiro lugar, porque as redes, como já mencionei, colocaram as pessoas para debater política, o problema é que o brasileiro nem todos, mas boa parte ainda não sabe debater política. Não estou a falar em termos conceituais embora leve em consideração tal escassez , estou a falar de um ponto de vista histórico e empírico. Até pouco tempo, fomos considerados “o país do futebol”. Não estou a coadunar com qualquer tipo de estereótipo do tipo se entende de futebol, não entende de política, aliás, este espírito que vos fala também tem seus “vícios”. O que estou a dizer é que não temos um legado do tipo político, um arcabouço social arraigado nessas discussões. Talvez nem todos saibam quem é o deputado (x), mas sabem quem é o Neymar.


O que boa parte dos Brasileiros fizeram foi simplesmente deslocar tal impulso para política – para usar uma expressão freudiana. Passaram a ver a política como o futebol: um conjunto de times cuja fidelidade deve ser abstrata. A visão em relação à política é feita por meio da paixão: não busca-se alguém para preservar a ordem, a paz, a segurança, para fazer o que é certo; busca-se alguém para torcer, para aplaudir, para adorar e elogiar os mais absurdos comportamentos, que estão longe de ser objeto de ações políticas. Em segundo lugar, a internet não tornou as pessoas mais inteligentes ou preparadas politicamente, mas fez justamente o oposto: foi apenas o palco para manifestação da pura idolatria. Dificilmente busca-se compreender o outro lado, dialogar de modo coerente, coexistir em meio ao cenário político, mas se está a formar um verdadeiro núcleo hegemônico, uma casta onde somente os que coadunam com minha visão de mundo são bem-vindos, um espaço onde a verdade absoluta resulta da minha convicção. Noutras palavras, as famosas “bolhas” serviram apenas para fortalecer a desordem, o caos e a intolerância política; não uma intolerância em relação aos crimes, isso não, mas a incapacidade de dialogar com pessoas que têm uma visão de mundo distinta.


Se por um lado fomos contemplados com a possibilidade de fazer escolhas, por outro lado escolhemos mal, no sentido de que fechamos os nossos olhos para todas as possibilidades que existem para realizar mudanças benéficas e eficientes. O conservadorismo não é a única alternativa para pensar o país, existem outras formas de pensamento que podem ser benéficas, não posso negar isso. Mas este exame nem sempre é aplicado aos demais lados, e, portanto, o que deveria ser um debate mais coerente e coeso, torna-se um verdadeiro “show de horrores”. E essa não é somente uma crítica aos usuários das redes, ou melhor, também é uma crítica aos demais usuários, que também são representados pela classe política. Os políticos caíram na mesma desordem: ao invés de incentivar um espaço mais harmônico, eles comportam-se como verdadeiros animais, de espécies diferentes e rivais, que reunidos destroem uns aos outros. O incentivo, portanto, parte da ideia de mover o seu eleitorado às redes, de modo que esse ataque o outro lado. Não obstante a mídia caiu nessa celeuma infantil, o espaço que deveria pautar-se pela verdade, pauta-se pela ideologia. Alguns jornalistas são tão perigosos quanto algumas bestas raivosas. O que cresceu não foi a esperança, foi o ódio, a ira, a raiva, a mera existência incomoda as massas políticas.

A política brasileira nada mais é do que esporte, onde todos estão lá para “torcer pelo seu time”. A política brasileira nada mais é do que uma piada de muito mau gosto: um grupo de indivíduos discutindo o que é melhor para massa, no sentido mais paternalista possível. Ora, nem esses senhores estão bem instruídos para tecer qualquer crítica ao povo que os elegeu. Mas, ainda assim, considero que isso é apenas resultado da mentalidade brasileira, eliciada, massivamente, pelas redes. Também não estou a dizer que não existe o lado bom, como já mencionado, agora temos a “nossa” própria voz para nos representar, o famoso “eu falo por mim”. Podemos dizer que não concordamos com certo gesto político, se assim o espírito conduzir, muito embora ainda não haja grande efeito sobre decisões monocráticas. Mesmo este espaço ocorre graças à mídia e às redes sociais, sem o qual seria impossível discorrer sobre o que penso. Contudo, ainda falta uma conduta mais virtuosa por parte dos eleitores brasileiros, mas, como disse anteriormente, não sou do tipo que está a pensar que tudo será um mar de rosas – e estou mais inclinado a pensar que isso não pode acabar bem. Posso estar enganado, na verdade, desejo estar enganado, mas acho que se espera demais de políticos, uma esperança tola e fadada ao fracasso. É muito mais provável que estes meios e espaços sejam censurados, futuramente, pela classe política, sobre o pretexto de uso negligente e antidemocrático termo sempre utilizado por eles. Estou a pensar que esse dia pode chegar, e a internet tornar-se-á a velha TV, mantendo o controle sobre os meios ideológicos mais aceitáveis.

Mesmo tendo passado um período de tempo considerável, o que Hayek observou em relação à liberdade, cuja consequência não costuma agradar os indivíduos, ou seja, ter que lidar com a responsabilidade, cumpre-se como uma verdadeira profecia no cenário brasileiro. O ódio ao Estado e às instituições cresce cada vez mais, e a única ideologia que presta é a acolhida por um grupo específico. Passamos pelo estágio em que Hayek elaborou seu maior questionamento: por que os piores chegam ao poder? Provavelmente porque, no final das contas, o povo busca o pior para seus espíritos. Por Renan Jorge

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