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Como Salvar o Conservadorismo de Usurpadores?



Quando tem-se um governo como o de Bolsonaro no poder, cuja bandeira alegou ser conservadora — apenas alegou — há uma erupção na tradição e no legado defendido pela verdadeira disposição conservadora. Para um leitor aturado da tradição, fica fácil perceber a diferença. Contudo, um leitor primário talvez não possa lidar com tal desafio. Mas por que o conservadorismo lida com esse problema de identificação e apropriação política? É possível salvá-lo?


Um grande problema: sua definição


Há um grande número de autores que recusa a ideia do conservadorismo como uma ideologia política — estou a incluir-me nesta lista. Recuso esta ideia porque, antes de um ideário político, o conservadorismo é uma “disposição” e, portanto, não está limitado à política. O que estou a dizer é que o conservadorismo não nasce de um ramo político, ou seja, apesar dos eventos da revolução Francesa, donde extraem-se os escritos de Burke, o pai do conservadorismo, a disposição conservadora já existia — e existe — em todos nós: todos temos algo que estimamos, que desejamos proteger. O ponto é: o conservadorismo é essencialmente filosófico, não político. Ele não parte de um conjunto de normas que buscarão melhorar o mundo a partir de uma perspectiva revolucionária, que visa buscar uma realidade utópica nunca testada, e também não parte de um olhar reacionário, que está a basear-se por uma utopia ligada a um passado glorioso nunca existente. O conservadorismo não é metodológico e teórico, ele está a observar e preferir o que, empiricamente, sobreviveu aos testes do tempo: nossas tradições, costumes e valores. Eis o problema: sua definição. O problema de negar o conservadorismo como ideologia política é justamente esse: assumir o risco de sua apropriação em nome de um modelo abstrato.


Como identificar um conservador em política?


Falei sobre o risco em não assumir o conservadorismo como ideologia política. Se assumirmos que o conservadorismo não é uma ideologia política, e se há o risco de apropriação por um modelo abstrato, por que alguns governos foram considerados genuinamente conservadores, como o de Margaret Thatcher? Como identificar um governo conservador? Se partirmos do pressuposto de que o conservadorismo é, antes de tudo, uma disposição, para identificar um governo conservador é preciso observar se essa disposição existe no líder governante. O que ele está a fazer? O que ele está a propor? Ele pretende promover mudanças repentinas? Ela está a basear-se num modelo utópico? Ele ignora nossas tradições, valores e costumes? Sacrificaria tudo e todos para seu benefício político?

Na disposição conservadora uma coisa é unânime: sua aversão às utopias. A prudência em relação às utopias não é por acaso: normalmente elas são destrutivas. Como já destaquei em outros ensaios, o conservador está disposto a mudar, desde que seja por meio de uma reforma paulatina e prudente, não para formar um cadafalso político, destruir o que nossos descendentes construíram apenas para satisfazer os anseios de uma massa aluada. A dúvida em relação às utopias está alicerçada no ceticismo político e na imperfeição humana, ou seja, como você pode garantir-me que suas ações e revoluções promoverão mudanças melhores, se este modelo nunca foi testado, ou se um dia existiu, mas foi abolido pelo teste do tempo e por não atender aos requisitos de utilidade e beneficência. Nosso intelecto é imperfeito e limitado, e o grande problema das utopias é justamente esse: acreditar cegamente num modelo abstrato criado por “teóricos de gabinete”, como Burke os chamava.


A vantagem de não ser considerado uma ideologia


Discorri sobre a desvantagem em não considerar o conservadorismo como ideologia política, mas também cumpre destacar sua vantagem — ou possíveis vantagens. A primeira é não basear-se numa “política de panfleto”, como tenho chamado. O conservadorismo nem sempre responderá o que você deve ou não fazer, noutras palavras, ele não lhe prenderá num “manifesto conservador” — alusão ao manifesto comunista. Parafraseando Burke:


"Tudo o que cada homem individualmente pode fazer, sem lesar os outros, ele tem o direito de realizar".


Essa é uma das grandes vantagens: liberdade. Burke, é claro, está a falar do que ele chamou de “homem social” — por isso a generalização. As utopias normalmente seguem manuais e regras restritas: você não deveria falar isso, você não deveria fazer isso. O conservadorismo não será um problema para nenhum homem de hábitos singulares, ou seja, ele não veio para salvar o mundo de nada, nem para dizer com você deve agir.

A segunda vantagem: o conservadorismo forma intelectuais únicos. Como alguns já devem saber — e como tenho mencionado em alguns ensaios — Burke nunca teceu nenhum manual em relação ao conservadorismo. O que tem-se de Burke são algumas cartas comentando os eventos da revolução Francesa. O surgimento do conservadorismo, como disse, é filosófico: grandes observadores encontraram um modelo político em Burke; um modelo que provavelmente já existia em outros autores, mas que não fora observado. Há diferenças no conservadorismo em Burke, em Joseph de Maistre, em Russell Kirk, em Oakeshott, em Scruton, mas todos, apesar de suas diferentes contribuições, não despojaram-se do manto conservador: não perderam sua essência. Eis a beleza dessa tradição: sua originalidade. Nenhum desses autores proclamou-se mais conservador que o outro, nenhum desses autores desrespeitou o legado de seus antecessores: honrou-se o que foi pregado por Burke, que via a sociedade como um elo “entre os mortos, os vivos e os que estão por nascer”.

A terceira e última vantagem: um modelo harmônico. O conservadorismo não prega a hegemonia de uma classe em detrimento de outra, não prega o fim da liberdade e singularidade de seus adeptos, não prega o ódio com relação aos seus “adversários políticos”, o conservador entende que uma sociedade é constituída de teias coletivas, que possuem ambições diferentes, e que, sem lesar radicalmente nosso alicerce tradicional, devem coexistir — o verdadeiro espírito do cavalheirismo. As utopias costumam desejar isso: o fim dos seus adversários, seu silêncio, o seu domínio; imputar o seu modelo e estilo de vida às pessoas que não o desejam: uma ditadura velada de bondade.


É possível salvar o conservadorismo?


Esses espíritos usurpadores sempre existiram, o problema não está apenas no modelo — como tudo pertinente ao homem, ele é imperfeito. O grande problema está na mentalidade política: confiar cegamente nas promessas de um governante, não mostrar legítima indignação e, pior, esperar que outro governante venha ajeitar os estragos de seu semelhante. O Brasil é a prova viva disso: uma variação entre candidatos com ideologias distintas. A mudança, antes de chegar à classe política, deve partir da comunidade na qual ela está inserida. Se esses utópicos e políticos de palanque tiverem um lugar sacrossanto na sociedade, isso nunca mudará. Os governantes não têm o desejo de cumprir com suas promessas, poucos têm respeito pelo povo que governam, mas este é um problema da raiz, não apenas da árvore. Para que o conservadorismo seja realmente salvo, parece-me que a sociedade precisa ser reformada, ou seja, não há conservadorismo numa sociedade que não age de modo conservador. Se o objetivo do Brasil é constituir esse modelo, primeiro é preciso conhecer esse modelo. Até lá — se é que o “até lá” chegará — viveremos uma instabilidade política, seremos governados por dissimulados: conservadores que não são conservadores, liberais que não são liberais, pessoas que dizem que são, mas apenas dizem, pois, no Brasil, pouco importa o que é feito; as palavras são suficientes. Agora, para tomar uma atitude presente, digo-lhe: se quiseres salvar o conservadorismo de usurpadores, não vote neles.


Por Renan Jorge

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