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Como Sanar a Desigualdade Racial?

Escrito por: @_Conservador



Introdução


Acerca dos acontecimentos desta semana, eis que me deparo com a volta (não tão repentina) das discussões midiáticas cujas pautas promoveram não só a revelia dos meios de comunicação, como também a revolta do submundo da internet, acometendo os mais indignados e os mais desocupados usuários do Twitter que se sentiram instigados a debater sobre o assunto nas redes. O tema, no entanto, por incrível que pareça, nada tinha a ver com o debate exaustivo e extenuante a respeito da praticidade e do caráter ético e metodológico a que foram submetidas as cotas de cunho racial. A discussão que outrora acalorava os ânimos dos usuários das redes sociais, agora se renova através da figura mais incontroversa do debate público brasileiro: a Magalu, personagem da rede varejista de eletrônicos e móveis Magazine Luiza.


Ao invés de promover ostensivamente a subdivisão racial com base nas políticas afirmativas sustentadas pelo discurso da dívida histórica, da desigualdade racial e mais do que isso, da injustiça que é ser negro no Brasil tendo em vista os desmandos policiais, o processo histórico que culminou na escravidão, os alardeados elementos e as atitudes racistas voluntárias e involuntárias que em tese perpetraram e corromperam as instituições no Brasil, eis que a "Magalu", através de uma retórica autêntica e de medidas aparentemente bem intencionadas, resolveu navegar sobre os densos e proveitosos mares da justiça social apelando para uma promoção nada tendenciosa através do mais bondoso e singelo gesto de reestruturação e reorganização social com base na inclusão daqueles cidadãos que por anos foram excluídos, marginalizados e que foram portanto colocados à parte das grandes corporações e dos altos cargos da elite empresarial que por décadas ignorou a capacidade de grandes sujeitos, com capacidades extraordinárias apenas pela sua cor da pele.


Dizem as boas línguas que a "Magalu" inclusive decidiu abrir mão de parte de sua margem de lucro, rentabilidade, competitividade interna e externa para ajudar os menos afortunados concedendo oportunidades únicas e exclusivas aos mais talentosos jovens e negros para que, em um futuro não muito distante, pertençam a mais alta estirpe do executivo de outras empresas multimilionárias gentis e amáveis como a Magazine Luiza. Estas atitudes, em particular os treinees para jovens e negros, por mais que soem como música para alguns, no entanto, não estão isentas de qualquer interesse por parte dos chefes executivos da empresa. Por mais que se possa tecer elogios a respeito da voluntariedade e da boa vontade com que a corporação se sujeitou para tentar sanar as raízes e as desigualdades mais profundas do nosso país, entretanto é inegável e quase despretensioso negar que uma empresa de calibre como a Magazine Luiza não tenha interesses escusos nessas relações, afinal é muita ingenuidade afirmar que o mero ato genuíno da empresa é exclusivamente voltado a delimitação das desigualdades raciais provenientes do longo processo histórico brasileiro sem quaisquer prejuízos no decorrer das vendas, das relações de marketing, da imagem da firma levando-se em consideração algo tão controverso frente a opinião pública como um treinee destinado somente à pessoas negras.





Minha Opinião a Respeito


Mas já voltando às minucias da realidade, é imprescindível negar que de fato existe um abismo avassalador entre os indivíduos que são brancos e negros. Contudo, por mais que hajam certas desigualdades que ao meu ver demorarão anos para serem consideravelmente sanadas, é sempre muito importante visar a coerência, tanto pela parte metodológica (de resolução dos problemas) quanto pela parte jurídica (no que diz respeito às leis que visam os princípios de igualdade perante a lei, inviolabilidade do direito à liberdade, direito de ir e vir, dentre outros) para que se resolva o problema das desigualdades raciais de maneira mais justa e acima de tudo, efetiva.


É interessante notar que muitos liberais, ditos de esquerda, confundem (não sei se com o intuito de desinformar ou de faltar com a verdade) os conceitos de injustiça e desigualdade, criando assim uma confusão mental no interlocutor já os dois termos se retroalimentam em termos de conduta e de significado. Para o liberal, de esquerda, "a injustiça é comprovada de modo decisivo pela desigualdade" (como diria Scruton). Neste caso, o liberal acredita que se grande parte da classe negra foi prejudicada até certo ponto da história, necessariamente que é preciso elaborar uma série de políticas afirmativas para que se corrija esta injustiça. Ora, se justiça é aquilo que nós entendemos como algo que é regido pelo império das leis e que portanto deve-se a um descontentamento entre Indivíduo x Indivíduo ou entre Indivíduo x Estado, como podemos afirmar que ouve justiça acerca deste fato a partir do qual se eliminou o princípio fundamental do Art. 5°, mais especificamente o princípio básico e fundamental de que "somos todos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza" e do Art. 7°, mais especificamente o inciso XXX "proibição de diferença de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil" da Constituição Federal? Como poderia ter havido de fato justiça se os princípios que a regem foram desconsiderados e ignorados conforme os caprichos daqueles que porventura os interpretaram com o claro intuito de invalidá-la de forma a beneficiar um determinado grupo com base em sua cor e etnia em detrimento de outrem? Certamente que os liberais, que tanto alardeiam a defesa da democracia, dos pilares institucionais, da C.F não se contentaram tanto assim com os escritos que na Carta Magna reincidiam.


Pois bem, como já havia comentado, a mera desigualdade não justifica a negação da lei e portanto de parte da justiça como forma de solucionar um problema de origem econômica, social, racial, ou o que quer que seja, principalmente no que diz respeito à questão da chamada "dívida histórica". Ora, para se haver uma dívida histórica, é necessário que haja uma certa hereditariedade de erros e descontentamentos perante aquele que é denominado "culpado." No entanto, este argumento não se sustenta já que a culpa não pode ser transferida a alguém que se beneficiou (ou não) da atitude de terceiros. A dívida histórica, como meio de se validar uma reparação histórica, nada mais é do que uma espécie de "genealogia de erros e empecilhos" de antepassados quaisquer que agora recaíram sobre o colo daqueles que hoje foram direta ou indiretamente beneficiados por eles. Não é preciso ser inteligente para perceber que receber o encargo arbitrário desta "culpa" é, na verdade, umas das maiores injustiças que já foram fundamentadas por grande parte da Esquerda uma vez que estes herdeiros da dívida histórica não possuem relações reais e vínculos verdadeiros com aqueles que outrora detinham toda a culpabilidade.


Por fim a este assunto, vale a pena destacar o caráter temporal de programas como o treinee só para negros. Ao que parece, este tipo de programa redutor das desigualdades abismais do Brasil deveria estar submetido a um caráter temporal uma vez que visa a valorização e a notoriedade de certos protagonistas da juventude negra, até que se haja uma igualdade significativa entre o número de brancos e negros que ocupam os cargos mais notáveis, seja da esfera pública ou privada. Entretanto, é interessante notar que esse pressuposto, justificado pelo aspecto histórico ou cultural, detém certos equívocos que ao meu ver são bastante tendenciosos quando apresentados ao grande público. Vejamos: se os trainees podem ser legitimados através de uma ótica temporal como a escravidão e a dívida histórica ou mesmo atemporal como o racismo inerente ao homem ou racismo institucional, o que impede de prolongarmos este programa ad eternum uma vez que o ser humano sempre terá tendências racistas e sempre utilizará delas para locupletar a si mesmo e a sociedade de preconceitos visando a perpetuação da mesma tipologia racial que sempre existiu no Brasil e que sempre existirá, segundo essa gente, legitimando e prolongando, portanto, o uso desse tipo de medida de reestruturação e reorganização social indefinidamente? O que impede um membro da Esquerda Brasileira de viabilizar o eterno uso desses trainees se valendo do princípio da dívida histórica e colocando-a como fundamento para viabilizar a teoria de que os cidadãos que porventura são negros foram deslegitimados no passado e que portanto devem se valer do Estado (mesmo que em conflito com a lei) para assim encontrarem-se em pé de igualdade com os demais cidadãos, mesmo que os excluam deste tipo de modalidade empresarial?


Claramente os liberais de esquerda têm muito o que refletir além do lugar comum de que "as empresas privadas podem fazer o que bem entenderem." Ora, se um liberal, em tese, defende a indistinção do indivíduo perante a lei porque você, liberal que é, aderiu a esta caricatura orwelliana de que alguns cidadãos (em razão de sua cor) são mais iguais do que outros? Se as empresas podem fazer o que querem, por que eu não posso abrir uma empresa que preste serviços de segurança privada seguindo a premissa de que "homens são fisicamente mais fortes que as mulheres e portanto apenas homens devem ser integrados em sua totalidade à minha empresa?" Vocês acham que uma coisa dessas seria possível no Brasil? Claramente, vocês são muito seletivos quanto à equivalência dos outros perante a lei o que me leva a crer que de liberais vocês não têm nada.



Conclusão


Por mais que o espírito crítico seja válido, no entanto, é preciso dar soluções concretas e perenes a respeito destas questão tão complexas e tão difíceis que afligem milhões de brasileiros esvaídos e descrentes de oportunidades. Minha principal crítica acerca desses temas não é a existência propriamente dita do programa de trainees, já que em certos aspectos não há como negar as benesses sociais desse tipo de trainee na prática. Porém, existem questões quanto a temporariedade e o caráter hereditário da dívida histórica que sustentam o programa e que entram em conflito com diversas temáticas liberais, além é claro dos interesses escusos da ala de marketing da empresa que capitalizou a discussão para ganhar maior engajamento e visibilidade no cenário nacional dificultando imensamente a resolução desse problema histórico da desigualdade racial uma vez que este programa mais tem a ver com a inserção imediata de pessoas menos qualificadas (não por serem negras, mas por serem escolhidas em um processo restritivo e seleto a apenas um determinado grupo ético) do que necessariamente com a redução significativa mais abrangente e portanto mais bem elaborada para se resolver a tanta alardeada "injustiça racial."




Recentemente o professor Paulo Cruz trouxe a tona um debate extremamente interessante a respeito dos dados envolvendo o número de afiliados da empresa no que diz respeito a divisão de cargos (tanto do executivo quanto dos seus subordinados) por cor e etnia. Foi levantado que antes do programa de trainee, cerca de 53% dos funcionários da empresa são pretos e pardos sendo que só 16% ocupam cargos de liderança. Diante disso, o questionamento do professor é muito simples: levando se em conta a tendenciosidade da matéria, os 16% dos ditos "líderes da empresa" referem-se a 16% da totalidade das lideranças ou a 16% desses 53% que correspondem à parte dos funcionários (que porventura são negros)? Pode não parecer tanto, mas a diferença se torna ainda mais ou menos expressiva se os dados divulgados correspondem a um dos dois casos citados anteriormente. Outro fato que o professor destaca (assim como eu) é a efetividade destes trainees: será que um treinamento empresarial como este tem o intuito fidedigno de alavancar e gerar novas lideranças negras para a empresa tendo em vista que o trainee mais parece um programa destinado a cargos mais baixos e irrelevantes da empresa do que efetivamente uma modalidade direcionada aos cargos mais altos e cobiçados da empresa? Será que este trainee nada mais é do que puro marketing para elevar a moral da Magazine Luiza perante a opinião pública? Bem, não se sabe ao certo, mas é sempre interessante levantar estas questões, afinal quando se fala em oportunismo, sabemos que é um prato cheio não somente no Brasil como também em outros lugares do mundo.


Para finalizar, como solução a este problema, o professor Paulo Cruz conclui com os seguintes dizeres:


"Imagine a @MagazineLuiza oferecesse bolsas de estudo integrais, do fundamental à faculdade, em escolas de ponta, a filhos dos mais pobres desses 53% de funcionários negros. O resultado seria imediato? Não. Daria marketing? Não. Mas mudaria, de fato, a história de várias famílias. [...] 'minha crítica, portanto, se deve ao fato latente que' usar um programa de trainee — que, no fim das contas, tem um resultado irrisório — tem também o intuito de alçar, principalmente, uma propaganda antirracista (ou antipreconceito)."
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