• @UsConservadores

Como Ser um Conservador: Roger Scruton

Atualizado: Set 8



Conservadorismo: Roger Scruton

O Sr. Scruton não foi somente um grande escritor de filosofia política, mas um daqueles raros espíritos entre os homens. Ele não só apresentou a tradição conservadora à posteridade com uma eficiência que lhe foi peculiar, mas expandiu as ideias conservadoras ao âmbito das artes, concedendo ao conservadorismo a importância que merece. A notícia de sua morte entristeceu-me profundamente, pois sabia que parte da voz conservadora e do legado britânico morria com ele. Mesmo que não tenha se passado tanto tempo assim, sua ausência perturba todos os espíritos que sentem fome de um bom conteúdo, de comentários elaborados e edificados sob o altar da política da prudência e, mais ainda, da disposição conservadora. Este pequeno ensaio é insuficiente para demonstrar parte de suas ideias, mas pretendo honrar sua memória nestes humildes versos.

Que sua alma esteja em paz. Obrigado, Sr. Scruton

A atitude conservadora

"Ser conservador é uma maneira distinta de ser humano,e em todas as esferas da vida o temperamento conservador se armou: arte, música, literatura, ciência e religião".

O Sr. Scruton foi um dos raros pensadores a fazer uma distinção extremamente crucial em relação ao conservadorismo. Tal distinção dar-se-á por compreender que antes de ser considerado um arcabouço político, o conservadorismo é uma "disposição", uma atitude filosófica capaz de se manifestar nos diversos segmentos da vida humana. Por que essa distinção é importante? Porque um leitor desatento pode considerar que o conservadorismo nasce apenas de uma necessidade política de ser avesso à revolução — o que é incorreto. Diversas ideologias podem ser opostas à revoluções, mas isso não significa que sejam conservadoras, assim como não se pode garantir que estão livres de um radicalismo igualmente destrutivo.

Scruton, portanto, parece reconhecer muito bem essa distinção, embora reconheça que a expressão conservadora na política emerge do iluminismo, como ele mesmo diz:

"O conservadorismo moderno é produto do Iluminismo. Mas invoca aspectos da condição humana que podem ser testemunhados em todas as civilizações e em todos os períodos da história".

De tal modo, Scruton não somente identifica aspectos do conservadorismo na história da humanidade, mas parece compreender que há, irrefutavelmente, uma espécie de "associação livre" entre os homens, que constituem laços fundamentados em nossas necessidades basilares:

"Nós, seres humanos, vivemos naturalmente em comunidades, unidos por laços de confiança mútua. Precisamos de uma casa partilhada, um lugar seguro no qual nossa ocupação permaneça indisputada e possamos pedir a ajuda de outros em caso de ameaça. Precisamos de paz com nossos vizinhos e procedimentos que a assegurem. E precisamos do amor e da proteção fornecidos pela vida familiar".

O argumento de que o conservadorismo é a "filosofia do vínculo afetivo" é inteiramente verdadeiro, e provavelmente uma das maiores preocupações de todo conservador em relação aos limites que um poder, instituído e abordado por outro indivíduo, possa exercer sobre essas associações livres, sobre nossas atitudes e laços constituídos.


O Vínculo


Amizade, conservação e valor, estes foram os três elementos listados por Scruton em seu ensaio como ser um conservador, a verdade no conservadorismo. Scruton faz uma análise à luz do conceito aristotélico de amizade, levando em consideração o vínculo indivíduo e Estado. Ao falar da livre associação, Scruton também investiga o conceito formulado por Hayek, reconhecendo a importância do vínculo e da liberdade de associação, e colocando o conservadorismo como o aporte que garante a liberdade e a existência dessa associação livre e duradoura - desde que seja uma fonte de valor. Scruton parece conseguir resgatar o que Burke chamou de "espírito do cavalheirismo", que, segundo o próprio Burke, foi destruído pelos adeptos da revolução e foi um fator essencial para degradação da sociedade. Aliás, o próprio Scruton parece ressuscitar o espírito Burkeano ao formular sua frase mais famosa:

"O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é uma das lições do século XX. Também é uma razão pela qual os conservadores sofrem desvantagem quando se trata da opinião pública. Sua posição é verdadeira, mas enfadonha; a de seus oponentes é excitante, mas falsa."

Scruton não só valoriza este espírito no seio social, mas demonstra sua dignidade em relação à proteção, sua base biológica e sociológica, base ignorada pelas utopias e movimentos revolucionários, que por ignorarem instituições tão preciosas como estas, pretendem criar o mundo ao seu modo e ponto de vista, reconstruindo, por meio dos escombros sociais, sua fantasia. Nada mais trabalhoso do que legar à posteridade nossos bens, costumes e regras da vida; e nada mais fácil do que destruí-los com o discurso de que são obsoletos, ultrapassados e indesejados. Nisso repousa o que Scruton chamou de "verdade", pois o discurso conservador não é, nunca foi e nunca será excitante, mas sempre repousará numa verdade irrefutável: o mundo não é uma utopia.

A Liberdade

Scruton também não luta por uma espécie de liberdade absoluta, que pode resultar num caos social; mas valoriza, acima de tudo, a ordem e as instituições como aqueles responsáveis por garantir e assegurar essa mesma liberdade. O ensaio de Scruton ilustra um sentimento que, creio eu, está distante de nosso país: o respeito entre as instituições e o povo. Scruton enfatiza que o exército, a polícia e demais instituições, deveriam ser consideradas "amigas da comunidade". Não um poder opressor, vingativo e maléfico, como na visão socialista. As instituições que existem para impedir que sejamos "juízes da própria causa", para uso das palavras do próprio Burke. Scruton, portanto, enfatiza o commom law como o mecanismo que impede o julgamento arbitrário em relação aos outros indivíduos, sejam representantes da classe política, sejam os malfeitores.

Filosofia Verde.

Scruton foge o máximo possível da tortuosa dicotomia direita e esquerda, no sentido de que a direita pretende apenas destruir o meio ambiente e a esquerda é a única preocupada em conter os excessos da ganância humana. Aliás, o próprio Scruton faz essa observação em seu ensaio "filosofia verde", alegando que a esquerda costumas confundir os interesses individuais, racionalmente engendrados e propulsores do mercado, com a questão da ganância, que é uma forma de excesso irracional. Scruton, portanto, não parece fazer nenhum culto à liberdade irrestrita, nem tampouco um som dissonante ao desenvolvimento, mas encontrar um equilíbrio entre esses fatores, garantindo uma liberdade consciente e menos danosa possível: “Portanto, uma resposta conservadora plausível não sairia em defesa de uma irrestrita liberdade econômica, mas reconheceria os custos dessa liberdade e viria ao encontro de medidas para reduzi-los. Precisamos da livre-iniciativa, mas também precisamos do estado de direito que a contém. As leis precisam estar a par das ameaças”. Há muito para ser dito sobre o Sr. Scruton, mas, infelizmente, este espaço obriga-me a ser sucinto. Scruton, apesar do tom conservador, não é o tipo de autor que se lê partidariamente — pelo menos estou inclinado a pensar assim. A obra de Scruton pode ser lida e apreciada por qualquer espírito entusiasmado por um pensador verdadeiramente inteligente. A meu ver, nosso país carece de mentes como essa, pois foi feito refém de um ideário completamente apaixonado e vinculado à idolatria política, o que reflete este cenário conturbado de sucessivas trocas de ídolos. O conservadorismo não apenas rejeita esta ideia, mas também a considera perigosa para preservação de uma sociedade estável e duradoura — se é que se está a pensar neste modelo para o país. Não há nenhuma solução fácil quando se está a pensar em nós, seres humanos — chegar à conclusão parecida seria loucura; mas é desejável fazer da sociedade um verdadeiro corpo útil e benéfico, que não esteja ligada apenas à concepção de agentes opressores e oprimidos, nem tampouco a um conjunto de indivíduos abstratos, mas como um corpo formado por associações livres, benéficas e duradouras, que possa resistir aos testes do tempo e às mentes revolucionárias e destrutivas Por Renan Jorge

26 visualizações

Receba Nossos Artigos:

© 2020 por Os Conservadores - Wix.com