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Conservadores são "Nazifascistas"? Grande Erro

Atualizado: Jan 13


Escrito por Lucas Macedo♤



Há quem diga que conservadores são iguais a Nazistas e Fascistas e que as doutrinas são tão conectadas que é possível concluir que um indivíduo pensa igual a Hitler somente por ser simpatizante ao Conservadorismo clássico ou coisa do tipo.


A primeira coisa que é de fundamental compreensão é que não existe um Conservadorismo homogêneo e unitário, mas existem Conservadorismos.


O Conservadorismo não é reduzido somente a uma doutrina política, porém, antes de tudo é uma visão de mundo, uma postura de ação diante dos fatos. Então dizer, por exemplo, que um conservador alemão que em determinada circunstância histórica apoiou a preservação de barbaridades, pouco diz sobre como um conservador vai comportar-se politicamente no contexto brasileiro ou britânico. São contextos, sociedades e condições político-econômicas totalmente divergentes. Portanto, é equivocado afirmar que conservadores atualmente visam implantar as mesmas políticas que o fascismo apoiaria.


Análises nas quais afirmam que a doutrina conservadora consiste em um mero imobilismo em relação à sociedade é também descartável. Pessoas que cometem este tipo de erro consideram que não há uma diferença abrupta entre os conservadores apoiadores do ancien regime e os conservadores modernos e contemporâneos. Pensam que o conservadorismo é o mesmo ou algo parecido ainda hoje (o defensor do privilégio dos mais fortes, da servidão, do imperialismo e domínio sob outras nações e etc), porém, este é um ponto de visão anacrônico, que não leva em conta e evolução histórica de tal ideia. Seria um absurdo afirmar que liberais são tão defensores dos proprietários dos meios de produção hoje, tanto quanto eram no período onde Locke e Calhoun defendiam a escravidão.


Assim como é extremamente errôneo tratar a postura conservadora de Otto Von Bismarck como equivalente à postura de um adepto do conservadorismo atualmente. Como foi citado anteriormente, eram sociedades e períodos diferentes entre si.


O pai do conservadorismo moderno, o filósofo Edmund Burke, era um forte defensor da liberdade de imprensa e defendeu a independência dos EUA. Como alguém com o mínimo de sanidade mental tem a coragem de afirmar que conservadores modernos são somente se diferenciam de forma leve de Otto Von Bismark ou os defensores do ancien regime? Não são mais individualistas?


Outro exemplo que desmonta a afirmação que conservadorismo reduz-se a defesa dos mais fortes em detrimento da vida e da liberdade dos mais fracos é o do antigo Partido Conservador Brasileiro, que na época do Brasil império, apoiaram e lutaram pela consolidação de leis antiescravagistas, tanto que a princesa Isabel era uma grande abolicionista e que também era conservadora, e acabou por ter sua família derrubada da monarquia justamente por desagradar aos mais fortes. Vale lembrar que quem aboliu a escravidão nos EUA fazia parte do Partido Republicano, que também possuía um viés conservador. Então se uma pessoa busca analisar seriamente as mais diversas evidências históricas disponíveis sobre conservadores que foram contra os interesses vigentes, ela deveria saber que é no mínimo um absurdo chamar alguém de Fascista só por ser conservador. Porém, uma parte da web ainda não percebeu isso e continua a relacionar conservadores que se identificam a tradição conservadora britânica com personagens no nível de Salazar, Hitler, Mussolini e afins. Fazem isso talvez por burrice ou por mera desonestidade, porém, não cabe a mim, discutir os motivos que levam as pessoas a fazerem tal conexão.


No plano teórico, isto é, no seu sentido mais restrito, tratar o conservadorismo de tradição britânica ou americana como algo relacionado ao Nazismo e ao fascismo torna-se ainda mais absurdo, pois, os princípios desta filosofia política(que a maioria dos conservadores que se dispõem a fazer defesas filosóficas sólidas da doutrina se identificam) são totalmente diferentes das características do Nazi-Fascismo. O ceticismo em relação a projetos políticos que visavam criar um paraíso na terra(incluindo aqui a tese da criação de um mundo ariano perfeito ou a criação de um Império Romano em até mesmo maiores proporções), por exemplo, mostra-se como um fator que contrapõe radicalmente as bases filosóficas da filosofia conservadora e da filosofia tanto do fascismo quanto do nazismo. A prudência também não era algo comum entre fachos e nazis do século XX.


No texto “Conservadores e Fascistas” de autoria do Gabriel Arroyo, o sujeito parece esquecer desses princípios de ceticismo e prudência ao afirmar que a retórica populista de Otto Von Bismark era compatível com o conservadorismo. O populismo é um fenômeno essencialmente oposto a filosofia do conservadorismo, tanto que o país (base) para o conservadorismo — a Inglaterra — resistiu e resiste até nossos tempos aos populismos existentes. Outra demonstração que refuta o argumento de que o conservadorismo quase sempre se pôs a favor de uma retórica populista, foi a resistência de vários setores as propostas políticas de Getúlio Vargas, este sim um presidente tipicamente populista.

Uma evidente falha daqueles progressistas que criticam o conservadorismo também é afirmar que essa filosofia sempre foi sustentada pela defesa da “tirania moralista”, ou seja, o anseio de impor valores morais acima dos valores individuais mais básicos da população enquanto os adeptos do progressismo, desde o início defendeu a liberdade de fato. Ora, dentro das referências do conservadorismo podemos achar liberais como Burke, Tocqueville, Adam Smith e pensadores com grande apreço ao pensamento liberal e a noção de ordem espontânea e liberdade de mercado, como Russel Kirk e RogerScruton. Eu lanço a pergunta: como o pensamento conservador não se aproximou mais do individualismo ou acumulou diferenças radicais dos defensores do ancien regime? Alguém que diante de todas essas informações escrevem com frequência que conservadores raramente fizeram uma defesa firme da liberdade ou nem estiveram a favor dessa causa é um indivíduo que já passou pelo mais sofisticado processo de degradação intelectual que é concebível pela imaginação humana.


Optar pelo progressismo como forma historicamente melhor pela busca da liberdade do que o conservadorismo enquanto este é associado com projetos imperialistas e de domínio colonial também é extremamente incorreto.


As teses que legitimavam colonialismo no século XIX eram teses principalmente formuladas por aqueles que buscavam aperfeiçoar e “civilizar” a humanidade por meio da razão e da crença de que era possível construir um paraíso humanista foram propostas principalmente pelos cientificistas e por teóricos que visavam o progresso da humanidade a todo custo, tese defendida pelo pensamento progressista da época. Esses mesmos cientificistas eram os principais opositores dos conservadores naquele período específico, conservadores estes que defendiam a tradição e até certo ponto, o nacionalismo. (que inclusive ganhou força na época por uma reação ao expansionismo napoleônico).


Então associar somente ao conservadorismo projetos de domínio colonial e extermínio de povos enquanto exalta o progressismo como contraposto ao conservadorismo na busca da liberdade é ser desonesto e ocultar o fato de que progressistas tiveram uma participação até mais considerável nesses projetos do que os próprios conservadores.

No mesmo texto de Gabriel Arroyo que citei acima, ele comete o erro de ocultar esses fatos de forma a jogar a culpa dos projetos imperialistas nos conservadores e nacionalistas do século XIX.


Como bem observou o psicólogo e linguista Steven Pinker na sua obra “TheBlankSlate: The Modern Denialof Human Nature”, diversos progressistas prestaram apoio a Eugenia, entre estes: H.G Wells, J.B.S Haldane, George Bernard Shaw e outros. Enquanto Conservadores como G.K Chesterton se opuseram fortemente a essas políticas eugênicas. Então associar somente os conservadores a práticas nazistas é mostrar um evidente desconhecimento sobre o lado obscuro do progressismo que o Sr. Gabriel Arroyo tanto aprecia.


Porém, mesmo sabendo dessa ligação do ideal de progresso e aperfeiçoamento humano com as políticas eugênicas e com o projeto civilizatório ocidental, eu não ousaria chamar de eugenista uma pessoa que se identifica com o progressismo somente por ela ser progressista porque isso seria uma desonestidade e uma tentativa de excluir a pessoa de um debate acusando-a das mais horríveis coisas que podemos pensar. Porém, Gabriel Arroyo não pensa assim, para ele basta que um punhado de ditos conservadores apoiem algo bárbaro em determinado período que já basta para categorizar conservadores como irmãos gêmeos dos fascistas ou pelo menos muito parecidos. Talvez eu deva começar a chama-lo de eugenista por ele achar o progressismo superior ao malvado Conservadorismo Porém, não é da minha índole fazer este tipo de coisa, afinal prezo pela honestidade em um debate sério.


Por último gostaria de fazer uma análise da parte que eu julgo mais importante do texto “conservadores e fascistas” e os seus fundamentos para a comparação dos conservadores com nazistas:


Em enorme medida o projeto nacionalista, de exaltação a violência, conquista e militarismo, que marcou o Nazi-Fascismo é herança dos próprios governos conservadores, que também atuaram exatamente nessa linha. E que a confusa defesa de direitos sociais, cooptação da sociedade, suas organizações e da sociedade civil ao estado, foi um projeto tanto conservador, quanto do fascismo na época. E essa é em grande medida minha base para a comparação"


Primeira coisa que a ser rebatida nesse trecho é a seguinte: O projeto nacionalista não é herança do conservadorismo e a maior parte dos nacionalismos presentes na Europa do período não tinham vínculo com a Filosofia conservadora. O Nacionalismo alemão veio da herança do Pangermanismo que nada tinha a ver com as principais raízes da filosofia política conservadora. Afirmar que o Nacionalismo alemão é derivado do conservadorismo é um equívoco enorme e uma associação esdrúxula.


Outra coisa que pode ser pontuada é a seguinte: A exaltação da violência que marcou o Nazi-Fascismo não é herança da filosofia política conservadora. É uma herança de uma guerra mundial e de povos rendidos vivendo em enormes crises econômicas juntamente com preconceitos internos que desencadearam o Nacionalismo "Nazifascista", A exaltação da violência, conquista e militarismo desses regimes.


Finalizando, falar que a defesa de direitos sociais, cooptação da sociedade e da sociedade civil ao Estado foi um projeto tanto conservador quanto do fascismo na época. No Período Entre-Guerras e na Segunda Guerra Mundial, de fato, houveram erros feios de denominados conservadores, porém isso não é algo inerente a filosofia conservadora e não foram só conservadores que defenderam de fato coisas bárbaras em determinada circunstância histórica. Liberais e progressistas também cometeram tais erros. Basta ver que diversos liberais (entre eles principalmente empresários) também o apoiaram coisas bárbaras no período. Mesma coisa com progressistas, que passaram para as fileiras dos apoiadores da URSS, país este que tinha alto nível de censura sob seus cidadãos. Porém é um absurdo dizer que liberais tem um pé no fascismo ou no Nazismo, assim como também é errado afirmar que todo progressista é um potencial socialista soviético alheio às liberdades individuais da população. Assim como tirar a conclusão de que a filosofia política conservadora e conservadores no geral pensam de forma parecida e são coniventes com a barbárie nazifascista ou coletivista igual Arroyo faz frequentemente em suas discussões nas redes sociais é completamente equivocado e beira o absurdo. Principalmente porque há vários exemplos históricos de conservadores que se opuseram firmemente a ideia de direitos sociais para a alienação das massas e enfatizaram a responsabilidade da sociedade civil perante o Estado.


Não precisamos ir muito longe para encontrar um exemplo disso, como eu citei acima, conservadores brasileiros foram em sua vasta maioria opositora a táticas de Getúlio Vargas. Um fato histórico complementar que pode ser citado aqui é o episódio das Noites das Facas longas, episódio este que contrapõe conservadores aos Nazistas, justamente pelo fato de que esses conservadores se opuseram às políticas de cooptação da sociedade civil e da deliberada promessa de direitos sociais para a manipulação da massa.


A grande realidade é que vincular todos aqueles que se denominam conservadores hoje com a Alemanha Nazista e com a Itália Fascista é insustentável e parece ser algo semelhante a um militante do PSOL que chama seus adversários de direita de fascistas, algo baixo e realizado principalmente para invalidar moralmente pessoas com dissidências políticas ou opiniões divergentes. Isso evita qualquer tipo de discussão franca acerca do tema e afasta também qualquer possibilidade de maior aprendizado e reflexão franca sobre sua visão de mundo, que pelo menos filosoficamente, deveria ser o objetivo de um debate.

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