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Democracia para mim, Tirania para os Outros

Atualizado: 20 de Out de 2020



A discussão sobre a democracia nunca acabará. Seja por seus opositores mais ferrenhos, seja por seus amantes mais embriagados, ela será amplamente discutida. O espírito democrático, até então, tem sido o idealismo buscado pelos mais tenazes políticos, mas o alcance deste sonho parece cada vez mais distante. Seria a democracia, portanto, uma das contradições humanas mais óbvias? Por que os brasileiros, apesar de desejosos por esse sistema de complacência, não conseguem praticá-la? A “democracia” pressupõe algo impossível para um país que vive em conflito: a tolerância.

Os brasileiros têm destroçado tanto a democracia, que é quase impossível pensar que há algum apreço por esse sistema político. Evidentemente, isso faz parte do princípio da imperfeição humana. Se existe alguém que procura estabelecer um regime político que traga a paz e o fim dos conflitos humanos, este provavelmente já não goza perfeitamente de suas faculdades mentais. Seria, também, uma grande injustiça colocar tudo na conta da democracia, como se ela fosse o único sistema político a lidar com suas “contradições e defeitos”. Porém, estou inclinado a pensar que boa parte de nós, brasileiros, temos apenas um apreço parcial pela democracia.

A democracia nunca representou um sistema que preservasse apenas os meus interesses e os meus desejos. Em algumas ocasiões, quando a sorte decide repousar em nosso lar, isso pode ocorrer. Contudo, essa “sorte” pode significar apenas uma estadia temporária — aqui reside o problema. É um gesto muito belo mostrar condescendência para um adversário vencido, mas isso dificilmente ocorre quando somos nós os feridos por essa espada. Remédio para os amigos, veneno para os inimigos, a democracia é desejável apenas quando favorece os meus planos, apenas quando está de acordo com os meus interesses. Quando não é esse o caso, a democracia representa apenas um sistema que permite o mais idiota dos homens a ser eleito pelos homens mais idiotas. Um gosto peculiar?

Ora, não trata-se de ser impedido de manifestar insatisfação com a escolha dos meus adversários — considerando-os, nesse caso, a maioria. Trata-se de não aceitar que o mesmo sistema que elege os que representam-me pode, também, na justa proporção, destituí-los e recusá-los, pelo mesmo “espírito democrático”. Eis o problema: quem disse que as pessoas querem algo assim?

O grande mito em torno da democracia é, portanto, o mito que carrega o próprio homem: somos, por natureza, intolerantes. Se não fosse esse o caso, não seria necessário um sistema denominado “democrático”. Se os homens fossem, de fato, perfeitos, não haveria razão nenhuma para existir um leviatã — para usar uma expressão de Thomas Hobbes. Os homens não perceberam, no entanto, que a democracia não tem qualquer compromisso com seus desejos. Talvez tenha sido esse o grande problema em torno da democracia, ela disse aos homens: sua vez chegará, você precisa ser paciente, daqui a quatro anos você será representando. E se não for? E se essa não for, portanto, a vontade da maioria?

A democracia disse aos homens que suas vozes são importantes, que elas fariam a diferença, que sua escolha seria determinante para o futuro da nação. Será?

Num sistema tão variável como este, todos ficam ansiosos para “chegar a sua vez”. O que acontece quando se tem o poder, como vimos ao longo da história, é que dificilmente se deseja largá-lo. Esta ambição guiou Vargas, guiou os militares e continuará guiando os mais diversos espíritos que compreendem como funciona verdadeiramente a democracia no Brasil: uma disputa para condição permanente no poder.

No fim, depois de um tempo, poucos se dão ao trabalho de “fabricar o veneno”, por isso fica quase impossível distinguir os “homens dos porcos”. O antagonismo reside, portanto, entre o povo, entre os eleitores, entre as massas. Em Brasília, boa parte daqueles espíritos viveria com o próprio diabo se isso garantisse sua permanência no poder. Entre as massas, porém, existem certas condições para que algo assim ocorra — normalmente aquelas que corrompem a natureza.

Democracia para mim, tirania para os outros; tudo vai bem quando é a minha vontade a ser expressa nas páginas da lei, tudo é opressivo e indesejável quando é a minha vez de assistir aos meus inimigos no poder. Mas a democracia não é a razão de todos os problemas, nem tampouco a solução de todas as desventuras humanas, a democracia não faz nada além de expressar a maior característica do espírito brasileiro: a hipocrisia. 


Por Renan Jorge

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