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Existe uma Cultura Capitalista?

Atualizado: 27 de Nov de 2020



A concepção de uma "cultura capitalista" causa orgasmos entre os sociólogos. Há dois motivos para esse tipo de reação. Em primeiro lugar, aventar a existência de uma "cultura capitalista" é ensejo para uma fonte interminável de críticas — que fortalecem sua concepção de mundo; e, sem segundo lugar, porque apesar de criticar esse sistema destruidor de "culturas genuínas", eles desfrutam dos bens herdados do capitalismo: um paradoxo?


Para um juízo de mundo progressista, a cultura capitalista — opressora por natureza — busca dirimir as características individuais dos oprimidos, que formam um grupo específico de pessoas (as famosas minorias). O sistema capitalista, portanto, teria como objetivo propor uma espécie de hegemonia cultural, transmitindo às pessoas o maior pecado herdado por esse sistema opressor: a ganância.


Essas pobres almas — destinadas a viver em detrimento de suas próprias escolhas — apenas reproduziriam papéis sociais pré-definidos por esse sistema, como se fossem verdadeiras marionetes numa peça teatral. Com o objetivo de adaptarem-se aos padrões impostos às suas almas, esses espíritos render-se-iam aos desejos ambiciosos das mais altas elites da sociedade, que furtando todo esforço de seu trabalho, utilizariam tais riquezas para manutenção dessa ordem opressora e, ao mesmo tempo, para o fortalecimento de seus vícios.


A alternativa para contestar esse sistema? Uma educação libertadora.


Nascem diversas concepções de mundo para interromper essa ordem social, levando em consideração as peculiaridades de cada indivíduo, resgatando um sentimento de identidade pessoal, reforçando o compromisso de formação intelectual de uma parcela da sociedade específica e, por fim, libertar-se das terríveis amarras desse sistema despótico.


Mas, se o plano era esse — lindo no papel —, porque ele não funcionou?


Em primeiro lugar, porque a concepção de uma cultura capitalista não é somente um erro histórico, mas uma visão política limitada à ideologia. Ora, a cultura demanda um tipo muito peculiar de conhecimentos herdados durante gerações, não necessariamente um tipo de sistema organizacional. Em segundo lugar, porque o próprio capitalismo não é "fruto de uma cultura adquirida", mas apenas a representação de desejos dos indivíduos.


O capitalismo, objetivamente, não alterou em nada a natureza humana. As pessoas, desde os tempos mais remotos, mergulhavam nas relações de troca e venda. Negociavam suas terras, seu gado, seus bens; isso sempre ocorreu. O capitalismo mediou essas relações de modo mais objetivo, atribuindo um valor baseado na famosa "mão invisível do mercado".


O capitalismo não oferece nada mais do que os indivíduos desejam obter. Poder-se-ia dizer que a Amazon é uma empresa opressora por não atender aos anseios de um tipo específico de grupo social, por não adequar seus produtos à realidade de alguns indivíduos, quando essa mesma empresa conta com o número de 1 milhão de funcionários ? Poder-se-ia dizer que as pessoas que compram uma Lamborghini estão tomadas por um espírito ambicioso e que abastecem as desigualdades sociais, quando estão a ajudar a manter empregadas as demais pessoas envolvidas no processo de produção?


Ora, o próprio Adam Smith, pai do liberalismo econômico, já respondeu esse questionamento, dizendo:


"Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter".


Não há melhor forma de contribuir para sociedade perseguindo os próprios interesses, pois, nesse processo, não estamos favorecendo apenas a nós mesmos, mas aos demais agentes envolvidos numa teia mais complexa:


"Ao perseguir seu próprio interesse (o indivíduo) frequentemente promove o da sociedade de forma mais eficaz do que quando ele realmente pretende promovê-lo. Nunca conheci nada bem feito por aqueles que enfrentaram o comércio pelo bem público".


Evidentemente, esse sistema é limitado por valores éticos e morais, o que impossibilita, por exemplo, "o comércio de pessoas". O mercado não está além do bem e do mal, porque o mercado é traduzido nessas relações de permuta, e, portanto, as pessoas impõe limites ao território do "aceitável".


Nessa caracterização é notável que existem pessoas que comprarão mais, pessoas que comprarão menos, pessoas mais ambiciosas, pessoas menos ambiciosas. Não há como padronizar uma sociedade para adequar-se a determinados dogmas políticos — isso sim seria opressivo. Dizer às pessoas: vou livrar-te deste sistema opressor, valorizando sua cultura. Farei isso utilizando meu Iphone para protestar, enquanto você procura desempenhar o seu "papel cultural", servindo-me de pólvora política.


Adotar "minorias" como se precisassem da tutela de um poder que se denomina superior, ao ponto de querer tomar as decisões por elas. "Falamos em nome dos negros, dos índios, dos pobres", isso, objetivamente, não pode existir. Ninguém pode responder o que eu desejo, além de mim mesmo. Quem está a fazer esse tipo de coisa prática furto de intelecto, furto de individualidade, furto de "autonomia". Ora, para conceder-me autonomia, as pessoas precisam decidir o que é melhor para mim? Que mentira estão a contar?


Com isso estou a dizer que não existe ganância? Não. Mas a "ganância" só faz mal ao espírito que a prática, não aos envolvidos no processo, a menos, é claro, que haja um crime por trás dessa conduta. Não se pode defender, por exemplo, o crescimento ilícito dentro do exercício político, porque além de não contribuir em nada para a sociedade, tem-se o resultado oposto: se está a dissecá-la economicamente. Aquele que o prática não conta com os frutos do próprio esforço, mas unicamente com os frutos plantados por outras pessoas.


O curioso é que esse tipo de "cultura" não é execrada pelos nomeados progressistas, mas romantizada pela visão ideológica de mundo e, quase sempre, estigmatizada com o argumento de que foi produto de uma "mentalidade capitalista". Ou seja, se está a culpar uma abstração, uma fonte de desejos que sequer tem algum tipo de ambição em si mesma.


A análise não é apenas imprecisa, é mentirosa. Se está a fazer, nesse tipo de "crítica", uma relação direta entre riqueza e pobreza — como se o enriquecimento de alguém tivesse relação direta com a pobreza de outro. Angus Deaton, vencedor do prêmio Nobel de Economia, deixa isso muito claro:


"Para projetar uma política econômica que promova o bem -estar e reduza a pobreza, devemos primeiro entender as escolhas de consumo individuais".


Furtar a riqueza de quem a obtém e entregá-la aos pobres não acabará com a miséria — provavelmente promoveria apenas o consumo em massa e a igual desvalorização dos produtos e, portanto, do próprio capital.


O cálculo romantizado dos socialistas não é apenas ilógico, é destrutivo. Se existe uma forma de acabar com a miséria, certamente não é promovendo a sua distribuição igualitária


Por Renan Jorge

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