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Foi Coisa de Criança

Atualizado: 31 de Jul de 2020



Quando eu era apenas uma criança, meu pai ensinou-me alguns princípios éticos e morais, nada conceitual, é claro, tudo o que nós costumamos aprender: roubar é errado, não podemos agredir outras pessoas, entre outros exemplos.

Minha família, apesar de algumas instabilidades, sempre foi religiosa. Na igreja, em um culto específico às crianças, ouvia os mesmos aprendizados. Um dia, indo buscar pão numa padaria ao lado de casa, presenciei um assalto. Fiquei estarrecido: ali, bem diante dos meus olhos, havia indivíduos que estavam descumprindo as normas que eu tanto respeitava. Assustei-me, pois eles estavam armados, mas, felizmente, nada grave ocorreu. Apesar do espanto daquela cena, eu não imaginava que existiria uma classe muito pior de bandidos: os políticos.


Lembro-me das ruas cheias de panfletos e papéis que simulavam a urna eleitoral. A foto dos candidatos ficava ao lado de seu número, e eu sempre rabiscava suas faces: fazia bigode, cabelos longos, chifres, enfim, coisas de criança. Eu sempre ouvia meus pais falarem que isso poluía e conferia feiura à rua, eles tinham razão. Meus pais nunca foram ligados em política. Recordo-me que eles votaram num candidato apenas uma vez — depois disso, nunca mais: sabedoria.


Eu nunca entendi muito bem a real existência de tantos crimes, especialmente os que resultavam em mortes — coisas de criança. Lembro-me que pensava em mudar o mundo, fazer algo muito bom a respeito — quanta ingenuidade: coisa de criança. Eu nunca compreendi muito bem o motivo desses conflitos, o caos, a guerra, a desordem, sempre tive medo de morrer vítima de algo.


Na adolescência eu tive uma visão mais socialista da vida: achava que só o Estado poderia prover o fim dos problemas da humanidade — coisa de criança. Isso, infelizmente, influenciou minha escolha de candidatos. Apesar da escolha, ainda assim, eu não era ativo em política: apenas votava — como a maioria dos Brasileiros. Depois do escândalo do mensalão, surgiu uma espécie de revolta dentro de mim: os políticos eram realmente figuras sujas. Passei a nutrir um certo rancor pela classe política, mas quem pode julgar-me? Quem não sentiu-se assim?


Em 2018, ano que, em termos eleitorais, deveria ser amaldiçoado, foi o ano do meu maior erro. Fui tolo em acreditar neste senhor que ai está. Ele prometeu acabar com o que eu mais repudiava: os políticos corruptos — era bom demais para ser verdade. Um político que passou 30 anos na política, gozando de todos os privilégios da classe política, mas que repudiava tudo aquilo que utilizou, que era considerado virtuoso pela "suposta reputação ilibada" — que lástima para nossa política, não? A obrigação tornou-se virtude. Pois bem, naquele dia, tão odioso dia, fiz minha escolha: pensei que tudo iria mudar — coisa de criança.


Agora, diante de todos esses problemas que estamos enfrentando, a operação lava jato — uma das operações mais nobres já criadas — está para ser condenada à morte. O espírito petista deixou o governo, mas continua no poder. Temos a maioria dos membros do STF nomeados pela gestão PT; um ministro da justiça fã do senhor Dias Toffoli — ex-advogado do PT —; um PGR que promove festas para seita petista e, se isso já não fosse o bastante, ainda faz uma live ao partido, repudiando a operação lava jato, jogando fora o legado que ela deixou: uma pequena centelha de esperança — coisa de criança.


O crime, a injustiça, a imoralidade, o desrespeito, todos esses e alguns mais são, em nosso país, os verdadeiros governantes. Nosso país é o que os filósofos chamariam de paradoxo: os imoralistas julgam os moralistas, os bandidos fazem live sobre corrupção, a pior estirpe de criminosos, os políticos, são os que passam menos tempo em cárcere; tudo podem, tudo conseguem: benefícios extraordinários, foro privilegiado, auxilio moradia, tantas coisas. Nem diante de uma crise sanitária como esta, onde o povo sacrificou parte do seu salário para ajudar, esses senhores descansam: receberam antecipação do 13º.


Tudo parece perdido: novos heróis, deuses e mitos surgem sempre, mas eu só desejava uma coisa: que os políticos, que o poder público, que o Estado, tão reverenciado por tantos, fizesse aquilo que tanto prega: o que é correto. Eu desejava que a lei fosse corretamente elaborada, que os políticos não enxergassem a política como um meio fácil de enriquecer, mas como um privilégio de honrar o povo que o elegeu — coisa de criança.


No Brasil, o crime compensa: essa é a verdade. Lidamos com um problema estrutural, um câncer que acomete as raízes de nossa sociedade. O Brasileiro não aprende, não aprende porque, apesar de tudo isso, se o Estado lhe prover um pouco de riqueza, ele fica em silêncio — abre mão de seus princípios para tomar vantagem diante de uma situação — exatamente como aqueles que tanto odeia: os políticos. É para mim impossível elogiar ou felicitar uma nação como essa — como dizia Burke:


"A nossa pátria, para fazer-se amar, deve ser amável".


O Brasil não está a mostrar-se digno de amor, está a mostrar-se digno de pena, de repulsa, da mais genuína indignação diante de algo que deveria ser unânime: fazer o certo. É exatamente um dos motivos do aumento da criminalidade: o ninho das baratas está repleto de filhotes. O problema não está apenas nos que estão a pregar mentiras na tribuna, o problema está em todos que aplaudem isso, nos que perdoam com facilidade, nos que têm memória curta. Por Deus! O que é isso? Espíritos que foram condenados por corrupção não deveriam exercer cargos políticos — nunca mais. Ora, ninguém obriga-lhe a roubar, ninguém obriga-lhe a faltar com respeito perante o povo que o elegeu, essa fábula de que o sistema obrigou-me; mentira: são atos voluntários. Essa classe está contaminada pela substância que ajuda a produzir: "o povo", que tanto gosta de eximir-se da culpa, deixando tudo como está, ficando calado, aplaudindo; eles, os idólatras e conformados, têm o que desejam: este senhor é a prova de que nós precisamos reformar nossos princípios, nossos atos, ou tudo estará perdido.


Que os céus perdoem-me por esse terrível erro que cometi, e que maldito seja esse sistema pútrido e fétido que aquece o coração dos satisfeitos com essa situação. Não há quem possa sorrir verdadeiramente, não há quem possa declarar-se feliz com seu governo: só um tolo. Quanta negligência diante de uma pandemia, quanto desprezo pela vida humana, quantos direitos cerceados pelo carrasco que está a ocupar a cadeira de presidente — e os demais membros indignos da esfera pública. Que tolice a minha, que ingenuidade, que tristeza, que consternação: ter nutrido esperança — Mas, enfim, foi coisa de criança.


Por Renan Jorge

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