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Internet vs Livro: Por Que o Antagonismo?

Atualizado: 21 de Set de 2020




O livro é uma das produções humanas mais preciosas que existem. Claro, há uma espécie de romantização a cerca do que é um livro — coisa que pretendo abordar melhor durante este ensaio —, mas, a meu ver, o livro está intimamente ligado à ideia de liberdade, no sentido de que podemos conversar, sentir, atuar, no nosso ritmo, do nosso modo, enfim, um vasto oceano de possibilidades contido em algumas páginas. No entanto, a internet, que também suscitou essa mesma sensação de liberdade, com o tempo, foi colocada como opositora ao livro, servindo de símbolo para diversas charges. No entanto, será que vale a pena provocar esse antagonismo? Por que devem ser opostos?


Cá está a escrever a você, querido leitor, um colecionador de livros. Eu prefiro ler um bom livro a navegar pela internet — isso é bem verdade. Entretanto, depois de refletir sobre esse tema, percebi que é perda de tempo provocar essa rivalidade. Antes desta explicação, cumpre destacar, já que sou suspeito a falar, o sentimento daqueles que são receosos em relação à internet. Michael Oakeshott — um dos autores conservadores que mais aprecio — discorreu sobre o que chamou de "disposição conservadora". Como ele mesmo relata, ele não foi o tipo de autor que atreveu-se a dizer que o conservadorismo não possui princípios gerais. Pois bem, para ele, o conservador é aquele que está a disfrutar do presente, aquele que prefere o familiar ao desconhecido, o testado ao nunca testado. Como ele mesmo chegou a dizer, o homem de temperamento conservador tem grande dificuldade em se ajustar a novos cenários "não porque tenha perdido algo melhor do que a compensação, nem porque esta não seja passível de ser desfrutada, mas sim porque o que ele perdeu era algo que de fato gozava e que ele aprendeu a gostar ao longo do tempo, ao contrário do que entrou em seu lugar: uma coisa estranha, fria, sem laços afetivos". Sendo assim, a priori, tudo o que você vivenciou, o primeiro livro, o primeiro rabisco — se você o fez — a primeira anotação, a primeira lágrima, tudo isso parece ir embora, tudo parece estar morrendo. Algo inovador como a internet, que, creio, no Brasil, certamente goza de mais atenção do que o hábito de ler, certamente provocará uma certa aversão nas pessoas, um certo medo. Mas, se sinto-me assim, por que não defender somente um lado? O grande problema é que só conheço Michael Oakeshott graças à internet, só li os seus ensaios graças à internet. Aliás, o meu contato com autores conservadores é fruto de pesquisas pela internet. Se não fosse a internet, provavelmente eu estaria enaltecendo Rousseau até hoje.


O que os opositores da dicotomia livro vs internet não entendem — ou não querem entender — é que a internet não é nenhum tipo de monstro, ela não passa de uma ferramenta, um modo para favorecer os atos humanos, para uma interpretação de Francis Bacon. A internet não possui nada em si mesma, ela não passa de um constructo. Se as pessoas preferem vislumbrar coisas inúteis, pois bem, que o façam. Se as pessoas preferem usar a mesma ferramenta para crescer profissionalmente, intelectualmente, que o façam também. Você pode distrair-se com uma mosca à frente, agora, se deseja culpar a mosca por isso...


A tecnologia, outro fator que costuma ser empregado para favorecer essa disputa, tem papel crucial para própria propagação da leitura. Podemos citar o kindle, por exemplo, que além dos benefícios para o meio ambiente, é um excelente apetrecho para todos apegados à leitura. Além disso, a famosa romantização em torno dos livros é, no mínimo, um equívoco. Em primeiro lugar, um livro não é necessariamente bom. Você pode produzir um livro que tenha apenas tolices, ele ainda será um livro. Em segundo lugar, essa premissa parte de uma espécie de presunção, no sentido de que se é mais inteligente apenas por ler um livro — o que não é necessariamente verdade. A "inteligência" é um termo muito abrangente para ser limitado apenas à leitura, e, como já se sabe, isso depende muito do que se está a ler. No fim, a internet pode ser um meio complementar à leitura e vice-versa


Talvez a melhor forma de preservar o hábito de ler seja não permitir que este seja destruído pela "cólera do mercado". As pessoas continuarão comprando smartphones e continuarão utilizando a internet porque, no fim, há muita utilidade. E, no entanto, apesar da ausência do vínculo com algo tão novo, ao aplicá-lo à internet e à tecnologia, parte do hábito de ler pode ser mantido. No fim, isso também é desfrutar do presente.


Por Renan Jorge

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