• @UsConservadores

Marcius Melhem: Freud Explica

Atualizado: Jan 13


Antes de transcrever este ensaio, sob pena de transparecer, no decorrer dessas linhas, que

sou dotado de um saber absoluto, a ponto de concluir que sei verdadeiramente o que

ocorreu, cabe pontuar que, não, não sinto-me nessa condição. Não sou juiz, nem júri e,

portanto, essa produção não tem qualquer objetivo jurídico.


Estou a tratar do assunto, baseado no que foi noticiado nos meios de comunicação, como algo especulativo, ou seja, se forem confirmados os fatos, poder-se-á tomar este cenário como a minha posição sobre o caso.


Não pretendo retomar todo o caso, pois estou a pensar que você, caro leitor, por estar lendo esse artigo, já está ciente de toda a situação. O fato é que o humorista da Globo, Marcius Melhem, foi acusado pela atriz Dani Calabresa, que relatou ter sofrido assédio pelo

humorista durante as gravações de um programa da Globo. Além da atriz, mais de 43

pessoas foram ouvidas sobre denúncias de assédio contra ele.


Evidentemente, este evento causou revolta e comoção nas redes sociais, que, como sempre, ensejam uma série de conclusões precipitadas. Contudo, o caso parece um tanto insólito, com um pedido de desculpas por parte Marcius Melhem, mas com ressalvas de que "estaria a se desculpar com as pessoas ofendidas, mesmo sem saber o porquê". Algo além desta declaração um tanto incomum? O silêncio da emissora Globo, que foi extremamente pressionada pela opinião pública.


Após essa breve apresentação sobre o caso, caro leitor, devo provocá-lo com a minha

posição sobre o ocorrido, no caso de todas as acusações serem comprovadas: Freud

explica.


Não é possível extrair um meio termo deste autor, e aqueles que estudaram ou tiveram contato com os ensaios de Freud, sabem muito bem disso. O autor é um dos raros casos em que o dualismo parece transpassar a verdadeira imagem de sua obra: ou se gosta de Freud, ou se odeia ele, simples assim.


Seja pelas críticas que beiram o sexíssimo que aflora sua teoria, seja pela sua personalidade um tanto narcisista, Freud é alvo de muitas críticas algumas delas exacerbadas, a meu ver.


Bom, como não pretendo deleitar-me numa obra que abarca sua vida, como ele mesmo

concluiu, deixe que os biógrafos "pendem e labutem".


Mas o que Freud poderia dizer, caso fosse comprovado o assédio cometido pelo humorista?

De que ele está a utilizar um dos mecanismos de defesa mais conhecidos de sua teoria: a

formação reativa.


Para os que ainda não conhecem esse mecanismo, poderíamos dizer que trata-se do velho

dilema "o médico e o monstro" com algumas diferenças. Como eu não tenho uma visão

otimista sobre a humanidade, sempre estou a pensar nas contradições evidentes na conduta

humana, e creio que a formação reativa é a melhor explicação para o caso, e você, caro

leitor, entenderá o porquê desta aplicação a este caso.


Freud acreditava que, para se ajustar aos valores e normas sociais, o que implicaria na redução da ansiedade provocada por desaprovação, as pessoas expressavam

alguns comportamentos em público, mas que, em privado, demonstravam sua verdadeira

natureza. O caso aplica-se ao humorista? Poder-se-á dizer que sim.


Um verdadeiro militante das causas sociais, o humorista sempre apresentou-se como um

verdadeiro defensor das mulheres na realidade, a Globo como um todo está mais voltada ao perfil progressista. Como eu não acredito que a defesa das mulheres, em abstrato, deva ser uma causa política de ideologia X ou Y, fico a pensar na imagem que isso causou, não somente ao âmbito político, mas também à emissora. Eis o problema de uma "ideologia política" que diz defender uma causa e apresenta-se como "mãe dos oprimidos": seus representantes.


Como é possível, portanto, que um grande defensor das mulheres em público possa

assediá-las às escondidas?


Ora, no final das constas, a conclusão óbvia que se faz deste caso é que o autor não acredita, verdadeiramente, naquilo que diz defender. Não acredita na autonomia das mulheres, não acredita em sua posição igualitária diante dos homens; ele seria um verdadeiro "predador em busca de sua próxima vítima".


A segunda conclusão, rebatendo a ideia de que ele teria traído seus princípios, é de que ele, de fato, nunca os teve. Em outras palavras, não se está a trair uma causa em prol de um

fantasia erótica, não existe uma "causa" em seu imaginário, apenas a necessidade de

expressar isso em público.


Agora, voltando ao ponto que talvez tenha causado certa estranheza em você, caro leitor, de que a formação reativa teria uma diferença em relação ao dilema do médico e o monstro, cumpre explicação o que estou a dizer. Na formação reativa, se está a lidar com uma dicotomia dos conteúdos do inconsciente e do consciente, ou seja, o impulso e a sensação original reside no inconsciente, e no consciente este impulso é rejeitado. Para os que leram a obra "o médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson, sabem que, em determinado trecho da carta, quando se estava a descrever o processo de mutação, o próprio doutor chegou a dizer algo como: "no fundo, eu sabia que era eu".


Dizer que não obteve-se o controle numa determinada situação, ou dizer que não era eu, mas o monstro que habita em mim, seria uma boa forma de anestesiar a consciência, mas o

monstro fazia parte da natureza tanto quanto o médico. Aplicar-se-á esse exemplo ao caso?

Deixo essa provocação com você, caro leitor. Por Renan Jorge

34 visualizações0 comentário

Receba Nossos Artigos:

Os Conservadores © 2020