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Michael Oakeshott: a Essência do Conservadorismo

Atualizado: há 6 dias


Falar de Michael Oakeshott em nosso país é uma tarefa árdua. Em primeiro lugar, porque ele é um autor pouco conhecido. Em segundo lugar, porque a elegância de seus ensaios não é traduzida ao território limiar — o que torna sua obra ainda mais bela. Em suma, ele é um autor incomparável. Navegando em sua obra política, é possível notar que há certa erudição peculiar na observância de certos conceitos, bem como o desenvolvimento de uma análise factual de uma realidade emergente. Nesta viagem ao universo de um ensaio tão vasto em conteúdo, cabe perguntar se o conservadorismo é apenas um molde dogmático como estamos acostumados, algo distorcido por inimigos e desertores de sua aspiração, ou uma disposição intrínseca a todos homens, e bastante peculiar em política ? Antes dessa reflexão, talvez seja necessário perguntar: o que se está a falar, verdadeiramente, na expressão "essência do conservadorismo" e, mais ainda, porque acredito que o melhor autor a explicar este conceito seja Michael Oakeshott? Responderei a estes questionamentos neste ensaio. Oakeshott percebeu a essência do conservadorismo, em minha humilde opinião, ao escrever o ensaio "conservadorismo", que em seu título original foi nomeado como "rationalism in politics". Neste belo ensaio, em linhas gerais, Oakeshott está a dizer: o conservadorismo não é uma mera oposição à esquerda, o conservadorismo é a política do ceticismo. O que isso quer dizer? Que a dimensão do conservadorismo não pode ser limitada à oposição à ideologia política específica, mas, como bem observa Oakeshott, à fonte das quais elas estão a beber: o racionalismo moderno. O autor estava a dizer que o racionalismo em política, à época — e mesmo agora, creio eu— , tornava-se a moda intelectual da Europa pós-renascentista. Ele havia notado que o racionalismo moderno estava a deixar suas marcas em todas as linhas dos partidos políticos. Basicamente, Oakeshott acreditava em uma coisa: ou toda política Europeia havia se tornado racionalista, ou algo muito próximo disso — e, além de estar certo, ele provavelmente não ficaria surpreso em saber que o racionalismo repousou em outros continentes. Mas por que seria o racionalismo algo tão temerário ao conservador? Oakeshott respondeu com maestria esta provocação, enumerando alguns elementos intrínsecos ao racionalista. "O racionalista defende a independência da mente em todas as ocasiões, ou seja, o pensamento livre de obrigações perante qualquer autoridade, exceto a autoridade da razão". É claro que essa afirmação não pode ser confundida como a "liberdade de pensamento ou de expressão". Trata-se de não reconhecer que haja alguma verdade em conceitos que não passaram pelo exame de razão, existindo de modo sólido no ciclo existencial de um indivíduo. Ou seja, o racionalista acredita que tudo deve ser elaborado por seu raciocínio. A autoridade, portanto, que pode ser entendida no mesmo patamar com o que Burke chama de preconceito, não é reconhecida pelo racionalista, pois ela implica, noutras palavras, em duas atitudes: a humildade intelectual e a crença numa educação mais extensiva do que os recursos da técnica. Não que falte-lhe completamente humildade, mas ele não é capaz de imaginar que haja uma política incapaz de resolver problemas: eis o "problema". Mais há, além da leitura anatômica do racionalista, uma leitura da essência de seu espírito presunçoso, calcada no "ceticismo" e "otimismo": Cética porque, como observou Oakeshott, o racionalista está a questionar tudo pelo prisma de sua mente; otimista porque o racionalista nunca duvida de sua capacidade intelectual, do poder de sua mente. Apesar disso, o racionalista não nega o que poderia se chamar de "conceito universal", mas considera apenas a existência de sua experiência como base para elaboração do conceito. Ou seja, a base racional e o estímulo para argumentação. Isso faz do racionalista, portanto, segundo o autor, um individualista, pois, como relata-nos: "Para ele é difícil acreditar que qualquer um que pense de maneira honesta e clara não venha a pensar como ele". Essa característica confere ao racionalista o caráter revolucionário que sempre foi alvo de crítica dos conservadores. Ou seja, se tudo pode ser deduzido através da experiência de um indivíduo, é natural pensar que o próximo passo adotado por ele será, inevitavelmente, "reconstruir as bases de um edifício destruindo as velhas". Tudo deve recomeçar do zero, porque sua capacidade intelectual o permitiu reconhecer o fenômeno de melhoria dessa forma. O grande problema? Como pontua Oakeshott: "Ele não leva em conta a acumulação da experiência, somente da prontidão da experiência quando esta foi convertida em uma fórmula: o passado é para ele somente um obstáculo". Um espírito individualista poderia pensar: mas não há qualquer problema nisso. Contudo, aqui não se está a discutir o mérito de uma tradição ou de um conhecimento herdado por uma tradição, porque, isso nos responde muito bem Scruton, nem tudo pode ser avaliado por sua "utilidade". Não trata-se de avaliar "racionalmente" se uma tradição deve ou não existir, mas trata-se de reconhecer que o seu valor não pode ser mensurado pela utilidade, mas por sua beneficência e resiliência em relação aos testes do tempo. Oakeshott afirma que "algumas mentes que nos dão a impressão de terem passado por uma educação elaborada, designada com o intuito de iniciá-las na tradição e nos êxitos de suas civilizações; a impressão imediata que temos delas é de cultura, de um deleite da herança". Não é uma permanência fixa da tradição, como relatou o professor João Carlos Espada ao falar sobre o próprio Oakeshott; mas trata-se da disposição para desfrutar do presente. O racionalista despreza esses elementos pelo fenômeno "self made man", ou seja, o homem que se fez sozinho. Há uma necessidade intrínseca ao racionalista: mostrar que pode caminhar com os próprios pés. Poderíamos considerar isso não como uma característica negativa — na realidade, a priori, não é. O grande problema desta manifestação é quando ela está a negar outro conhecimento que não tenha sido elaborado por seu juízo. O racionalista sente-se apto a "apontar o dedo para humanidade, acusando-a de uma suposta falta de experiência para gerir os momentos mais críticos da vida". Contudo, essa atitude presunçosa foi brilhantemente ironizada por Oakeshott, que afirmou: "Caso ele fosse mais autocrítico, começaria a se perguntar como a raça humana conseguiu sobreviver até hoje sem sua habilidade". Essa presunção, em política, leva o racionalista à aversão à reforma. Em especial, porque o racionalista não suporta a circunstância, par excelence do tradicional e o transitório. Por esse motivo, ele é incapaz de conservar, pois para ele o costume é um sinal de fixação. Conservar requer conhecimento do tempo, da tradição, da prudência, elementos que fogem à mente do racionalista: "Remendar, consertar (quer dizer, fazer qualquer coisa que requeira um conhecimento paciente do material analisado), tudo isso ele considera uma perda de tempo; e o racionalista sempre prefere a invenção de um novo aparato ao uso de um expediente corrente e já testado". Para Oakeshott, um racionalista, portanto, é incapaz de melhorar uma tradição, pois essa postura requer uma espécie de submissão — postura que o intelecto racionalista jamais admitiria. Oakeshott, em outro ensaio de suma importância para sua obra "a política da fé e a política do ceticismo", denunciaria, com o mesmo grau de erudição, os problemas relacionados ao racionalismo, em especial, ainda tratado neste mesmo ensaio, o problema da perfeição, traduzido na política da fé: "Na política da fé, a atividade de governar se encontra a serviço da perfeição humana; a própria perfeição é entendida como uma condição mundana das circunstâncias humanas, sendo que sua realização depende do esforço humano. A função do governo consiste em dirigir as atividades de seus governados, seja para que contribuam com os aprimoramentos que, por sua vez, convergem para a perfeição, ou (em outra versão) para que se ajustem ao padrão imposto". Na política da fé, portanto, há o controle minucioso das atividades humanas, porque entende-se que o Estado é uma espécie de norte moral para orientar a sociedade em seu caminho de aperfeiçoamento. Deste modo, deposita-se a esperança nesse agente político, seja por meio de controle direito, seja por meio de inspiração única. Continua Oakeshott: "Dado que essa atividade somente se sustenta mediante um controle minucioso e zeloso das atividades humanas, a primeira necessidade do governo na política da fé é um poder que satisfaça essa tarefa". Depois de refletir intensamente nas contingências da política racionalista, agora que compreendemos que o conservadorismo não é uma mera aversão à esquerda, mas uma oposição ao pensamento racionalista, cumpre definir o que vem a ser o conservadorismo para Oakeshott. Em primeiro lugar, Oakeshott encarrega-se de retirar o conservadorismo do campo abstrato. O que estou a falar? Que o autor não partilhava da crença de que não existiram princípios gerais observáveis numa conduta conservadora. Isso é importante, creio eu, por duas razões. Em primeiro lugar, porque o campo abstrato é território perigoso para sucessíveis mudanças — Nem sempre pela contingência, e quase sempre pela conveniência. Em segundo lugar, porque, se o conservadorismo não é "nada", ele pode ser qualquer coisa. Ou seja, qualquer governo poderia nomear-se conservador sem apresentar qualquer demonstração que justificasse essa conduta. Contudo, seria um erro pensar que o objetivo de Oakeshott é propor uma "doutrina conservadora". Sua obra visava observar o que ele chamou de "predisposição conservadora". É curioso pensar que o autor, como Scruton, também reconhece um certo enfado no conservadorismo, no sentido que não é uma obra política excitante: "Pode até ser verdade que a conduta conservadora não motiva articulações mirabolantes no campo das ideias gerais, e por conseguinte tem havido certa relutância em levar a cabo empreitadas nesse sentido; porém não cabe pressupor que a conduta conservadora seja menos merecedora de descrição do que qualquer outra". Em suma, é como se o autor quisesse dizer: eu não quero propor uma doutrina. Reconheço que o conservadorismo não é tão empolgante, mas isso não significa que ele não deva ser objeto de uma observação mais minuciosa. Diferente de outras ideias políticas, Oakeshott nos dirá que o conservadorismo não é uma ideologia política com traços rudimentares e dogmáticos, mas um modo de preferir o que lhe é familiar, o modo de escolher o que está vinculado ao presente: "Ser conservador é estar inclinado a pensar e agir de certas maneiras; significa preferir alguns tipos de condutas e algumas circunstâncias de condições humanas a outras; é ter uma tendência a fazer alguns tipos de escolhas". Continua o autor sobre as ideias gerais da disposição conservadora: "Elas giram em torno da ideia da propensão desse personagem histórico em usar e aproveitar o que se encontra disponível ao invés de ir atrás ou de inventar algo novo; regozijar-se com o presente e não com o passado ou com o que possa vir a acontecer". Há, portanto, uma consideração extremamente importante. Ser conservador não é apenas preocupar em manter uma tradição fixa no seio social, não é procurar revisitar no passado um presente glorioso, mas é a capacidade de desfrutar do que temos, de preferir o presente, o familiar, o conhecido. Dessa observação surge a famosa frase de Oakeshott: "Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica". O conservador é o indivíduo apegado à sua realidade, ao seu presente. E não há qualquer explicação no campo das ideias abstratas para justificar essa disposição, pois ela pertence a todos os homens. Conservamos o que estimamos, o que reconhecemos como querido, desejável, precioso. É claro que o autor também denuncia a possibilidade de que o presente não seja agradável e, portanto, nesses casos, essa disposição tende a ser atenuada. Contudo, outras observações também fazem-se necessárias. O autor pontua algumas reações para a contingência vigente, que pode variar na tradução da conduta conservadora, ou seja, se o presente for instável, buscar-se-á a estabilidade — normalmente explorando o que há de melhor no passado —, mostrará sua força quando o presente for abundantemente agradável e, nos casos em que o presente está ameaçado, essa conduta será ainda mais forte. Há uma razão para creditar ao passado a confiança de uma alternativa ou não. Diferente do "desconhecido", o passado está a narrar uma série de resultados, positivos ou não, e serve como uma espécie de guia empírico da tradição conservadora. Ao conservador a "inovação" deve respeitar os resultados colhidos pelo fruto do passado e, portanto, incorporar-se de modo paulatino é o melhor caminho para conciliar duas necessidades: a observância do passado e a necessidade da mudança. Mas porque se está a conciliar essas duas necessidades? Por que não destruir tudo e reconstruir, como fazem os revolucionários? Oakeshott respondeu esse questionamento ao dizer: "Em suma, é uma predisposição típica de quem acredita ter algo a perder, algo que o tempo o ensinou a amar; um homem de certo modo rico em oportunidades de aproveitar a vida, mas nem tão rico assim que se permita dar-se ao luxo de ser indiferente à perda". O conservador é aquele indivíduo cujo tempo o ensinou a amar o seu presente, aquele capaz de reconhecer o verdadeiro valor do presente. Ainda que a mudança não seja maléfica ou não venha a trazer resultados negativos, o conservador terá grande dificuldade em se ajustar, o vínculo o fez amante de seu presente: "No entanto, ele tem grande dificuldade em se ajustar a novos cenários não porque tenha perdido algo melhor do que a compensação, nem porque esta não seja passível de ser desfrutada, mas sim porque o que ele perdeu era algo que de fato gozava e que ele aprendeu a gostar ao longo do tempo, ao contrário do que entrou em seu lugar: uma coisa estranha, fria, sem laços afetivos". O homem conservador não tem qualquer desejo em aprofundar-se na aventura do desconhecido, no campo do imprevisível, do indomável. Ele prefere a segurança da certeza, do presente, do existente: a estabilidade: "Ele não é apaixonado pelo perigo e pela dificuldade; não tem nada de aventureiro; não lhe atrai a ideia de velejar por mares desconhecidos; para ele não existe mágica em estar perdido, confuso ou naufragado. Se for forçado a navegar águas desconhecidas, ele enxerga virtude em parar a todo o momento". Falamos, portanto, de uma disposição conservadora. Disposição que é comum a todos os homens, em alguma medida, em relação ao que estimam e desejam proteger. Agora, o que Michael Oakeshott está a propor em relação ao conservador na política? Como ele o enxerga? Em primeiro lugar, o autor empenha-se em diferenciar uma “disposição conservadora” de uma postura conservadora em política. Oakeshott não está a dizer que um conservador em política não detém traços de uma disposição conservadora, no sentido de expressar-se como uma disposição filosófica. O que ele está a dizer é que não necessariamente o conservador em política está atrelado a bandeiras com as quais é frequentemente confundido. Ou seja, a imagem de um conservador meramente dogmático, apegado à religião, à bandeira política específica. O que ele está a propor é uma atitude mediante a contingência, de como o poder de uma entidade política é exercido sobre as atividades de seus governados: “A bem da verdade, não acho que ele tenha que estar conectado com nenhuma bandeira em particular sobre o universo, sobre o mundo em geral ou sobre a conduta humana. O que o diferencia no contexto político está relacionado com as crenças na forma como a política deve ser costurada no dia a dia e como deve funcionar os instrumentos de governo".

O autor propõe quatro maneiras de viver, que culminaram na compreensão de que o governo deve dispor de poucas oportunidades de controle sobre seus governados, sem que isso não signifique o desprezo e o zelo por regras gerais da conduta humana, e que possibilitem às pessoas uma autonomia mediante as suas escolhas, fazendo com que errem ou acertem por sua conta e risco: “É a observação de quatro maneiras de viver que combinadas com o paradigma de que a atividade de governar é específica e limitada, provendo e zelando pelas regras gerais de conduta, que são entendidas, não como planos para se impor atividades substantivas, mas como capazes de possibilitar que as pessoas persigam seus próprios interesses com a frustração mínima. Tudo isso exige uma postura conservadora”.

A frustração da qual Oakeshott está a falar diz respeito à interferência arbitrária nos projetos humanos. Ou seja, quando impedido de fazer minhas escolhas por meras concepções abstratas. Na realidade, a maior denúncia deste “modus operandi” encontra-se justamente na existência da diversidade presente na conduta humana. Em outras palavras, somos distintos em nossos mais variados relacionamentos: sentimos alegria, tristeza, às vezes concordamos com algumas opiniões, discordamos de outras, sentimo-nos satisfeitos ou insatisfeitos: "As multiplicidades de atividades e as variedades de opiniões ensejam embates: produzimos caminhos que cruzam os de outros, e não aprovamos todos os tipos de conduta. Entretanto, em geral, nos damos bem uns com os outros, às vezes cedendo, às vezes resistindo, outras firmando compromissos. Nossa conduta consiste, na maioria das vezes, em assimilar nossos interesses ao de outros através de pequenos ajustes". Mas, é claro, Oakeshott não apenas relata a existência da diversidade – isso os sociólogos já estão a fazer -, sua conclusão foi de que isso não implicaria, necessariamente, numa conduta conservadora, e que somente a concepção de autossuficiência bastaria para reconhecer tal importância; ele vai além: ele discorre sobre a importância de sua proteção diante de determinadas situações, não por serem vítimas de um poder opressivo ou coercitivo, mas porque fazem parte do campo natural da conduta humana, de seu amadurecimento, de sua autonomia: "A raiz dessa outra predisposição relativa ao ato de governar e aos instrumentos de fazer política – predisposição conservadora – está na aceitação da atual condição humana da forma como a descrevi: a propensão para fazermos nossas próprias escolhas e encontrar prazer em assim agir, a variedade e os objetivos que cada um persegue com paixão, a diversidade das crenças defendidas, cada uma com a convicção da verdade exclusiva; a inventividade, o transitório e a ausência de um plano maior; o excesso, a hiperatividade e os compromissos informais".

O governo, portanto, não deve servir como uma espécie de redentor da conduta humana, um espelho metafísico que está a propor como os homens devem agir, uma instituição de matriz hiperbólica que deve guiar os homens ao aperfeiçoamento, ao prazer, à felicidade, à identidade; nada disso diz respeito ao governo. Todas essas aspirações devem ser fruto da escolha do “homem social”, das pessoas, do sujeito. Para Oakeshott, a única função do governo, portanto, é a de fazer cumprir a lei:

"E o ofício de governar não é impor aos outros suas crenças, nem educar ou tutelar ninguém, nem fazê-los melhores e mais felizes de outra maneira, nem direcioná-los, incentivá-los a agir, liderá-los ou coordenar suas atividades de forma que nenhum conflito surja; o ofício de governar é simplesmente garantir que a lei seja cumprida". Um governo que excedesse essa esfera estaria, no mínimo, indo além de suas funções desejáveis. A existência de um governo que transpassasse essa esfera de atuação de poder, não seria apenas prescindível por sua existência em si mesma, mas presunçosa o suficiente por basear-se na hipótese de que goza de algum benefício intelectual que o permita tomar decisões pelos seus governados: "A observação de que essa condição de circunstâncias humanas é, na verdade, momentânea, e que aprendemos a desfrutá-la e a lidar com ela; de que não somos crianças statu pupillari, mas sim adultos que não se consideram na obrigação de justificar suas preferências na hora de tomar suas próprias decisões; e de que vai além da experiência humana supor que os governantes foram dotados de uma sabedoria superior que os leva a possuir um repertório de crenças mais avançadas que lhes dê o direito de impô-lo sobre seus súditos". Não seria exagero dizer que Oakeshott despreza o paternalismo governamental com o mesmo entusiasmo com que John Stuart Mill o fez. Sua ironia e o tom de suas perguntas em seu ensaio levam-me a crer em tal afirmação, e talvez isso também venha a esclarecer o motivo de Oakeshott ter sido confundido com um autor liberal: "Se a um homem de tal temperamento for perguntado: por que devem os governos aceitar as diversas opiniões que existem hoje em prol de impor seus sonhos sobre a população? Seria suficiente responder: por que? Seus sonhos não são diferentes dos de ninguém, e, se é chato ter de ouvir os sonhos dos outros, é terrível ter de ser forçado a vivê-los também". Contudo, também não seria exagero dizer que qualquer mente consciente deveria pensar que o paternalismo é simplesmente inaceitável num adulto, pelo menos nos casos em que ele pode gozar de suas faculdades mentais. Voltando ao tema do ensaio, também não pode ser dito que o governante conservador não deve fazer nada. O ponto é que sua atividade é mediadora, baseia-se na observação do presente, na minimização dos conflitos gerados pela diversidade, que culminam, portanto, na garantia da paz e da ordem:

"Da forma que ele entende, há muito trabalho, mas que só poderá ser feito aceitando genuinamente as crenças do momento simplesmente porque é assim que o mundo se apresenta. E, brevemente, a capacidade que ele atribui ao governo seria a de resolver eventuais choques que tamanha diversidade de crença invariavelmente enseja; preservar a paz, não colocando empecilhos à escolha e à diversidade que nasce do exercício da liberdade de ter preferências, não impondo uniformidade substantiva, mas reforçando leis gerais de procedimento sobre todos de maneira equânime". Não trata-se de buscar um governo para melhoria do mundo, um governo onde profundas mudanças serão realizadas de cima para baixo, um poder cuja expressão dar-se-á para o controle extensivo das atividades humanas, no sentido de que mudará radicalmente a condição presente em que se encontram os homens, mas trata-se de mediar conflitos gerais, garantindo aos governados a possibilidade de, em alguma medida, governarem o próprio espírito:

"O governo não começa, pois, da forma como o conservador entende, com um ponto de vista de um mundo diferente e melhor, mas com a noção de que cada homem deve praticar uma espécie de ‘autogoverno’ quando leva a cabo a conduta de seus negócios pessoais; começa nos pequenos ajustes que devem ser feitos para se acomodar interesses com potencial de se colidirem, evitando um mal maior caso a colisão realmente se concretize". “Resumindo, a força do governo deve ser baseada no ritual, não na religião ou na filosofia; na prática do comportamento pacífico e ordenado, não na busca pela verdade ou pela perfeição”. Entretanto, apesar de reconhecer a importância de preservar a autonomia e, numa medida desejável, minimizar o máximo possível o poder expressivo de interferência de um governo sobre atividades que não lhe competem, o autor não está a propor simplesmente um estado de libertinagem, onde as crenças podem ser perigosas ao ponto de serem destrutivas: "Entretanto, o autogoverno dos homens apaixonados por suas crenças e interesses tende a ruir justamente quando se faz mais necessário". “Ser conservador na política é um reflexo do que consideramos ser apropriado para regras de conduta”, talvez essa seja uma das mais claras definições em Michael Oakeshott sobre o conservadorismo em política. O fato é que ninguém deseja ser lesado por injustiças, nem tampouco prejudicado por inclinações injustificáveis, ter seu modo de vida e conduta dirimidas por um poder que está a propor um verdadeiro controle ostensivo sobre suas atividades, sobre o seu presente, sobre o que se estima, sobre seu pensamento, em suma, sobre você. Claro que o conservadorismo excede o campo do emaranhado, apesar de ser uma filosofia política muito difícil de definir e, portanto, de explicar. Contudo, como tentei demonstrar no presente ensaio, é possível identificar elementos gerais na conduta de uma mente conservadora, que guiem um espírito que deseja apenas viver sua vida, desfrutar de seus bens, construir seus laços afetivos. Em política, como percebemos em nosso país, fica cada vez mais difícil identificar uma postura verdadeiramente conservadora, isto é, uma postura que esteja de acordo com os conceitos de uma conduta ou regra geral da vida. A relativização moral em detrimento da lei é cada vez mais expressa em boa parte desses espíritos extravagantes, que empenhados em seu projeto de tirania da impunidade, despertam cada vez mais o desprezo pelo presente. Isso não somente corrompe os alicerces de uma base conservadora, mas abre margem para produção em massa de inúmeras utopias destrutivas, o que favorece, portanto, a compreensão do país e da realidade que o abarca como mero instrumento de produção de suas engenharias singulares. Em outras palavras, cria-se um verdadeiro laboratório de testes para produção de um vírus cujo poder destrutivo é incalculável: a utopia. Prometi responder ao maior questionamento deste ensaio: por que estou a pensar que Michael Oakeshott foi o autor que enxergou a essência do conservadorismo? Porque, entre outras palavras, Oakeshott pôde, de fato, enxergar a alma humana, compreender suas necessidades, seus desejos e, mais ainda, ele demonstrou que numa realidade como a nossa, cujo medo e a incerteza política ficam cada vez mais aparente, conservador não vem a ser aquele a concordar com a destruição do presente, mas aquele responsável por denunciar a tentativa de desprezá-lo, a importância de uma reforma aos moldes de um passado factível, de um cenário apreciável, desejável, familiar. A verdade é que o presente está a ser destruído e, como destaquei uma vez: "Ser conservador é reconhecer que o tempo é caro demais para entregar aos utópicos o que levou anos para edificar". Por Renan Jorge

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