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O Bobo da Corte

Atualizado: 3 de Out de 2020



Estariam os reis e líderes políticos cercados de tolos? Seria essa aliança voluntária? Para Erasmo de Rotterdam, sim. Um grande teólogo e autor do famoso ensaio "Elogio da Loucura", Erasmo teceu, neste mesmo ensaio, uma crítica à escolha dos reis em relação às suas amizades. Para o referido autor, os reis preferem os loucos aos sábios austeros, motivo facilmente explicado porque os sábios, em geral, só sabem levar tristeza aos príncipes. Os bobos, ao contrário, vivem a agradar seus reis acima de qualquer coisa, proporcionando exatamente o que desejam: o prazer, o divertimento, a gargalhada...


Felizmente ou infelizmente — dependendo do ponto de vista — a crítica de Erasmo não foi consumida pelo tempo, aplicando-se com veracidade nos dias de hoje. São muitos os loucos e bobos que estão a adorar esse governo, tantos que é quase impossível mensurar. Assim como observado por Erasmo entre os séculos XV e XVI, certos hábitos nunca mudam, e a tolice parece ser uma das maiores heranças do exercício político. O louco externa loucura, diz Eurípides, e, diferente do sábio, ao louco é impossível qualquer dosagem e observação da contingência. Por isso o louco sempre externa sua paixão desgovernada diante de qualquer situação: o louco é sempre louco. Como já observado por Erasmo, os príncipes estão privados da verdade, pois estão rodeados apenas de bajuladores. Mas o "mito" não é o tipo de rei ou príncipe que precisa de um guia num desafio tão exigente como o de governar; o "mito" é mais um louco que deseja ouvir de outros loucos os delírios de seu espírito. Os bobos temem qualquer crítica ao seu ídolo, quase nunca aplicam este exame à sua paixão e, quando o fazem, um verdadeiro véu é tecido diante das circunstâncias, pois com isso o tom fica quase imperceptível. Os bobos estão a dizer que tudo vai bem, estão a negar as tolices de um governante intemperante, estão a olhar as desventuras como se fossem verdadeiros presentes da sorte: sorte dos tolos. Pois bem, que sejam consumidos pelas chamas de seus inditosos desejos, mas que não levem os demais com eles.


Ora, os céticos não se renderão às paixões dos loucos, por isso seus conselhos e críticas serão sempre intransigentes. Não é tarefa de um cético agradar um príncipe mimado, que os tolos labutem para o ofício que foram contratados. O bobo da corte está a aplaudir os atos de um louco, pois vê refletido em seu mestre sua própria imagem, seu próprio desejo. São pagos pelo sorriso de seu mestre, mas serão vendidos pelo bobo que fizer mais "graça". Quem aplaude mais? O desafio está lançado. Na sátira está contida uma terrível verdade: a loucura elogia a si mesma.


Por Renan Jorge

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