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O Candidato e o Eleito: o Dilema do Médico e o Monstro

Atualizado: 14 de Out de 2020



O sr. Robert Louis Stevenson, que, felizmente, enriqueceu-nos com sua gloriosa obra "o médico e o monstro", certamente tem o apreço de qualquer leitor amistoso de parábolas bem construídas, ou mesmo do mais assíduo estudante da psicanálise. Embora este seja o tema de uma desejosa reflexão espiritual, no que concerne analisar os nossos próprios demônios, o objetivo deste ensaio remete ao campo político: o candidato e o eleito, duas figuras dissonantes, e que partilham de um só corpo.


A temática da política, no que refere-se aos candidatos, sempre procurará exaltar suas mais valiosas virtudes — muitas delas, é claro, mensuradas equivocadamente. Em campanha, todo político é um bom médico, como fora o Dr. Jekyll. Um homem reconhecido por seu trabalho incessante e bondade incalculável, que chegou a ser considerado vítima do que seria uma chantagem praticada pelo seu misterioso protegido: Edward Hyde. Afinal, qual seria o motivo do bom médico legar sua fortuna a um estranho de aparência amorfa, considerado o próprio retrato do diabo? Seguindo esta trama, o grande amigo e advogado do médico, Mr. Utterson, procura esclarecer esse verdadeiro "mistério". No fim, o bom médico e o monstro partilhavam do mesmo corpo, eles estavam a coexistir num verdadeiro cenário de pura inquietação. Isso parece familiar? Não somente como resultado da última eleição, mas em boa parte dos rosto que aparecem em campanha.


Os médicos bondosos estão a aparecer por ai: estão a visitar hospitais, praças, ruas esquecidas, estão a consolar os espíritos mais desesperados, com suas promessas e gestos benfeitores. O grande problema é que tais virtudes são apenas temporárias, e depois de conquistar o poder que tanto almejam, eles correm desesperados para os seus laboratórios, que já desarrumados e rodeados pelos mais variados elementos químicos, dão à luz ao monstro que habita os seus corpos.


A campanha nada mais é do que o estágio entre as suas naturezas. Mas por que, nesse caso, incorporar a figura do monstro? Por que ceder à natureza do "candidato eleito"? Para anestesiar a consciência, para não dar explicações, para fugir do juízo moral, para entregar-se fielmente ao seu inquilino interior. Depois de tanto tempo no corpo de um monstro, já não se conhece mais o homem, ou, nesse caso, "o médico". O espelho moral não custa nada aos seus espíritos, como o espelho que Dr. Jekyll adquiriu para assistir suas mudanças físicas. As transformações, conforme o tempo, tornam-se inesperadas, sem que seja necessário tomar qualquer substância. O efeito para retornar ao papel do bom médico, quando é possível, só ocorre uma vez no intervalo entre os anos em que ocorrem as eleições.


Caso algo dê errado, basta tecer uma gigantesca carta aos que ainda nutrem qualquer apreço por essa figura tão inditosa. Basta pedir ajuda aos que assistem essas transformações, e não fazem nada. Enquanto alguns esperam pela captura do monstro, outros aguardam ansiosos pelo surgimento de um "bom médico". O problema está em descobrir que a residência do monstro é apenas o porão da bela casa e, portanto, basta trocar os residentes.


Os ingredientes estão prontos para transformar, novamente, outro bom médico num monstro, uma figura para incorporar todo ódio e repulsa que podemos nutrir por alguém, um símbolo para carregar a aversão edificada durante tantos anos. Poucas são as mentes que ainda perturbam-se com essa figura tão indesejável — alguns aceitam conviver naturalmente Edward Hyde. O fim para todo monstro costuma ser a destruição pelas mãos inimigas ou, em alguns casos, a destruição fabricada pelas próprias mãos. Mas as vozes que deveriam cobrar essas bestas estão rogando pela sua condição permanente, e este hálito se recusa a desaparecer no espelho. O Brasil é um dos poucos países a ensinar seus habitantes a amar o monstro, tornando-o desejável, e o médico uma figura sem relevância.


Por Renan Jorge


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