• @UsConservadores

O Crepúsculo dos Ídolos: A Política Brasileira

Escrito por: Renan Jorge



É verdade que Nietzsche não possui vínculo direto com o conservadorismo. Também é verdade que o conservadorismo rejeitaria, em grande medida, boa parte dos pensamentos deste filósofo incompreendido. Contudo, creio não incorrer em erro ao dizer que Nietzsche não estava errado com relação ao conceito de ídolo, e se o nosso século o presenteasse com sua existência, ele provavelmente enlouqueceria. Para o filósofo, os ídolos teriam sido criados para o homem, não pelo homem. O conceito de super-homem foge à ideia atual: um personagem com poderes imensuráveis; o super-homem nada mais é do que o individuo capaz de negar os ídolos criados ao culto da sobrevivência moral, à religião e outros dogmas impostos às massas, o poder opressor sobre o homem comum.


Ao meu espírito essa ideia não é tão apreciada, por motivos singulares e filosóficos. Mas, com uma dose adequada de humildade, quem sou eu para fazer qualquer juízo de valor sobre um pensador eterno? Mas, voltando ao tema deste ensaio, a política Brasileira é, de fato, um culto aos ídolos. Dentro de um contexto histórico – se este for levado em consideração – é possível inferir que estes ídolos são, ao longo do tempo, modificados por um regime ou outro, incorporados e expressados de modo distinto, e creio que estes não são criados por uma força externa, e sim, pela própria condição humana, que necessita acreditar em algo: acreditar em um deus, em um conceito abstrato, na ciência ou em si mesmo – o que provavelmente é a pior de todas as crenças. Jung foi um dos investigadores, creio eu, mais eficientes ao analisar o inconsciente coletivo, sobretudo no que concerne ao arquétipo de herói. Herói, terrível herói, que de quatro em quatro anos, ganha um nome diferente. As máscaras são trocadas no teatro em política, mas o elemento primordial é sempre o mesmo: o salvador. E isso, segundo os seus adeptos, é ser "racional."


Michael Oakeshott acusou o racionalismo de subversão da própria razão, e ele não estava enganado a este respeito. Este "homem racional" fez coisas irracionais em nome do racionalismo, o mal em nome do bem, a troca da fé religiosa pela busca da perfectibilidade em solo terreno, que loucura. Os eleitores Brasileiros, embora tentem se esforçar para enganar o próprio espírito, não fogem à máxima idólatra: eles apenas mudam os personagens nas urnas. A peça da vida não modifica os papéis, somos novos personagens neste teatro; alguns vivem de acordo com essa verdade, outros negam este elemento por um propósito maior, mas a verdade é que nossos pensamentos são frutos igualitários de pensamentos anteriores, ninguém cria sem um saber prévio, sem um arcabouço, a verdade é que somos continuações. Continuações que perpetuam o ciclo na incerteza sobre a humanidade. O individualismo talvez não seja a resposta, o coletivismo, também; o tempo avança rapidamente, deixando nos locais por onde passa, uma terrível verdade: você não sabe nada, é apenas mais um.


O ídolo não é apenas uma persona humana, ele é também a representação de uma vontade opressiva, pelo menos em Nietzsche. O ideal de sua filosofia, que deveria estar além do bem e do mal, coloca medo em qualquer mente decente, ainda assim, o homem primitivo não pode ser negado. Talvez a investigação política não leve à resposta para fugir da fé; todos têm uma crença. O Ceticismo remete à dúvida o que os espíritos tomam como uma certeza absoluta, a atitude conservadora é alicerçada na dúvida. Talvez Nietzsche tenha idealizado este super-homem ao torná-lo possível; mas mesmo este homem não pode fugir à terrível verdade: além do bem e do mal, este é o seu ídolo. O esforço de nossos espíritos é escolher os "ídolos" menos opressivos, mas a ordem é inevitável.


Ser ou não ser, pergunta o príncipe Hamlet. Talvez este super-homem, de fato, não possa existir. Talvez, como disse Nietzsche sobre a persona de Sócrates, a morte seja o único médico aqui... E nós só estaríamos doentes por muito tempo. De todo modo, a única forma de não ser humano, parece-me "não ser". Este não é, apesar do tom, um culto ao fim, mas o culto à dúvida: somos diferentes?


Talvez os nossos desejos sejam reduzidos à ideia da substituição dos ídolos que odiamos pelos que amamos. A crença alheia sempre será a mentira que confronta a verdade. Em todo o caso, como desejamos uma certeza, eu prefiro conservar o que existe a lutar pelo desconheço. A minha crença talvez seja a dúvida, a dúvida de que há alguma certeza no desconhecido.

47 visualizações0 comentário

Receba Nossos Artigos:

Os Conservadores © 2020