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O Demônio da Garrafa: as Chamas da Justiça Utópica



Todo revolucionário é guiado por uma utopia. Via de regra, quando não se obtém êxito por via política, eles costumam recorrer às chamas da violência. Desta vez, no chile, uma igreja foi o alvo deste desejo lunático. No ato, segundo noticiado pela mídia, aquelas pessoas estavam a comemorar um ano de protestos em relação à classe política. Você deve estar se perguntando: o que a igreja tem a ver com isso? Não encontrou sentido? Então, nesse caso, não se preocupe, isso, de fato, não tem justificativa.


Alguns espíritos disseram que este foi um ato guiado por uma espécie de desejo de justiça em relação à classe opressora religiosa, que causou um mal irreparável durante séculos — "como se o prédio tivesse vida própria". Ao atear fogo na igreja, no momento em que o prédio se desfazia em chamas, e ao passo em que sua estrutura pendia ao chão, nos olhos dos revolucionários, ao mesmo tempo, toda suposta opressão também se desfazia no fogo de sua justiça. Desejos são, sem dúvida, complexos, muitos deles guiados por paixões e, portanto, irracionais.


Paixão e política, eis uma mistura perigosa, e os resultados destes desejos costumam ser incalculáveis. Outra vez, para demonstrar como uma utopia pode condenar, sem piedade, "uma alma ao inferno", desejo citar o extraordinário Robert Louis Stevenson. Em sua primorosa obra o demônio da garrafa, numa trama rica em amor, suspense e uma dose não exagerada de terror, Stevenson está a explorar os desígnios da mente humana, que, tomada por sua ambição e utopia, é capaz de condenar, voluntariamente, seus semelhantes ao inferno. Para isso, basta aceitar uma garrafa com um morador muito imprevisível: um demônio. O que ele concede? Diga-me você, o que deseja?


Embora este seja um conto célere, não é possível dizer que ele não vale a leitura. Na trama, um homem faz uma aquisição um tanto insólita: ele compra uma garrafa cujo residente é um demônio. Basta dizer o que se deseja, e pronto: será seu. Contudo, há uma condição expressa para aquele que aceita este presente peculiar: o seu dono será condenado ao inferno, a menos que consiga vender a garrafa. Olhando deste modo, parece simples; porém, existem uma condição: ela precisa ser vendida por uma quantia menor do que foi comprada. Stevenson explora, portanto, nos variados personagens do conto, o desesperado em conquistar a garrafa e, ao mesmo tempo, em se desapossar dela. A cada negociação uma nova desventura acomete seus compradores, a cada aquisição os compradores são tomados pelo prazer e pelo desespero. O curioso é que, mesmo sabendo que o individuo será condenado ao inferno — embora essa condição seja estipulada em cada negociação — as pessoas tornam-se cada vez mais desejosas e miseráveis em condenar seus irmãos e, em última análise, o próprio espírito. Não pretendo, porém, contar como a história termina — para incentivar a própria leitura —, mas o conto no faz refletir, sem depender de seu final, que os homens são capazes de qualquer coisa para satisfazerem seus desejos, mesmo que isso signifique ser "condenado ao fogo eterno".


Os revolucionários, portanto, não são diferente. No desejo em revolucionar e sacrificar as regras e os costumes mais antigos da vida, esses espíritos estão a negociar, de porta em porta, de casa em casa, uma garrafa com o demônio. Basta pedir e lhe será concedido, sonhe e tudo será possível. A diferença, nesse caso, é que nem todos os termos do acordo estão sendo estipulados, e mesmo um ato de vandalismo pode representar uma espécie de "ajuste histórico". É incrível, porém, como esse tipo de mentalidade política tem sobrevivido ao longo de tantos anos, mas creio que o seu valor, como o da garrafa, encontra-se cada vez mais baixo. É provável que o valor fique tão baixo que não encontrarão, em solo nenhum, moeda alguma para negociar, acordo nenhum para se fazer, o que lhes restará, nesse caso, será apenas o sentimento de desespero e a pele em adaptação às mesmas chamas que eles usaram para destruir o que desprezavam.


Revolucionários são, portanto, comerciantes da garrafa, que estão a buscar qualquer miserável que deseje mentir para própria mente. Soa até irônico: o mesmo fogo com que condenam pode, no fim, levá-los à destruição


Por Renan Jorge

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