• @UsConservadores

"O Lado Bom" de 2020?

Atualizado: Jan 7


Provavelmente você, prezado leitor, conhece alguém que está com crises de ansiedades para dar adeus ao ano de 2020 — ou quem sabe esta disposição reside em seu espírito. Sejam os motivos privados, sejam os motivos públicos, os pedidos para o fim deste ano são incontáveis.


Devo admitir que este ano também causou-me muitas inquietações, mas reconheço que a minha angústia pode não representar nada, se comparada às adversidades sofridas por outras pessoas. Mas a tragédia não tem como único objetivo fazer de nossas lágrimas o seu mantimento, mas, por excessiva repetição, fazer-nos mais resilistes.


Não pretendo, contudo, causar enfado ao leitor com meus relatos pessoais, mas acredito que, numa visão mais holística, podemos extrair alguns exemplos dos acontecimentos gerais deste ano.


O primeiro deles — e certamente o mais comentado — a pandemia de covid-19. O ponto negativo desta terrível praga, por óbvio, venha a ser o número de óbitos, que, até o momento em que escrevo este ensaio, está em 1.730.663. Poder-se-á dizer que a pandemia foi o arcabouço para os diversos infortúnios sofridos neste ano, especialmente porque, numa perspectiva política, foi a principal responsável para diferenciar os bons gestores dos loucos tirânicos — devo reservar esse comentário próximo ao término do texto. Além disso, a pandemia foi responsável por colocar "os homens em seu território de habitação", forçando-os a adotar uma postura de humildade diante do pouco conhecido mundo dos microrganismos — embora alguns livros acadêmicos soem opostos a este posicionamento.


Apesar de uma gama de descobertas, levamo-nos a pensar que pouco sabemos sobre este vasto universo — postura que lembra-me profundamente o espírito de Jonathan Swift no ensaio "as viagens Gulliver". Quantas espécies e, portanto, hábitos, padrões e costumes ainda desconhecemos? Para quantas criaturas passamos a imagem de grandeza, e para quantas criaturas somos ínfimos seres vivos?


"O lado bom", neste caso, é que além de eliciar uma postura de humildade, também foi possível extrair o máximo empenho dos mais variados profissionais da saúde — e, não obstante, de todos os setores que foram afetados, mas que resistiram virtuosamente a este cenário.


É verdade que a famosa expressão "cada um por si" vigorou neste ano, mas o espírito de solidariedade e companheirismo também acompanhou a maior parte das pessoas, que esforçaram-se ao máximo para ajudar àqueles que jamais contemplarão a face — ainda que haja uma minoria barulhenta e extremada que, às vezes, convence-nos do contrário. O que se está a dizer? Que precisamos uns dos outros, e a pandemia deixou isso muito claro. Setores que não operaram sem os outros — ou, se o fizeram, foi com grande dificuldade, dependemos dos que plantavam, dos que colhiam, dos que vendiam, dos que compravam, dos que entregavam e assim sucessivamente — embora isto sempre se aplique, com pandemia ou não, ficou mais aparente. O "consumidor final" nunca foi colocado em xeque tanto quanto agora — penso que isto é importante destacar.


Em política, a pandemia destronou políticos que cantaram vitória antes da hora, ao mesmo tempo em que intensificou o apreço por outros. Em especial, no Brasil, a pandemia não modificou a imagem de ninguém, mas revelou a verdadeira natureza de nossos "representantes".


O resultado das urnas, em termos de consequência, ficou muito claro no ano de 2020, quando avistamos nossos políticos minimizando a pandemia, chamando-a de gripezinha, adotando medidas mais rígidas que abarcassem a população, quando fugiam para aviar-se por outros continentes, entre tantos exemplos que eu poderia listar — e certamente já o fiz em outros ensaios.


O lado positivo nisso tudo — se é que podemos chamar assim — reflete no espelho moral a emergente necessidade de escolher melhor os nossos representantes futuramente, e acho razoável pensar que os ramos libertários ganharam mais enfoque graças ao cenário político deste ano.


O debate político ainda implicou no que considero uma discussão atemporal: o linear entre as liberdades individuais e coletivas. Seria presunçoso dizer qual é a resposta mais justa e adequada, ou mesmo tentar discutir sobre o prisma da verdade, pois, como bem destaca Schopenhauer, o que está em ação numa discussão não é a busca pela verdade, mas o desejo pelo poder. Sendo assim, encontraremos os "defensores da verdade" em ambos os lados; e penso que o assunto requer extrema prudência e cautela, como toda e qualquer discussão política. Contudo, sob pena de cair em contradição com o que escrevi no decorrer deste texto, ainda acho que o "homem social" — para usar uma expressão de Burke — demonstrou que encontramos, em nossas teias coletivas, o espírito do cavalheirismo, que é crucial para qualquer sociedade razoavelmente aceitável. Mesmo eu considero que o brasileiro tem muito o que extrair deste ano, e não seria delírio dizer que estamos atrasos, se comparados com outras civilizações, mas como o espírito conservador está casado com o que chamamos de reforma paulatina e prudente, talvez — e um grande destaque para esta expressão — encontraremos nossa identidade ao longo dos anos.


Devemos esperar mudanças significativas para o próximo ano? Para ser sincero, não sou a pessoa mais adequada para transmitir esperança e, portanto, eu jogo no time do "não". É certo dizer que nada mudará significativamente de um ano para o outro, de 23:59 para 00:00, a não ser a nossa percepção sobre todas essas coisas.


Hoje, provavelmente numa comunhão, se fosse-nos facultada a possibilidade de pedir algum desejo, pediríamos o fim desta pandemia. E, ainda assim, é irônico pensar que a única forma de fazer com que isso se torne realidade seja, de fato, "o esforço de todos" a vontade de respeitar o espaço do outro, de preservar a vida do outro, mas é utopia pensar todos estão prontos para agir desta maneira.


Entre desejos e utopias caminharemos, novamente, para a trilha da contradição entre virtudes e vícios, entre direitos e deveres, entre o bem e o mal, entre todas as dicotomias que fazem do ser humano esta espécie louvável e desprezível: nosso profundo estado de indiferença, nossa natureza, nós...


Espero encontrar você, querido leitor, no próximo ano. Desejo-lhe boas festas, mesmo diante de todas essas implicações, e que possamos desfrutar do presente como se fosse o nosso último dia, pois não há nada mais destrutivo do que desprezar a vida que bate em nosso arfante peito. Por Renan Jorge


11 visualizações0 comentário

Receba Nossos Artigos:

Os Conservadores © 2020