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O Pessimismo do Conservador


Faz parte da atitude conservadora assumir e abraçar o pessimismo, você está preparado(a)?


O título deste ensaio é uma provocação e um alerta às mentes despreparadas. Não que eu encontre qualquer qualidade ou privilégio intelectual para assumir algum preparo, mas penso, depois de muito tempo debruçado sobre ensaios conservadores, que nem todos são capazes de aceitar o pessimismo como uma parte basilar de suas atitudes, nem tampouco enxergar, com mais prudência e ceticismo, o otimismo que, em alguns espíritos, manifesta-se perigosamente. E como eu acredito que nós somos naturalmente imperfeitos, reconheço que o conservadorismo pode ser letal àqueles que encontram-se governados pela utopia do paraíso terreno.


O meu alerta para esses indivíduos é: se tu acredita que pode mudar o mundo, se acredita que existirá, por meios ideológicos e autoritários, qualquer mudança repentina que seja eficiente, benéfica e útil, devo-lhe dizer: o conservadorismo não é para você. Talvez este autor possa ter parecido um tanto presunçoso, mas estou a afirmar tal coisa baseado na própria história da humanidade. A esperança desvinculada do contexto histórico e da fé, como bem pontuou o próprio Scruton no ensaio as vantagens do pessimismo, "foi um ativo perigoso, que ameaçou não só aqueles que a abraçaram, mas todos aqueles que estavam ao alcance de suas ilusões". Não estou a dizer que o bem nunca é possível, que toda mudança é essencialmente maléfica e desastrosa, mas estou a dizer que existem casos em que alguns indivíduos, movidos por aspirações singulares e inexistentes, tentam mudar o mundo de acordo com suas paixões, incorporando, ou um sistema que não existe, ou um sistema que não sobreviveu aos testes do tempo. Todos os regimes desastrosos e impiedosos, todos os líderes ruidosos e intemperantes, tentaram mudar o mundo pelo excesso de otimismo. Tornaram-se vassalos de suas utopias, escravos de seus vícios, mas são, em alguns casos, os nomes e exemplos de emancipadores do homem. Então, quando eu vejo um indivíduo que está a tentar mudar o mundo, e, para alcançar esse objetivo, tenta adquirir poder a qualquer custo, tenta justificar seus delírios em nome de um sonho, eu fico temeroso, eu tenho aquele "pé atrás". O pessimismo, portanto, faz-me olhar com certo cuidado para o mundo; em minha visão, o único modo de cuidar do mundo é não tentar mudá-lo: apenas tente não destruí-lo mais do que já está. Estou convencido de que nossas fracassadas tentativas de perfeição nos levaram até este estágio. Há uma espécie de modelagem para atacar todos os pessimistas, normalmente chamam-nos de "pessoas negativas, pessoas tóxicas". Nenhum pessimista fez qualquer coisa para mudar o mundo, sobretudo porque ele não acredita nisso, foram os otimistas extremistas que, num esforço utópico e vazio, sacrificaram sua história, presente e futuro para brincar de herói, para brincar de Deus.



O fim do otimismo?


Não quero, porém, o fim do otimismo, ou nem mesmo estaria a escrever este artigo. O caso é que, em política, ambos são necessários: precisamos de pessoas otimistas e pessimistas. Um precisa conter o outro, um precisa do outro. Não estou a dizer que precisamos de utópicos extremistas, mas de um otimismo moderado, de uma atitude de mudança desejável e possível, paulatina e benéfica, que não pretenda destruir tudo em seu caminho. Alguns precisam sonhar por outros, enquanto outros precisam ser pessimistas por aqueles que não conseguem, e assim estamos a viver e tolerar uns aos outros. Evidentemente, alguns conflitos serão gerados nesse processo, mas uma sociedade só de utópicos, só de pessimistas, só de liberais, só de socialistas, por fim, formada apenas por meu ideário político, não resistirá aos testes do tempo, será destruída e sua ruína será o único legado à posteridade.


A grande ironia


No fim, a observação conservadora mostra-se um tanto irônica. Primeiro porque, se estamos constantemente a tentar destruir uns aos outros, tudo para favorecer uma ideologia em detrimento da outra, nada poderia fazer-me acreditar que qualquer um de nós possa estar certo. O próprio mundo, a própria bolha, cada um poderia muito bem tentar viver sua ideologia individualmente, mas é preciso imputá-la ao mundo. A imputação da ideologia para outros é, no fundo, uma insatisfação pela solidão, pela singularidade, por não aceitar que talvez você esteja errado, o que incomoda as pessoas é lidar com o fato de que, para alguns, nós somos insignificantes. A segunda ironia reside na própria dependência dos opostos: nada mais irônico do que depender de seu oposto para existir, nada mais irônico à esquerda do que depender da direita, assim como o oposto sucede. A nossa existência, portanto, é marcada pelo oposto, pela necessidade de conviver com isso, pela permanente busca do equilíbrio entre pólos opostos. O pessimismo é a presunção para enxergar o presente, o otimismo é a presunção para enxergar o futuro, mas só o tempo pode desvendar os mistérios da verdade.


Por Renan Jorge


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