• @UsConservadores

O Povo Elegeu Bolsonaro?



Depois de levantar a hashtag “o povo elegeu Bolsonaro”, sem nenhum motivo específico, se assim posso dizer, os Bolsonaristas ressuscitaram uma discussão: democracia. Por que é errôneo dizer que o povo elegeu Bolsonaro?


Em primeiro lugar, cumpre ressaltar a diferença — no termo em questão — entre um conservador e um liberal, ou mesmo um libertário: o conservador não está a olhar o “indivíduo”, ele está a olhar o que Burke chamou de “homem social”, ou seja, o homem atuando em um tecido coletivo: comunidade, família, religião, entre outros exemplos. A ideia de povo, contudo, é extremamente abstrata, pois o povo não pode ser entendido como uma massa de “aspiração única”. No entanto, ainda assim, o povo não será entendido como apenas “um conjunto de indivíduos”, mas como uma massa heterogênea, com interesses distintos e nem sempre bem definidos.


Um líder, portanto, não é aquele que governa para o seu eleitorado, o líder representa essa massa distinta, muitas vezes emaranhada e dissonante. Não é tarefa fácil — quem pensa assim é provavelmente um tolo. É impossível atender ao que chamamos de “interesses do povo” — são poucos os interesses universais, talvez a noção de direitos, ainda assim, fruto de grandes discussões. O líder deve governar para todos, mas isso nem sempre significa ser condescendente com todos os conjuntos e segmentos da sociedade.

A ideia de “escolher o seu representante” é, por esse motivo e outros mais, uma discussão interminável. Deveríamos voltar às origens de uma monarquia, deveríamos permanecer com a República, deveríamos adotar algo como o parlamentarismo? Infinitos conflitos que eu, um mero escritor e pensador, não sou capaz de resolver — talvez ninguém seja.


Há um conforto por parte dos Brasileiros: podemos escolher nossos governantes, somos livres. Entretanto, a democracia permite escolher apenas os mesmos velhos espíritos, que sempre estão a falar a mesma coisa, ano após ano, num interminável ciclo. Noutras palavras, há uma restrição dentro da permissão — por isso não somos completamente “livres” para escolher, apenas apertamos o botão limitado à urna. Contudo, meu objetivo não é discorrer sobre esse assunto, pois, além de não ser o objetivo deste ensaio, eu poderia listar diversos itens com pontos positivos e negativos de cada regime — o que resultaria num livro.


Voltando ao meu ponto, por que é incorreto dizer que o “povo elegeu Bolsonaro”, a resposta parece óbvia depois destas reflexões: porque, para dizer que o povo o elegeu, ele precisaria do voto de “todos” — o que é impossível. O correto seria dizer que ele foi “democraticamente eleito”, “que obteve a maioria dos votos válidos” — nisso não há dúvida. Não podemos ser desonestos e cuspir no prato que comemos — para usar uma expressão popular. Agora, não há como sustentar o argumento de que esse senhor está sendo um bom líder, que cumpriu suas promessas e que vem fazendo um bom trabalho: isso é desonestidade intelectual — sendo bem cuidadoso com o termo. Bolsonaro foi um verdadeiro “pai da mentira”, ou, para provocar o seu eleitor mais assíduo e fanático, “o Deus da mentira”. Infelizmente, ainda há uma recusa muito grande por parte de alguns senhores em aceitar essa terrível verdade — mas eles são livres para pensar como o espírito conduzir.


O maior escape desses senhores, sempre que situações comprometedoras estão a bater à porta do governo, é dizer que o presidente foi, novamente, democraticamente eleito, eleito pelo povo, entre outros termos. Ora, no primeiro caso, isso é uma obviedade desnecessária: não é preciso grandes reflexões para chegar à conclusão tão óbvia. O segundo elemento que problematiza esse argumento é o salvo-conduto que o termo oferece em si mesmo, colocando-se além do bem e do mal, como se algo fosse realmente benéfico apenas por ser democrático, como o escritor José Saramago observou:


“O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”.


Dizer que o presidente foi eleito pelo povo, democraticamente, não significa nada em termos de hábito. Virtude é prática, insiste Aristóteles. A natureza do sistema democrático não pode ser entendida como sublime, perfeita e canônica. Como disse, todos os sistemas têm seus erros, suas imperfeições, suas qualidades e pecados. É claro que os apaixonados por um regime ou outro não farão esse exame.


O povo elegeu Bolsonaro, portanto, é um argumento errôneo e completamente impreciso, utilizado para justificar todo e qualquer ato obscuro do presidente da República. Massas apaixonadas não estão dispostas a fazer este exame, por isso agarram-se à única coisa que lhes resta: sua abstrata e fantasiosa concepção sobre política.


O povo elegeu Bolsonaro... Que povo?


Renan Jorge

44 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Receba Nossos Artigos:

Os Conservadores © 2020