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O que Russell Kirk Diria sobre o Bolsonarismo?

Atualizado: 24 de Ago de 2020



Uma das vozes mais contundentes da tradição conservadora, Russell Kirk legou-nos uma ferramenta poderosa em aversão à utopia: a política da prudência.


Quando um governo assume-se conservador, ele deve compreender que ele não está a proclamar algo de seu imaginário, mas sim, uma tradição que existe antes mesmo de seu nascimento. Portanto, não há como fugir dos olhares e das vozes de autores como Russell Kirk, que foi, a meu ver, o único escritor que mergulhou profundamente na alma de Edmund Burke. Outra admiração pessoal em relação a Kirk, beira o fato deste referido autor reconhecer que o conservadorismo não é uma ideologia — no sentido mais prosaico da palavra , mas sua verdadeira oposição, seu verdadeiro limitador. E, aproveitando o ensejo destas breves considerações iniciais, especialmente a segunda, pois trata da ideologia, chamo você, querido leitor(a), para o tema deste artigo: O que Kirk diria sobre o Bolsonarismo?


Um grupo movido pela ideologia, essa seria a resposta de Kirk. Que este escritor não tenha lhe impedido de ler o restante do artigo, pois estou prestes a justificar minha afirmação.


"A política é a arte do possível, diz o conservador: ele pensa nas políticas de Estado como as que intentam preservar a ordem, a justiça e a liberdade. O ideólogo, ao contrário, pensa na política como um instrumento revolucionário para transformar a sociedade e até mesmo a natureza humana. Em sua marcha para utopia, o ideólogo é impiedoso".


Quando começou a discursar às multidões, Bolsonaro prometeu "mudar" radicalmente a política e o Brasil. Ao se denominar "conservador", este senhor não apenas manchou o conservadorismo, mas deturpou suas ramificações históricas, levando os Brasileiros a pensar que o conservadorismo é, no fim, só mais uma ideologia. Bolsonaro não é o exemplo de um espírito moderado, e quase sempre demonstrou-se um indivíduo perigoso e rebelde, por fim, um verdadeiro ideólogo. Continuando, Kirk faz observações no que refere-se ao nascimento do termo ideologia, em período contemporâneo de Napoleão Bonaparte, e todas as modificações sofridas ao longo do tempo, chegando a Marx, Engels e outros autores. O que Kirk chamou de ideologia, Oakeshott chamou de política da fé; e Kirk chegou à conclusão semelhante a de Oakeshott:


"A ideologia é uma religião invertida, negando a doutrina cristã de salvação pela graça, após a morte, e pondo em seu lugar a salvação coletiva, aqui na terra, por meio da revolução e da violência. A ideologia herda o fanatismo que, algumas vezes, afetou a fé religiosa e aplica essa crença intolerante a preocupações seculares".


Essa definição é uma verdadeira leitura do Bolsonarismo. Um tipo de movimento político, que largando o ideal religioso de salvação, está a prometer melhorias infindáveis no país, uma emancipação do que seria um período de trevas; mas que, para alcançar seus objetivos, tomam opositores como inimigos, adversários como criminosos; um verdadeiro núcleo extremista e perigoso, que apoiado na ideia da política da fé, pensa alcançar uma modelagem no seio social.


E engana-se quem pensa que a ideologia reside apenas na esquerda; o próprio Bolsonarismo jurou combater uma ameaça imaginária: "o comunismo". Mas, como nos lembra Oakeshott, apenas a aversão à política da fé não caracteriza, necessariamente, uma política cética, ou para usar Kirk, uma política prudente. Continua Kirk:


"O ideólogo não aceitará nenhum desvio da verdade absoluta de sua revelação secular. Essa visão limitada ocasiona guerras civis, a extirpação dos reacionários, e a destruição de instituições sociais benéficas e em funcionamento".


Os Bolsonaristas não só acreditam numa verdade absoluta, eles moldam a verdade para favorecer seus interesses, relativizam, inclusive, os valores e tradições que juraram proteger, e foi exatamente isso que Kirk observou numa ideologia: a sua engrenagem fanática. Não estamos a vivenciar, fisicamente, guerras civis, mas o cenário bélico ocorre nas redes sociais, onde as vozes dissonantes às ideias do governo são execradas pela fé Bolsonarista.


"Ideólogos competem entre si, em uma imaginada fidelidade à sua verdade absoluta; e são rápidos em denunciar os desviantes ou traidores de sua ortodoxia partidária. Dessa forma, facções pronunciadas se criam entre os próprios ideólogos, e fazem guerra sem piedade e sem fim, uns contra os outros, como fizeram trotskistas e stalinistas".


O Bolsonarismo chamou todos os seus desertores de "traidores da pátria", como se tivessem tomado para si a nação, como se fossem verdadeiros proprietários da verdade absoluta. Além disso, não é raro vislumbrar brigas entre eles mesmos, para citar o caso mais recente envolvendo Bia Kicis. Noutras palavras, eles praticam, quando são alertados e criticados, um verdadeiro assassinato de reputação.


Contudo, o que torna um governo dessa magnitude atraente? Por que, mesmo depois de identificar uma política tão emaranhada e inglória, as pessoas estão a buscá-la. Foi o que intrigou Kirk e que, como ele mesmo disse, foi respondido por Raymond Aron:


"Quando o intelectual não se sente mais ligado nem à comunidade nem à religião de seus antepassados, pede às ideologias progressivas tomarem conta da alma inteira".


Além dessa brilhante observação, o próprio Kirk não furtou-se à definição e observação própria:


"A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta, confortando, dessa forma, aqueles que perderam, ou nunca tiveram, uma fé religiosa genuína e aqueles que não possuem inteligência suficiente para aprender filosofia de verdade".


O que Kirk está a dizer é que, no fim, um indivíduo que está a fugir da religião, mas que abraça um sistema político para encontrar nele um sentido, não está a fugir do mesmo objetivo, está apenas a tomar uma direção diferente. No fim, o Bolsonarismo tratou de ocultar essa imagem chamando-se religioso. Não cabe a mim dizer que ele não é, não falo por ele. Contudo, suspeito que um cristão arriscaria-se a cometer e negligenciar uma nação como esse senhor vem fazendo. No fim, é provável que boa parte do Bolsonarismo já não se importe mais com o juízo moral, com a opinião distinta da sua, com os atos do presidente — arrisco-me a dizer que nem mesmo com a fé que eles dizem seguir —; só o que importa, de fato, é a sua ideologia. Não são senhores de seus desejos, mas escravos de seus próprios vícios, espíritos que apaixonaram-se pela sombra, mas que usam a luz apenas para reafirmar distinção. Kirk, como provavelmente mostrei neste artigo, chegaria à conclusão semelhante, e é assustador como um indivíduo tenha feito uma pesquisa tão precisa e verdadeiramente atemporal. O Bolsonarismo é apenas mais uma ideologia, que como todo sistema vinculado à mentira e à ganância, logo afundará no pesadelo de sua ilusão. Por Renan Jorge

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