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O Religioso Socialismo

Atualizado: Mar 10


O título pode soar paradoxal — não sou capaz de fugir desta crítica — mas, no decorrer deste ensaio, creio elucidar melhor esta questão a você, querido leitor. Aos que pouco sabem sobre o socialismo, uma das afirmações mais seguras sobre este posicionamento político é a de que a religião não lhe cai bem aos olhos. Alguns adeptos da teoria, por exemplo, afirmam que um dos maiores males da humanidade foi o comportamento religioso, que seria, portanto, vinculado à burguesia opressora e controladora dos meios de produção. O argumento, no entanto, não limita-se ao campo econômico, navegando pelas tão perigosas águas de nossa natureza humana.


Contudo, como bem observou Freud, é preciso levar em consideração a "religiosidade" e, nesse sentido, o conceito não deixa escapar nenhuma ideologia política. Estou a dizer, portanto, que o socialismo possuí adeptos tão religiosos como qualquer outra esfera da fé — arrisco-me a dizer, também, que é mais ousado do que muitas doutrinas religiosas.


Alguém poderia dizer: como é possível extrair essa posição? Utilizando o ensaio do Sr. Freud " o mal-estar na civilização, perceberemos que há a ideia de pensamento oceânico, donde podemos classificar o que se está a chamar de "religiosidade". Portanto, seguidores fanáticos não são a única semelhança entre socialistas e espíritos religiosos — seria redundante afirmar isso, levando em consideração que o fanatismo está presente na manifestação humana. O que tornaria o socialismo "religioso" seria o então "pensamento oceânico".


Tomemos como exemplo a crítica de Freud sobre a ideia de "homem naturalmente bom". A civilidade, para o autor, não representava a raiz de todos os males do homem, no sentido de que seríamos mais felizes se nos entregássemos ao "eu primitivo" de Rousseau. Para o autor, ocorre o exato oposto: a civilidade impede os nossos impulsos primitivos? Sim, mas isso não significa que ela é a causa de todos os problemas, nem tampouco que essa "repressão" não é necessária. Ora, um individuo que guia-se apenas por seus impulsos primitivos não passa de um animal irracional, sendo patológico e potencialmente perigoso ao convívio em sociedade. Além disso, graças à civilidade, juntos, chegamos à variadas conquistas: dominamos parte dos elementos que nossos ancestrais veneravam, livramos nossa posteridade de doenças que teriam potencial para dizimar nossa espécie, entre outros exemplos.


Poder-se-ia dizer: isso não explica, ainda, a relação entre o pensamento oceânico que abarca o socialismo e a religião. É verdade, ainda não explica, mas demonstra a essência da objeção do socialismo às crenças religiosas: no fim, a religião também é uma conquista da civilização, como o próprio Freud reconheceu, e, se a sociedade é a principal responsável pela má conduta do eu primitivo, a religião teria o seu papel nessa "repressão".


O discurso seria validado se não houvesse maior semelhança em sua raiz do que diferenças em suas folhas. Qual é a semelhanças filosófica entre o socialismo e o pensamento religioso? a ideia de redenção, de manutenção, de aperfeiçoamento. A religião deseja moldar os homens para abraçar recompensas futuras e distantes — pós-morte —; o socialismo pretende fazer o mesmo, e aqui. Ou seja, enquanto a religião reconhece a natureza imperfeita do homem, sendo, portanto, impossível alcançar a verdadeira felicidade neste mundo, o socialismo deseja aperfeiçoar o homem neste mesmo espaço, depositando seu pensamento oceânico sobre os espíritos de seus adeptos.


Thomas Sowell chamou esse posicionamento de visão irrestrita, ou seja, a ideia de que temos possibilidades ilimitadas para promover variadas mudanças. A característica da "direita", porém, está ligada à visão restrita, que reconhece, no campo das modificações, um limite baseado na natureza humana — imperfeita.


Conceitos como o politicamente correto, a ideia de "cancelamento", dívida história presentes no "socialismo moderno", nada mais são do que tentativas de aperfeiçoar o homem, que baseiam-se num idealismo utópico: a ideia de que podemos controlar o que as pessoas pensam, fazem e o que sentem. Ora, a religião faz o mesmo: procura incorporar aos seus seguidores ideias de aperfeiçoamento, de repressão, de ajustamento. Aqueles que não praticam vão ao inferno, aqueles que não praticam serão "cancelados". A própria concepção de inferno nada mais é do que um modo de punir os desertores de uma doutrina, assim como o socialismo pretende punir com o "cancelamento" àqueles que não seguiram o seu evangelho.


“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”.

A frase de Carl Sagan, diferente da interpretação de alguns, não limita-se ao campo religioso, mas firma-se na natureza da crença: a proposta de abraçar uma verdade incondicional, mesmo sem exame.


Analisar o mundo através das diferentes "classes", favorecendo o que chamamos de oprimidos, punindo os que não coadunam com nosso evangelho, tudo isso não pode levar ao aperfeiçoamento, à paz, à glória, nem à virtude; isso apenas perpetua a ideia de superioridade diante de outros indivíduos, o que levará, inalteravelmente, ao lugar do algoz.


Como relatei que o socialismo é ainda mais ousado do que o pensamento religioso, por firmar suas utopias, quando ignora nossa desmembrável imperfeição, também há um detalhe que torna os "justiceiros sociais" ainda mais abomináveis: a religião ainda destaca-se como um movimento voluntário, ou seja, as pessoas escolhem acreditar, decidem seguir; o socialismo pretende forçar as pessoas a agirem, em sua visão, do modo ideal, do jeito "certo".


O religioso socialismo luta contra a própria imagem, luta contra os próprios pecados, amaldiçoa os próprios delírios, diz combater aquilo que pratica desesperadamente. Se afirmações como a de que a humanidade seria melhor sem a religião são um dos principais rudimentos dessa doutrina, estão colocando a cabeça na guilhotina.


Por Renan Jorge

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