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Pandemia, João Doria, Bolsonaro e o Brasileiro: Quando a Política Recebe o Título de Ignorância

Atualizado: Abr 6



Passado um ano de pandemia, é seguro dizer que a covid-19 não foi o único nome a crescer exponencialmente. No cenário político, embarcando numa disputa por protagonismo, dois nomes foram os mais citados nessa crise sanitária: João Doria e Jair Bolsonaro — este, com razão, num saldo negativo.

Doria foi — ou melhor, ainda é — o principal opositor político de Jair Bolsonaro, e isso pôde ser observado nos diversos desentendimentos e provocações entre eles. Entretanto, o discurso não é a única vertente que separa esses polos opostos, mas o modo de governar em si.

Como Tudo Começou

Uma coisa ficou clara: Doria e Bolsonaro escolheram caminhos diferentes nessa pandemia. Bolsonaro mostrou-se preocupado com a economia, embora insista dizer, nos seus variados discursos, que sempre deixou clara sua preocupação com ambos (saúde e economia); porém, como observado várias vezes, o presidente é especialista em dizer uma coisa, mas fazer outra, e com isso estou a dizer que todas as suas atitudes estão bem longe de representarem uma preocupação com a "saúde" — aliás, mesmo essa preocupação com a economia não se sustenta objetivamente — quantas reformas o governo comprometeu-se a fazer, e quantas foram aprovadas?


Doria, por outro lado, colocou-se à frente no combate à pandemia, tomando como ponto de partida sua preocupação com a saúde e sua reverência à ciência. Tão logo o governo, percebendo que a pandemia chegara com tanta intensidade ao Brasil como fora na Europa, adotou o "isolamento social", baseado nos princípios já citados nesse artigo — movimento que foi rebatido com eventos de aglomeração que não foram barrados pelo governador, como o próprio Carnaval.


A partir dai, deixando claro que suas visões diante da pandemia eram distintas, os representantes do executivo decidiram abraçar seus compromissos e preocupações ao mesmo tempo em que acusavam-se. O presidente culpou os governadores — Doria principalmente — pelo percentual crescente de desemprego, enquanto Doria e os demais governadores acusavam Bolsonaro de genocídio por sua postura diante da crise, refletida no número de mortos.


Essas duas leituras do cenário dominaram o país e dividiram a população em dois posicionamentos:

Ou você é a favor da vida ou a favor da economia, as duas, não dá.


Bolsonaro: o Negacionista


É impossível compreender os movimentos de Doria sem olhar para o presidente. Doria ganhou papel de destaque nessa pandemia porque desde o começo ele deixou claro que não andaria de mãos dadas com o presidente Bolsonaro, e isso levou a multidão à loucura. Com tantos exemplos de pura tolice e idolatria ao presidente, com rendimentos e acordos com o centrão e outras figuras políticas, os nomes antagônicos ao Bolsonaro foram sumindo pouco a pouco, o que explica o alento em saber que não teríamos apenas o PT como forte concorrente. O fato é que o presidente adotou uma postura tão estúpida diante da covid-19, que as pessoas passaram a se desesperar para tirá-lo do poder — coisa que ainda não acontece somente pela postura covarde de nosso congresso, que prefere investir em notas de repúdio. As pessoas estavam a buscar algo diferente, uma postura mais agressiva diante da pandemia, não no sentido de negá-la, mas combatê-la. O presidente transforma-se em símbolo de ódio — e não há como negar que ele esteve a buscá-lo —, sendo considerado uma ameaça e um verdadeiro exemplo de "como não governar". A crítica, no entanto, não fica apenas em solo nacional, outras lideranças rebateram, de forma contundente, a postura de Bolsonaro. Por algum motivo do qual só nos resta inferir, somente os nossos políticos entenderam que ele é só mais um político ruim, cuja saída deve ocorrer por meio das urnas.


Vacina vs Cloroquina


Ninguém duvida que o maior feito de Doria na pandemia foi o acordo para produção da vacina contra a covid-19 (coronavac). Com o número de mortos aumentando incontrolavelmente, a maioria dos países passou a buscar e a investir numa solução mais preventiva do que remediadora. Enquanto Doria anunciava a aliança entre a China e o instituto Butantan, o presidente Bolsonaro continuava com o seu culto à cloroquina — medicamento considerado inútil para o tratamento da covid-19 pelos mais variados pesquisadores. Sendo assim, levando em consideração que não existia nenhum medicamento específico para covid-19, a maioria esteve a apoiar as medidas e investimentos em relação à produção da vacina — este é só mais um ponto que conferiu destaque ao governador. Em contra partida, Bolsonaro deixou bem claro aos seus seguidores que não compraria nenhuma vacina da China, por pura questão ideológica, disfarçada de "falta de aprovação científica". Ora, se essa disposição estivesse realmente em seu espírito, ele jamais teria feito propaganda para um medicamento que, pela mesma ciência que diz defender, esteve a recusá-lo. Mas esse não foi o único pretexto passível de crítica; o presidente havia dito que o dinheiro era do "povo" e, portanto, não faria a compra da vacina. Para tal declaração, a opinião popular foi realmente consultada? Não.


João Doria: um Herói?


Após a aprovação da vacina pela anvisa e das primeiras aplicações da dose, diversas pessoas passaram a considerar o governador de São Paulo um verdadeiro herói — algumas em tom de pura ironia, sem qualquer consideração verdadeira, apenas para provocar os bolsonaristas, já outros em tom de genuína gratidão. Não poderia negar, nessas circunstâncias, ou seja, quando se está governado por um louco, que qualquer gesto para fugir da loucura é digno de alguma gratidão. Entretanto, na tentativa de deslocar todo o ódio, a revolta, a perda, o luto, em direção ao presidente, a maior preocupação das pessoas na pandemia, assim como outras figuras públicas, não foi combater o vírus de fato, mas travar uma guerra ideológica contra o bolsonarismo e tudo que ele representa. De novo, não é como se eles não estivessem realmente a buscar coisa tal, mas é correto dizer que a maioria já "mordeu a isca". Tomemos como exemplo a oposição. Na tentativa de criar um adversário político para o presidente, qualquer gesto, atitude ou manifestação dele, acaba transformando-se num ato nazista ou fascista. Não é como se não existissem episódios bizarros, como no caso do secretário da cultura (discurso semelhante ao nazismo), mas é que algumas mentes estão a reproduzir, em seu imaginário, a ressurreição de Hitler — e isso é, no mínimo, exagerado. Até a celebração pela suspeição de Moro e a anulação da sentença de Lula, notável corrupto, foram dignos de comemoração, apenas pelo peso político do nome.


A condecoração de herói conferida ao Doria tem mais relação com o ódio ao Bolsonaro do que com suas atitudes em si. A vacina não é uma permissão política, é um meio para preservar um dos mais sagrados dispositivos de nossa constituição: o direito à vida. Portanto, não foi por nenhum capricho político que ela esteve disponível ao público, mas por sucessivas manifestações populares, por iniciativa de diversos pesquisadores e cientistas, que estiveram a trabalhar incessantemente para amenizar os terríveis efeitos do vírus. Essa também não é uma crítica abstrata ao governador de São Paulo, mas à apropriação política da vacinação. Todo o crédito foi concedido aos políticos, quando apenas a minoria foi capaz de abdicar de seus salários e regalias — Covas, aliado de Doria, ainda foi capaz de sancionar o aumento do próprio salário. A população, no entanto, esteve a vivenciar o dia sem saber se comeria à noite. O leitor poderia pensar que estou a exagerar e deveria observar mais o que foi feito e o que ganhamos com isso, além de pontuar o fato de que é melhor fazer algo, ainda que repleto de vaidade, do que não fazê-lo. São realmente boas propostas, e seriam ainda melhores se a minha crítica fosse direcionada apenas à vaidade. O leitor perdoe-me por esse tom mais assíduo e pessimista, mas isso é resultado de minha disposição conservadora. Heróis nunca devem ser objeto da política. Talvez porque seriam apenas transmissões arquetípicas, que foram legadas de geração em geração, apenas para preservação de algumas normas morais, talvez porque, como todo idealismo, está ausente da verdade aparente, talvez porque os heróis sejam puramente humanos e, como anunciado pelo ditado popular, sejam só "gente como a gente".



O Brasil Perdeu-se


O Brasil perdeu-se no meio desta crise pandêmica. Estamos a deslocar o foco para o âmbito político, de maneira que a própria pandemia tem sido retirada da agenda de nossas preocupações. Quem vai às praias durante o lockdown, quem recusa-se a usar máscaras, está a fazer em nome de seu direito à "liberdade", mas isso é apenas um disfarce para dizer que o faz em nome do "presidente", "da vaidade", e até dominado por uma disposição destrutiva (thanatos de Freud); nem todos os que estão a usar máscara fazem por genuína preocupação, alguns apenas por puro mimetismo, por coerção ou apenas para sentirem-se melhores do que os que não usam. Ora, o espírito do cavalheirismo, a compaixão, o amor, a entrega, a gentileza, que deveriam guiar nossa nação para sair desta crise o quanto antes, foram perdidos, deixados de lado. As pessoas estão mais dispostas a agir em nome do ódio, da idolatria, do desprezo, do nojo, de qualquer outra coisa que represente uma aversão ao inimigo do que o amor ao próximo. Não temos a mínima chance de juntos vencermos essa pandemia, porque estivemos separados desde o inicio. Adeptos da vida, adeptos da economia, adeptos de qualquer outra coisa, mas não estivemos dispostos, em nenhum momento, a largar as diferenças de lado e a enfrentar os desafios desse combate. Todos correram ao supermercado para comprar mais do que cabiam em seus bolsos, conscientes de que se alguém está a comprar demais, outros comprariam de menos, expulsamos profissionais da saúde do transporta público, porque temíamos o contágio, mas não pensamos duas vezes em comer um churrasco, promovendo aglomeração,em fazer uma festa clandestina, entre outras coisas. Não estamos apenas em estado de negação em relação à pandemia, no sentido de que ela existe, estamos em estado de negação em relação à capacidade que temos de sair dela. Superestimamos nossa vontade reprimida de fazer o mal, nossa satisfação por fazê-lo, nosso egoísmo, nossa imaturidade, nossa superioridade. O brasileiro casou-se com o orgulho, deitou-se com a soberba, gerou o desprezo e a ignorância, dispersando-os sobre o país. Não há herói capaz de nos tirar dessa crise, nem presidente, governador, e, para não ser injusto, estes também não são os únicos responsáveis: o fato de que o carnaval não foi cancelado ano passado não implicou, necessariamente, na presença obrigatória; não é porque o presidente negou-se usar máscaras, que tínhamos que replicar; não é porque o presidente é um inepto, que deveríamos agir como ele; não porque a manifestação é de "esquerda", que seria imune ao vírus. Junto à Covid, a tolice foi a única a ser coroada nesta pandemia, recebendo o título por vencer os brasileiros, não os que partiram e deram seu último suspiro, mas os que recusaram-se a lutar por eles.


Por Renan Jorge

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