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Pondé: o Traidor?

Atualizado: Abr 6



Bolsonaro ao Lula, alegando que o petista seria preferível a Bolsonaro numa disputa eleitoral em 2022. Se "provocar" foi a intenção de Pondé ao escrever o artigo (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2021/04/entre-bolsonaro-e-lula-na-disputa-eleitoral-de-2022-petista-e-o-menos-ruim.shtml), ele se saiu muito bem. Em especial, todos os bolsonaristas rugiram como feras para o filósofo, mas continuam a miar como gatos para o centrão, ala de sensibilidade do bolsonarismo. Mas esta é uma história já conhecida em nosso meio, portanto, devo ater-me apenas ao tema deste ensaio. Vejamos, o que dizer? Pondé pode ser considerado um traidor do liberalismo e do conservadorismo, como estão a colocar?


O primeiro erro dos que estão a opinar sobre o caso? A maioria sequer leu artigo. Do modo como se está a espalhar a notícia, temos a impressão de que o filósofo escreveu uma verdadeira declaração de amor ao petista, como se o único objetivo do autor fosse apresentá-lo como o novo salvador da pátria. A maioria dos posicionamentos que observei a respeito fazem alusão a este exemplo, mas, seguramente, não foi o que Pondé escreveu.


O segundo elemento a ser pontuado? A contingência, ou seja, um cenário caótico e catastrófico, em que todas as opções se esgotaram, de modo a restarem apenas os nomes de Bolsonaro e Lula como candidatos. Esse, a meu ver, é o elemento mais importante do artigo: o seu contexto. Para ajudar o leitor a compreender melhor, Pondé escolheu o filme "Aliens vs predador" para apresentá-los claramente como "vilões", ou seja, numa condição em que se faz necessário escolher entre um e outro, exaltando o peso negativo da escolha.


Agora, analisando o que supostamente foi o grande crime de Pondé, segundo a narrativa bolsonarista, Lula foi realmente apresentado como o grande "candidato conservador"?

Precisamente, no artigo de Pondé, ele não está a analisar Lula enquanto representante da tradição conservadora, ou seja, como um herdeiro direto de Burke, Oakeshott, Kirk — ninguém cometeria tal absurdo — ;Pondé apela à "disposição" ou "atitude" conservadora, que levará em consideração a contingência, não o agente político. O conservador atuará de acordo com essa disposição, promovendo mudanças paulatinas e graduais, sem nenhum tipo de interrupção abrupta, procurando minimizar os dados à sua realidade e ao seu presente. A ideia é preservar as instituições, as tradições, valores e costumes que sobreviveram aos testes do tempo. Analisar apenas o agente político levaria-nos, objetivamente, ao voto em branco ou nulo, uma vez que não temos nenhum candidato próximo ao modelo "liberal-conservative". Do mesmo modo, ele também não procura limitar o debate apenas entre direita e esquerda, pois o considera pobre. Seria como se um conservador jamais pudesse escolher entre dois candidatos de esquerda...


O que o autor propõe, portanto, é que a escolha conservadora visará, nesse cenário caótico, ainda assim, a opção que lhe promova menos dor, menos sofrimento, menos sacrifício, que preserve um pouco mais; em suma, que não culmine em nossa destruição. O que ele está a analisar é a capacidade política de cada um. Para ele, Lula é mais inteligente que Bolsonaro — o que, convenhamos, não é grande coisa e, mais ainda, o próprio Pondé sabe disso. Existe algo além disso? Não.


O verdadeiro descontentamento dos bolsonaristas não tem nenhuma relação com o modo como o Conservadorismo foi abordado no artigo, nem tampouco com a comparação com Lula, tal atitude ocorre por puro rancor. Puro rancor porque essas pessoas projetaram em Pondé algo semelhante ao que ocorreu com Olavo de Carvalho: eles acreditavam que ele seria o guru defensor do presidente, que usaria seus livros e artigos para isso, mas se decepcionaram com o resultado. Na realidade, se esses espíritos estivessem realmente preocupados com o peso histórico da palavra conservadorismo, sequer ousariam usá-la numa mesma oração que contenha o nome "Bolsonaro". O fato do Pondé se posicionar contra Bolsonaro não deveria ser surpresa, já que ele mesmo deixou claro que jamais apoiou o presidente . O problema é que hoje, no Brasil, é quase impossível posicionar-se em relação a algum político sem parecer amá-lo ou odiá-lo.


Também não me surpreenderia com o apoio repentino dos petistas em relação ao Pondé, apenas por separar o sujo do mal lavado. É um erro tremendo acreditar que o Pondé agora é "Lula 2022" por dizer que ele seria uma opção mais adequada do que Bolsonaro. Na verdade, ou as massas sabem disso, mas não se importam, ou elas realmente são tolas — efeito que não implica em nenhuma diferença para o caso.


Conclusão


Compreendo exatamente o objetivo de Pondé com sua coluna e, discordando democraticamente, penso que a escolha mais conservadora seria, de fato, não se dar ao trabalho de sair de casa na eleição de 2022, caso apenas os citados candidatos apareçam num segundo turno. Se a Política, para um conservador, é a arte do possível, que possamos esgotar todas as nossas possibilidades ao anularmos nossos votos. Se realmente pretendemos legar uma realidade melhor ao cenário brasileiro, os nomes de Lula e Bolsonaro precisam fugir de nosso vocabulário, não por vingança ou rancor, mas para não nos prendermos ao "suposto passado de glória", pensar no presente e construir um futuro. Do contrário, podemos nos divertir vendo as pessoas discutirem qual é o pior entre todos os outros.


Por Renan Jorge

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