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Por Que Votarei em Branco este Ano?

Atualizado: 10 de Out de 2020



Eu nunca fui um grande entusiasta das eleições municipais e, na verdade, nunca votei em nenhum político neste âmbito — uma tradição que parece-me mais viável manter. Contudo, essa não é a resposta para essa desejável provocação — tenho outros motivos que, você, caro leitor, pode julgar justo ou não.


Depois de deparar-me com a tradição conservadora, devo reconhecer que meu “paladar político” ficou um tanto áspero. Não que os únicos políticos notáveis sejam os conservadores — jamais recorreria à tamanha falácia —, mas porque, de algum modo, passei a enxergar na política poucas oportunidades para grandes mudanças. Minha disposição conservadora leva-me a crer que a política é mais um meio de preservação do que um instrumento de mudanças. Também há mudanças no âmbito político — algumas delas muito significativas —, mas acredito numa estrutura moral para um arcabouço político do que o contrário. Esse, portanto, seria o primeiro motivo por não estar ansioso para as eleições deste ano: os candidatos representam o oposto. Não somente no que concerne ao âmbito político, mas em relação à natureza filosófica do ceticismo. Até agora, pelo que tenho observado nos debates — que, com muito estômago e esforço, estou a tentar assistir — todos os candidatos têm feito grandes promessas, mas há pouca objetividade nesta retórica. Reconheço que seria muita ingenuidade esperar que não se use um discurso mais persuasivo em um debate político, mas não é só isso que me chama a atenção. O que despertou-me a atenção, nesse caso, foi a maneira como alguns grupos abraçaram com tanta veracidade meras narrativas, chegando a pensar que, ou por falta de atenção, ou por mera falha biológica, não percebi que tudo já estava por se cumprir. O que estou a dizer, nesse caso, é que as pessoas estão a abraçar promessas como se estas já tivessem sido cumpridas e, além disso, estas pessoas estão a avaliar as virtudes políticas “a priori” — um terrível engano. “Eu sou o melhor candidato, eu farei a melhor gestão, eu possuo o melhor plano”. Como podemos saber?

Essa via de argumentação, por outro lado, é como uma espada de dois gumes: corro o risco de ser confrontado com o argumento oposto: como pode dizer que não, já que não temos uma experiência para validar? Contudo, eu responderia essa pergunta com o mesmo entusiasmo com que me foi feita: exatamente, não há como saber, e se não há como saber, as pessoas não deveriam ser tão esperançosas: ilação não pode ser o alicerce político.


Mesmo sabendo que faz parte do jogo político, não consigo conter essa terrível aversão ao culto ao ridículo, pois é com esta expressão que a gramática cética descreveria este encontro entre sofistas. O leitor perdoe-me pelo que parece ser um argumento de tom mais austero, mas acho que há otimismo demais nesses debates, e talvez uma visão mais cética possa contribuir para o equilíbrio desta balança. Há de se pensar, também, que existem visões distintas de como se está a pensar em política. Sou, como boa parte do meu público já sabe, um entusiasta dos ensaios de Michael Oakeshott, e, portanto, do seu modo de se pensar a política. Na política do ceticismo — modelo que mais aprecio — não se está a pensar o Estado como símbolo ou modelo de atuação política, como agente responsável por conduzir uma sociedade à perfeição, se está a fazer o completo oposto: o governo deve dispor de poucas ferramentas em relação aos governados. Eu não quero que o Estado diga-me o que é melhor para mim, eu quero julgar isto por minha conta e risco. Eu não quero que o Estado provoque mudanças extraordinárias, eu quero que o Estado apenas deixe a sociedade caminhar com os próprios pés. O Estado não deve ser o modelo de mudança, ele deve incentivar a sociedade a tomar os próprios rumos. O grande problema é que este modelo ainda não é compatível com a política Brasileira, que está terrivelmente enraizada em figuras revolucionárias. A revolução, claro, é sempre muito atraente, porque é puramente sentimental. Não que o conservadorismo não seja, como reconhecera o próprio Scruton, a filosofia do vínculo afetivo, mas o vínculo, nesse caso, é um elo benéfico e duradouro, útil e agradável; a revolução opera aos moldes do sentimento oposto: a mudança está enraizada no ódio, na revolta, na destruição. Não estou a dizer que todos os candidatos estão a basear-se nesse sentimento, mas que as pessoas ainda têm orgasmos pela oportunidade de quebrar qualquer coisa que não seja sua propriedade.


Enfim, eu não sou capaz de julgar um candidato ou governo antes de seu mandato — isso é verdade ­— mas posso dizer que, baseado na experiência e no conteúdo das eleições nos últimos anos — não há nada de diferente. Existem candidatos que apoiaram todos os presidentes nos últimos anos, existem os jovens espíritos que ainda não sabem por que estão lá, existem aqueles que estão a pular de galho em galho, de dia deputados, de noite, prefeitos, existem os fracassados em segmentos diferentes que estão a buscar o poder em qualquer esfera que lhe conceda um benefício qualquer. O tempo é o único elemento que não me deixa mentir, estou a confiar nele. Até agora, portanto, só o que vejo é mais do mesmo, novos nomes, novos personagens, no mesmo cenário de sempre, trabalhando para cumprir um único objetivo: ganhar os aplausos da platéia. Eu prefiro não comprar este ingresso. Por Renan Jorge

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