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Quando o Mercado Estimula o Próprio Boicote

Atualizado: Nov 16

Escrito por @_Conservador



Ao refletir acerca do ocorrido envolvendo o portal de notícias on-line mais conhecido como a Gazeta do Povo e o portal de denúncias mais conhecido como Sleeping Giants Brasil, primeiro, é preciso elucidar certas questões que no meu entender vão além da legitimidade que se pode haver dentro de um boicote. Existem, dentro dos meios jornalísticos, inúmeras falcatruas envolvendo os senhores da imprensa, é verdade. Mas será que a pressão ostensiva e a patrulha de caráter expositivo e persecutório são as melhores vias para se promover uma mudança real nas atitudes dos donos do jornal? Da feita que há alguma irregularidade jornalística, até que ponto uma organização anônima pode expô-la de forma anônima sem sofrer qualquer retaliação jurídica por parte daqueles que consideram autoritária a atitude do denunciante? Por que os anunciantes do jornal foram pacatos e indolentes ao acatarem tão subalternamente os dizeres do referido portal mesmo se tratando de empresas autossuficientes em termos financeiros já que grande partes desses produtos são tão populares que transcendem inclusive a opinião política da empresa?


Claro que nem todas essas perguntas precisam de respostas, até porque certas inconformidades no ambiente de negócios acontecem regularmente a cada dia. Mas será que existe uma atitude racional dentro deste boicote em específico? Para quem não sabe, toda essa algazarra está sendo feita porque o comentarista Rodrigo Constantino (ao qual delego o mais profundo desprezo) foi questionado há cerca de algumas semanas atrás a respeito do caso envolvendo a jovem de 21 anos (à época) conhecida como Mariana Ferrer. O comentário furou a bolha dos politiqueiros mais assíduos e aguerridos do Twitter fazendo com que a notícia tomasse patamares além do esperado. Celebridades e personalidades muito influentes no Brasil e no mundo digital começaram a questionar a legitimidade da fala de Constantino a ponto de incluírem a sua filha em suas algazarras, até porque a fala do comentarista teria sido supostamente dirigida à ela. Inconformados, muitos militantes e ativistas, e portanto adversários de Constantino, começaram a pressionar os veículos aos quais o jornalista possuía algum vínculo na tentativa afastá-lo dos holofotes, desligando-o de qualquer meio de comunicação viável que repudiasse a sua fala insensível e completamente descabida, tendo em vista que uma relação harmônica entre pai e filha só poderia ser concebida justamente através da paciência, da persistência, mas principalmente, através da compaixão e da formação de vínculos afetivos, que por sua vez só podem ser elaborados se forem usufrutos de anos de educação e experiência dentro de um ambiente familiar regularmente estável, com um viés disciplinador e ordeiro que muitas vezes falta aos pais brasileiros.


Eu tenho lá minha dúvidas quanta à disciplina e à paternidade exercidas por Rodrigo Constantino, mas isso se mostra irrelevante, já que a Gazeta do Povo, jornal em que é colunista, o protege como um pai protegeria o filho de alguma ameaça externa. O jornal, conhecido pelas suas colunas tradicionais de opinião e pelo seu viés conservador, fez um último apelo à liberdade jornalística mantendo-o colunista seguindo não as rigorosas pressões da opinião pública, mas sim as suas diretrizes e princípios internos que consolidaram o jornal ao longo de décadas a fio. Sabendo das consequências, a Gazeta foi alvo constante de boicotes liderados pelo famoso portal de denúncias Sleeping Giants, cuja beleza se encontra na tentativa irrisória e quase espúria de se manter velado sob a tutela do tão assegurado anonimato. Certamente que não conheço os princípios constitucionais que fundamentam um boicote (até porque não os encontrei em termos formais e nem em lei), contudo acredito que por mais que possamos tecer críticas ao comentário infeliz do comentarista (como o fiz constantemente), temo que esse discurso de exclusão e silenciamento imprudente e de caráter persecutório possa ser extremamente prejudicial para o debate público brasileiro.


Não, não sou um ferrenho defensor da liberdade (absoluta) de imprensa, até porque muitos dos desmandos e das notícias inverídicas provenientes dos órgãos de imprensa surgem sob pretexto de liberdade de expressão. Onde já se viu direito à mentira, à indução ao erro, à injúria, à calúnia, à difamação, à contradição (não instintiva, mas voluntária, consciente, sabida)? Quando a imprensa erra e não se retrata, quando a imprensa arruína um negócio ou voluntariamente açoita um sujeito de maneira desproporcional a ponto de destruir a sua vida pública ou privada difamando-o ou injuriando-o com base em acusações infundadas e/ou inverídicas, será que os alardeadores da liberdade de expressão defenderiam o direito à mentira dos senhores da imprensa ou defenderiam o sujeito desta injustiça que foi fundamentada com base nos pretextos da liberdade do assassinato de reputações? Ora, mas essa indignação nem sequer deveria estar sendo levantada: junto à liberdade tem-se a responsabilidade, junto à inconformidade (jurídica) tem-se a legalidade. Tratam-se de princípios fundamentais que muitas vezes são desrespeitados. Nisto, o Constantino estava correto em afirmar que grande parte dos veículos tendenciosamente divulgaram a notícia do portal The Intercept Brasil sem a devida checagem dos fatos. Mas onde a liberdade de imprensa se encaixa nisto?


Se por um lado, eu critico a liberdade (total e cabal) da imprensa, por outro lado é claro que eu criticaria, também, a liberdade (total e cabal) das empresas de fazerem o que quiserem. Onde já se viu um ambiente, pelo fato de estar inserido em um ramo empresarial de negócios se sobrepor à lei e à ordem? Então quer dizer que se eu tenho um negócio, eu posso fomentá-lo e dirigi-lo como bem entender? Será que eu poderia utilizar deste ambiente para contratar tipos seletivos de funcionários, submetendo-os a qualquer regime ou carga-horária de trabalho, sem qualquer regulação ou preceito fundamentado no Direito Constitucional? Agora eis uma questão mais profunda: será que, através de um boicote, uma empresa qualquer poderia pressionar uma corporação jornalística de maneira a invalidar a liberdade de imprensa desta ao ser obrigada a demitir um funcionário por ter se exprimido (ainda que equivocadamente) acerca de um tema polêmico?


Percebam que na verdade o que importa não é a liberdade, porque se fosse, não haveria motivo para demitir Constantino, já que apenas uma nota de repúdio ou um comentário rancoroso (com razão) no Twitter bastariam. Por mais que possamos tecer elogios e críticas à liberdade de imprensa, é preciso ser coerente quanto a estes postulados. Vejam os casos da Adidas, da Kellogg e da Credcard, empresas milionárias que aderiram à campanha do Sleeping Giants ao boicotarem a Gazeta do Povo. Será que essas empresas realmente se preocupam com o comentário em si ou será que elas buscam alguma relevância ao constatarem publicamente o comentário de que repudiam a "violência" supostamente proferida pelo jornalista? Mais ainda, será que o Sleeping Giants está realmente preocupado com os dizeres de Constantino ou será que o papel da organização é justamente o de enfraquecer aqueles setores com os quais o portal possui alguma discordância?







O que seria dos detentores da informação, dos meios jornalísticos e de mídia (digital ou impressa) se uma organização qualquer viesse a delatar seu viés supostamente libidinoso e mau-caráter de modo a ocultar sua identidade? Caso este veículo de denúncias erre a informação ou se retrate perante a atribuição equivocada dessa acusação, como ele poderia responder criminalmente pelo equívoco? Ora, se o portal não pode responder à lei, por que então ele deveria obedecê-la? Anular-se-ia então qualquer jurisdição envolvendo os estigmas causados pelo Sleeping Giants. Seria como se o veículo tivesse um excludente de punibilidade para eventuais crimes aos quais pudessem estar relacionados.


Mas então, o que dizem os especialistas? Segundo a Gazeta do Povo, um dos maiores problemas envolvendo o Sleeping Giants e seus seguidores mais aguerridos envolve a sinalização de virtudes:


“Discutir a questão, fazer distinções, entender as sutilezas, a complexidade do assunto, é secundário. O que é mais importante para as pessoas é expressar indignação. É o meio mais eficaz que existe para as pessoas se sentirem virtuosas. Sempre quando alguém está revoltado, indignado, as pessoas pensam: ‘Só uma pessoa realmente muito, muito boa poderia estar assim tão revoltada contra o mal.’ Se as pessoas querem se sentir boas, essa revolta é o caminho mais fácil. Dar um passo para trás, discutir as coisas com certo distanciamento, já é abrir uma margem de dúvida sobre sua virtude. É muito perigoso discutir as coisas com calma. Você pode parecer um insensível.”
“Parece que o principal objetivo é incitar o tribunal da internet para ir atrás de pessoas e empresas que eles dizem que estão fazendo discurso de ódio, muitas vezes fazendo uma leitura muito simplista e sensacionalista de algumas situações.”
Pedro Damazio, especialista em liberdade de expressão.

Claro que não estou, na minha posição de colunista anônimo (ainda que amador), questionando o direito à proteção da identidade dos precursores do portal, muito pelo contrário. Sou um dos defensores mais ferrenhos da política que concebe o anonimato como elemento fundamental para aqueles que desejam expor as suas opiniões na internet. Contudo, sou um defensor mais ferrenho ainda na responsabilidade que um colunista ou um portal de denúncias deve ter ao insuflar as suas opiniões. Se Constantino está respondendo pelos seus atos, por que o Sleeping Giants não deveria? Vale ressaltar que já houve uma decisão da Justiça que determinou que o Twitter derrubasse o anonimato do perfil: na ocasião, a juíza Ana Paula Caimi, da 5ª Vara Cível de Passo Fundo (RS), intimou o Twitter Brasil a enviar à Justiça os dados cadastrais dos perfis Sleeping Giants Brasil, sendo que posteriormente à decisão, a rede social se manifestou indicando que preferiria pagar multa.


Para finalizar, dirijo-me aos meus leitores com os seguintes dizeres: não digo sim nem à Constantino, nem ao Sleeping Giants, mas sim à Gazeta do Povo que, de maneira honesta, consultou especialistas e manteve a sua compostura ao lidar com os gracejos tanto dos seguidores mais virulentos do portal de denúncias, como também do próprio portal uma vez que eles acometeram todos os colunistas e donos do jornal pressionando-os calorosa e persecutoriamente a fim de demitir o comentarista Rodrigo Constantino e em prol do tão alardeado direito legal e irrestrito da "liberdade entre as empresas." Em suma, por mais que possa-se fazer jus ao descabimento promovido por Constantino em sua fala protagonizada por dizeres altamente cruéis e insensíveis, não acredito que o caminho seja o cerceamento da liberdade do jornal de mantê-lo ou de retirá-lo seguindo a lógica interna da empresa, afinal, em tese, "elas poderiam fazer o que bem entendessem."




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