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Justiça Social vs Conservadorismo

Atualizado: 30 de Ago de 2020

Escrito por: @_Conservador



Introdução


Logo após a ascensão midiática do movimento conhecido como Black Lives Matter, um longo debate surgiu em torno das atitudes proeminentes de seus respectivos manifestantes a respeito da legitimidade deste movimento. É interessante notar que, por mais que o movimento tenha sob sua cartilha a defesa de pautas importantes como a inclusão étnica, redução das desigualdades e a defesa de pessoas negras que, em muitos casos, se encontram à mercê do Estado, é importante sempre revelar as atitudes mais espúrias e degeneradas que acometem uma parcela do movimento e que, infelizmente é, em muitos casos, acobertada pela imprensa internacional.


Porém, neste artigo, pretendo-me discorrer a respeito de questões mais insípidas e impopulares no que tange algumas das atitudes do movimento e de grande parte dos justiceiros sociais que, porventura, negam a natureza vil e ignóbil de diversas práticas cometidas, sob a ótica racial, por esses movimentos ditos pró-inclusão e pró-defesa dos menos desfavorecidos que utilizam, na maioria das vezes, as mesmas atitudes que julgam combater.



Os Justiceiros Sociais



Assim como grande parte dos socialistas, os justiceiros sociais acreditam que, em algum sentido profundo, os seres humanos são iguais perante a lei, igualdade esta creditada, muitas vezes, através de um ato radical, seja através de uma igualdade de resultados (que muitas vezes é forçada), seja através de uma doutrina que, por sua vez, possui um certo teor revolucionário de profundo rancor e descontentamento com o ritmo o qual algumas injustiças se fazem presentes na sociedade e no cotidiano em geral. É uma indignação um tanto quanto legítima. No entanto, é sempre válido lembrar que, do ponto de vista conservador, o fim precisa se valer do meio para que, através do vínculo sentimental das relações entre os mortos e os vivos, tudo aquilo que representou, no passado, um custo-benefício frente os avanços, tanto individuais quanto coletivos da sociedade, possam prevalecer e/ou serem mantidos ao longo do tempo.


Um justiceiro social, no entanto, acredita que, muitas vezes, esta relação se mostra ineficiente. Para ele, o vínculo de doações e recebimentos, as heranças históricas e culturais que nos foram deixadas, as instituições fundadas por nossos antepassados que foram preservadas por anos para nós, os sucessores, não passam de um mero trabalho obsoleto com prazo de validade vencido. Para ele, é válido menosprezar os propósitos e sentimentos daqueles que economizaram anos de suas respectivas vidas exclusivamente para invalidá-las, substituindo-as, por via democrática ou não, através da desconstrução (e porque não destruição) de todo o labor dessa criação que demorou anos para ser estratificada e consolidada.



O Embate pela Permanência da Tradição



É nítido perceber que, dentre esses aspectos, os justiceiros sociais e os conservadores possuem muitas diferenças latentes entre si, mas a principal diferença entre eles é o valor que ambos concedem à tradição. E é por isso que eu afirmo: ninguém faz mais descaso com a tradição do que os justiceiros sociais.


A tradição, ao contrário do que muitos pensam, não diz respeito a normas e regras arbitrárias e impositivas que todo ser humano deve seguir indubitavel e inquestionavelmente, tão pouco a um conhecimento técnico e teórico comum que pode ser facilmente ensinado à qualquer pessoa, trata-se, portanto, de uma questão muito mais complexa do que às vezes a própria razão. Para Edmund Burke, a tradição não diz respeito a normas, mas sim a respostas que foram descobertas a partir de questões perenes as quais foram compartilhadas e incorporadas nas práticas sociais e nas experiências adquiridas em convívio com a sociedade não as adotando, necessariamente, com a capacidade suficientemente lógica para explicá-las e ainda menos justificá-las. Este pressuposto, como Burke o descreveu, ficou conhecido como "predisposição."


Roger Scruton, um grande admirador de Burke, o cita brilhantemente em sua obra "How To Be A Conservative." Ao citar Burke, Scruton, por sua vez, consegue, prontamente, destrinchar a diferença entre aqueles que admiram a tradição (e a respeitam) e aqueles que, por diversos motivos, as negam e as desprezam:


"Saber o que fazer na vida social, o que dizer, o que sentir - essas são coisas que adquirimos por imersão na sociedade. Não podem ser ensinadas mediante explicação, somente aprendidas por osmose; mais ainda, a pessoa que não as adquiriu é corretamente qualificada como ignorante. Os períodos do dia, a atribuição de tarefas na família, as rotinas de uma escola, de uma equipe, uma liturgia religiosa, as medidas utilizadas numa empresa, as roupas que escolhemos para um compromisso social: tudo isso incorpora o conhecimento social tácito sem o qual as nossas sociedades se desagregariam."

A defesa das tradições, com Scruton as cita, diferem imensamente da lógica atribuídas aos justiceiros sociais. Se entendermos que a tradição pode ser consolidada tanto através de um meio moral como as boas condutas e o sentimento de pertença à família quanto através de um meio físico e palpável como uma igreja ou uma instituição religiosa, percebemos que existe um imenso abismo nas atitudes dos Conservadores vs Justiceiros Sociais.


Scruton, assim como eu, acredita que os socialistas do passado hoje aderem uma nova doutrina, a chamada "justiça social" e isso se mostra relevante, a partir do qual o movimento BLM (ao que tudo indica), de origem marxista, em diversos casos, se vale da violência, do descaso com a autoridade policial e da destruição de diversos monumentos de cunho público ou privado, sejam igrejas, bancos, estátuas e estabelecimentos (de pessoas negras, inclusive), tudo para validar uma agenda tipicamente destrutiva com o intuito de eliminar tudo aquilo que é antigo, velho e que representa o "retrocesso" validando assim a nova narrativa de reconstrução histórica em que a chave para todos os problemas se valida da eliminação do passado visando um progresso ilusório e meramente inexistente.



Cancelamento, a Censura Velada do Século XXI



É triste ver que a história humana é marcada por tantos retrocessos no que diz respeito a censura. Depois de um longo período de derrocada das democracias ocidentais durante a ascensão dos regimes totalitários tanto fascistas quanto socialistas, hoje nos deparamos com a derrocada moral de grande parte da esquerda mundial. O cancelamento, que carinhosamente apelido de censura velada do século XXI, nada mais é do que o exercimento e a imposição de práticas autoritárias para se fazer valer o ponto de vista histórico através de uma lógica de oprimidos, baseando-se nos pretextos de justiçamentos sociais, ao contrários dos marxistas que vislumbravam a história sob uma óptica de luta de classes.


Esta lógica se fez tão forte e presente no debate público que dezenas de profissionais e acadêmicos estão sendo retirados de seus postos nas Universidades justamente por criticarem este tipo "novilíngua", termo muito bem cunhado por George Orwell. Centenas de cartas foram enviadas para os diretórios acadêmicos pedindo a cabeça daqueles que discordavam, sustancialmente, dos termos e das metologias utilizadas por estes justiceiros. Veja se isso não se assemelha a uma censura: diversos professores sendo demitidos ou no mínimo rechaçados, num ambiente acadêmico, propício a discordâncias, justamente por discordar dos termos utilizados por estes progressistas ferrenhos.


Vale lembrar que esta metodologia se faz presente em diversos assuntos polêmicos com os quais nós, conservadores, somos caracterizados como preconceituosos e defensores daquilo que há de mais retrógrado na política nacional. Hoje, obviamente, esta lógica binária e tóxica, infelizmente, se consolidou em diversas alas da nossa sociedade. Ao criticar o aborto por exemplo, você é contra os direitos das mulheres - ao criticar a legitimidade da união homoafetiva, você é contra os direitos dos homossexuais - ao questionar os traços e a origem biológica daqueles que nascem homens e se tornam mulheres e vice versa, você é transfóbico, não aceita a inclusão e tão pouco a maleabilidade genética dos indivíduos de se tornarem aquilo que querem ser, afinal "Quem é você para dizer o que eu sou? Eu decido como eu me sinto!" (validando-se assim de uma tremenda e completa subjetividade de cunho pessoal).


Conclusão


Alguns diriam que tudo parece perdido, porém, apesar da minha linha mais cética, eu vejo esta fase do cancelamento com bons olhos. Existem, impreterivelmente, alguns ótimos expoentes que souberam aproveitar esta onda irracional e que cresceram (no debate público) questionando, corajosamente, os desmandos causados gerados por essa onda do cancelamento. O maior exemplo disso é o professor de Psicologia da Universidade de Toronto Jordan Peterson que, de maneira elegante, combateu e combate até hoje os argumentos falaciosos dos ditos justiceiros sociais. São pautas como estas que são responsáveis por dar voz racional, muitas vezes, a alguns conservadores e liberais clássicos (como Peterson) que conseguem, de maneira simples e objetiva, explicar diversas dessas questões ao público.


Por mais que os prejuízos se façam mais presentes, é indiscutível que esta distinção, no futuro, poderá não só dar voz a uma Esquerda mais democrática, racional e comprometida em resolver as questões sérias que nos afligem como gerará na Direita uma reflexão muito importante a respeito da maneira com que o indivíduo deve se portar para com aqueles cujas opiniões podem parecer conflitantes. É necessário, portanto, extrair o melhor possível, nesse aspecto, das duas vertentes ideológicas, tanto Direita quanto Esquerda.


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