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Se Políticos não Devem ser Adorados, eles devem ser o quê?

Atualizado: 8 de Set de 2020




Há na crítica à adoração política uma dúvida sobre o posicionamento de um eleitor em relação aos seus representantes. Quando se está a dizer que políticos não são dignos de adoração, há o risco de provocar o comportamento oposto: que seria dizer que eles são dignos de ódio. A verdade é que correntes assim existem e normalmente não retratam nada além de seu ódio descontrolado. O fato é que a política é um exercício tão velho quanto a humanidade, afinal, ela surge justamente como a capacidade de exceder os limites de nosso eu primitivo, fazendo-nos "animais políticos". Embora alguns espíritos tenham manchado esse legado histórico, a política é uma arte intrínseca ao homem, capaz de torná-lo diferente de uma besta qualquer. A capacidade de perceber o que deve-se ou não fazer, o balanço entre o campo da ética e da moral, as mais divergentes discussões, sobretudo entre os gregos, todas fundidas e eliciadas até os dias atuais. O grande questionamento é saber se o ideal é que o homem governe a si mesmo, ou que seja governado por outro. De qualquer modo, como estamos a falar do Brasil, vale ressaltar que adotamos o regime republicano, aos moldes da democracia representativa. Noutras palavras, a vontade popular não é o bastante, é preciso defender os interesses do povo deles mesmos. O problema é que para que isso aconteça, é preciso escolher muito bem os nossos representantes. Ao passo em que as paixões costumam ditar as relações, tal exame fica sustentado ao extremo: políticos, ou se ama, ou se odeia. Portanto, o questionamento é válido: eles devem ser o quê?


Burke, o pai do conservadorismo, discorreu sobre o sentimento ideal entre os governantes e seus governados. Claro, estamos a falar em um sistema completamente distinto do republicano, o monárquico. Na monarquia, portanto, o povo deve lealdade à coroa, mas o rei também deve respeito ao seu povo. O grande problema da democracia em desenvolver-se desta forma é que ela passa por sucessivas mudanças de governantes, impedindo, pelo menos a meu ver, qualquer vínculo estável. Não há tempo para criar qualquer elo entre estes dois personagens, e dependendo do modo em que esse regime é adotado, o exercício político servirá apenas para garantir estabilidade financeira e ganho pessoal, sem qualquer esforço individual. A denúncia de Burke em relação ao ideal abstrato da revolução era justamente essa: eles optaram por uma mudança completamente abrupta e irracional. Para o autor, somente um espírito completamente conturbado provocaria, massivamente, o ódio aos seus costumes, às suas tradições e aos seus governantes. Esse suposto grito de emancipação foi uma espécie de salvo-conduto para cometer as mais distintas atrocidades. O ódio desenfreado provocará mais matança e revolução, mais impiedade e caos, nada bom pode surgir do ódio, era isso que Burke tentava dizer. Além deste consagrado autor, o próprio Alexis de Tocqueville foi um dos pioneiros na análise da incorporação de um sistema democrático, o que rendeu uma obra realmente atemporal, o seu famoso ensaio "A Democracia na América". Nele, o próprio autor já apontava uma falha crucial num sistema democrático negligente - o modo de obter vantagens e lucros. O sentimento de ódio e revolta, portanto, são mais do que compreensíveis, mas nada benéfico, nem ao autor, nem às vítimas.


Outra vez mais estou a perguntar, se estamos distante do modelo britânico, se não adotamos em nosso espírito social o regime monárquico, como garantir o respeito e este mesmo elo? Este é o comportamento ideal entre governantes e governados?

O respeito e a fidelidade entre governantes e governados são o aporte para um relacionamento duradouro e desejável. Contudo, esses sentimentos são fruto de uma construção que envolve fatores históricos e culturais, e, portanto, é impossível debater este tema sem antes olhar para o nosso passado, para nossa história. Por que estamos a odiar nossas instituições? Por que estamos a odiar nossos políticos? Evidentemente, o "passado" - nem tão distante assim - mostrou que nosso sistema democrático está bem mais próximo da democracia negligente de Tocqueville do que o abstrato ideal dos iluministas franceses. Quem pode culpar o povo por despertar esse sentimento? Há, contudo, a necessidade de manter no espírito a consciência de que nossas instituições devem ser preservadas, sob pena de legar somente o caos e a desordem à posteridade. O político, portanto, deve ser respeitado à medida que este respeita o seu povo, nesse caso, deve-se ser virtuoso para cobrar qualquer coisa de seu eleitorado. Contudo, a existência do respeito e do elo não deve pautar-se apenas por uma fidelidade abstrata, mas deve partir de uma atitude mais cética em relação à política e aos políticos, no sentido que estes devem ser policiados. Nem deuses, nem semideuses, políticos nada mais são do que homens que governam homens, aliás, de algum modo, todos nós o somos - a menos, é claro, que você seja incapaz de conter os próprios vícios.


Políticos e suas funções na sociedade, este sempre será um tema de diversas discussões, tema que não limita-se ao exercício político em si mesmo, mas reflete sobre o modelo sob o qual está edificado. O que os políticos merecem de nós? Ceticismo, talvez. Mas antes de amaldiçoar qualquer espírito, para os mais revoltosos em relação à política, é preciso lembrar-lhe que você também é um "animal político". Quando estou a dizer que políticos merecem ceticismo, estou a falar que eu também mereço a desconfiança saudável que toda relação duradoura detém: a prudência em jamais abraçar extremos.


Por Renan Jorge


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