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Sensacionalismo é Ruim, mas não Deve Ser Censurado

Atualizado: 21 de Set de 2020



Lembro-me que quando não havia tantas opções para passar o final de tarde, quando mais jovem, gostava de assistir TV. Quando meus programas favoritos terminavam, começava o jornal, e eu, naturalmente, mudava de canal. Nenhuma criança gosta de assistir jornal, especialmente se for do tipo sensacionalista — pelo menos eu estou inclinado a pensar assim.

Hoje, depois de tantos anos dessa lembrança, ainda carrego esse sentimento de criança: continuo sentindo aversão por esse tipo de programa. Na realidade, deixei de assistir TV há um bom tempo — creio que poucos assistem hoje em dia. Por que estou a relatar tudo isso? Em primeiro lugar, querido leitor(a), para demonstrar que nem de longe sou um adepto deste tipo de jornal. Em segundo lugar, porque senti, mesmo que por um breve momento, parte dos meus sentimentos de criança e percebi que certos hábitos nunca mudam — talvez seja interessante compartilhar isso.


Surgiu uma nova ideia legislativa, que já alcançou 22.048 apoios, até a atualização que estou a ver 18/09/2020, às 23:01, que visa proibir programas policiais — sensacionalistas — de serem exibidos pela televisão aberta. A ideia propõe a proibição desses conteúdos das 6 as 22 horas.


Acredito que este projeto, a priori, não tenha sido elaborado com más intenções. Ninguém é obrigado a gostar de nenhum tipo de programa — e seria loucura obrigar alguém a tal ato. Contudo, apesar de reconhecer essa preocupação e senso protetor, acredito que a única censura válida a ser aplicada, nesse caso, é em si mesmo: se eu não gosto de um jornal sensacionalista, posso abster-me de assisti-lo, mas não posso impedir ninguém de visualizar tal conteúdo. Seria completamente diferente se fosse impossível desligar a TV, ou mudar de canal, ou se eu fosse forçado, mesmo recusando e deixando bem claro que não queria ver tal conteúdo. Entretanto, este não é o caso.


A proibição, no entanto, não parte somente de uma aversão ao Estado, de modo que este não possa exercer limites sobre algumas coisas — não estou a dizer isso. O ponto é que eu devo escolher o que desejo ou não assistir, desde que determinados limites éticos sejam respeitados — motivo pelo qual não deve-se fomentar pedofilia, por exemplo. A ideia, portanto, é que eu possa errar por minha conta e risco, que eu possa escolher o que desejo assistir e, mesmo que eu não queira ver, que eu não impeça outros indivíduos de o fazerem.

Baseio-me nos ensaios de John Stuart Mill. Para o filósofo britânico, o paternalismo é desejável apenas para crianças, mas inviável em relação ao adulto, cujo intelecto o permite fazer suas escolhas e ser capaz de lidar com as consequências dessas mesmas escolhas. Por esse mesmo motivo, como você já deve saber, caro leitor(a), alguns conteúdos possuem faixa etária e indicações com relação ao seu público, mas, ainda assim, quando transmitidos em horário nobre, caso tais indicações sejam violadas, tal conduta é de inteira responsabilidade dos pais — eu também não posso interferir nisso. Se você não deseja que seu filho corra o risco de assistir tal conteúdo, por favor, tire-o da sala.


A ideia, como disse, pode não partir de um espírito ruim, pode não ter nenhum sentido mais profundo. Contudo, apenas o fato de não gostar de algum conteúdo não concede-me o direito de censurá-lo. E se todos que não gostam de futebol quisessem acabar com os jogos? E se todos que não gostam de programas culinários, propagandas e afins quisessem acabar com tais programas? Noutras palavras, e se você fosse impossibilitado de assistir o que gosta? Parece estúpido gostar de um programa assim? Talvez, mas isso não cabe a você decidir. Ninguém quer, em sua casa, com o controle remoto "nas mãos", alguém decidindo o que você vai assistir hoje. Nós podemos manifestar nossa repulsa, criticar, fazer comentários, mas esse é o limite que um país democrático — se desejamos ser assim — deve assumir. Acho que existem preocupações e projetos mais importantes a serem discutidos. Perder tempo com quem assiste jornal sensacionalista é algo que eu não pretendo fazer.


Por Renan Jorge

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